Marcos tocou a campainha, torcendo para que não houvesse tempo suficiente para ir embora. Tomara o ônibus num impulso, sabendo que o que Dani lhe dissera fazia sentido, mas ainda tentando controlar a raiva e a sensação de ter sido traído. Achara que seus sentimentos tomariam sua devida proporção enquanto estivesse a caminho, o que não aconteceu, e agora o que ainda gritava na sua cabeça era o pensamento que aquela filha da puta amiga da onça não retornava seus telefonemas, não o procurava, se recusava a falar com ele há quase um ano. E ainda por cima resolvera se mudar, e como se não bastasse para o prédio do André, todo mundo sabendo que ele passava pela porta dela quando subia as escadas, menos ele. Isso tudo vindo de uma pessoa que costumava se declarar sua melhor amiga. Houve sexo, é claro, mas porra, eram adultos, eram amigos, e se dois amigos que se sentiam atraídos um pelo outro não pudessem transar sem começar um drama daqueles, então ela que não o tivesse beijado, ela que parasse com aquela mania de segurar a sua mão e abraçá-lo por qualquer besteira. Ele era homem, droga. Não fizera nada que Joana não parecesse estar a fim, e muito.
A porta se abriu, e Marcos sentiu que a raiva que o queimava corria o sério risco de ceder. Joana materializou-se em sua frente, a mesma pele macia, os mesmos olhos expressivos, os mesmo cabelos longos e encacheados, os mesmos ossos de passarinho. Ela estava usando um short surrado e uma camiseta, a mesma roupa que usara no dia da mudança dele e que quase podia ser um uniforme. Segurava uma furadeira e arregalou os olhos quando o viu.
-Marcos? – perguntou, atônita. – Como você...
-Por quê? Estou proibido de te visitar? – Perguntou, sentindo a mágoa voltar com toda força. Joana se recuperou do susto muito bem.
-Não, é que o interfone não tocou, então eu pensei que fosse o André. Entra.
Ela deu espaço para que ele passasse. A sala estava na mais absoluta desordem, com caixas espalhadas por todos os cantos. A televisão e o sofá eram os únicos que pareciam já ter encontrado seu lugar, e Marcos se controlou para não sorrir, pois sabia que Joana não ficaria sem seus filmes mesmo que não tivesse móveis, água ou telefone. Havia um banco próximo à janela e, a julgar pela furadeira, Joana estivera tentando pendurar uma samambaia.
-Quer ajuda? – Apontou o vaso que estava no chão.
-Eu já acabei. Senta.
Enquanto ele se sentava, Joana certificou-se que o gancho estava seguro e prendeu a corrente da samambaia. Depois se afastou para ver como tinha ficado. Sempre adorara plantas, e sua mania de falar com elas gerava vários comentários bem-humorados dos outros. Ela agora olhava a sua samambaia em seu apartamento, de um jeito doce e orgulhoso, e Marcos sentiu que o bloco de gelo que carregava dentro dele se derretia. A raiva cedia a uma mistura de ternura, amor e saudade, e perguntou-se desde quando Dani aprendera a ler pensamentos.
-E então? – Joana se virou para ele. A doçura havia desaparecido do seu olhar e dado lugar a um óbvio desconforto. – Não é grande coisa, eu sei, mas vai ficar muito melhor quando eu terminar de arrumar.
-Você pretendia me contar? – Ele perguntou. Não queria mais provocar uma briga, mas achava que merecia uma explicação.
-Claro que sim – ela sorriu, visivelmente sem graça. – Eu ia convidar vocês assim que o apartamento estivesse pronto, dar uma festa e tal.
“Vocês”? Desde quando ele era “vocês”? Joana havia colocado o banco em frente ao sofá e se sentado nele, mantendo uma distância que o magoava ainda mais. Ela torcia as mãos e olhava para baixo como se fosse uma criança levando bronca. Chocado, Marcos se deu conta que ela ainda não o olhara nos olhos uma única vez desde que chegara.
-Se eu me lembro bem, combinamos que eu te ajudaria quando você se mudasse. – Começou, agora querendo feri-la.
-Mas não foi uma mudança muito planejada, eu e os meus pais brigamos... – Tentou se explicar, ainda fixada nos próprios sapatos.
-No ano passado, quando você se enfiou na casa da Alice, mas esqueceu de me avisar que eu estava proibido de falar com você – sua voz estava se elevando, o que ele não queria que acontecesse, mas não podia evitar. E, quanto mais frustrado se sentia, mais alto falava e mais queria que Joana se sentisse tão mal quanto ele. – E depois você se muda, e eu fico sabendo que não era segredo pra ninguém, só pra mim. E você nem tem o trabalho de me explicar o que foi que eu fiz. Eu fazendo papel de idiota achando que você tava com os seus problemas, que queria ficar sozinha, tentando respeitar, mas o problema era eu, todo mundo falando com você, todo mundo sabendo onde você estava. Então agora, se você não se importa, eu acho que eu mereço saber o que eu posso ter feito de tão grave pra receber isso em troca.
Joana estava à beira das lágrimas, e Marcos murchou como um balão que perde o ar. Conheciam-se há quatro anos, ele a consolara durante o fim de dois namoros e inúmeras brigas com os pais, mas nunca a vira chorar. Não acreditara ser capaz de provocar uma reação daquelas, e por alguns segundos ficou imóvel, inteiramente atônito, sem saber como agir. Quando Joana finalmente soltou um soluço e ele percebeu que as lágrimas rolavam pelo seu rosto, a raiva se desfez de vez e ele se abaixou, tentando pegar suas mãos.
-Eu fiz um aborto! – Ela gritou, arrancando as mãos das dele. Foi tão inesperado que ele custou a entender. – Eu fiquei grávida no norte, e foi por isso que eu saí de casa. Eu não te contei porque tinha medo que você fosse me mandar abortar. E no fim foi isso mesmo que eu fiz.
Agora ela chorava tanto que não conseguia falar, e durante seu silêncio as palavras que acabara de ouvir começaram a fazer algum sentido para Marcos. Ele se lembrou que naquela noite estavam tão bêbados que não usaram proteção alguma, o que pareceu não ter importância nem antes nem depois porque ele sempre se julgara invulnerável. As outras pessoas morriam em acidentes, as outras pessoas ficavam doentes, as outras pessoas engravidavam as amigas, mas não ele.
-Eu não consegui olhar para você depois disso – ela continuou, quando os soluços estavam sob controle. – Não poderia ser sua amiga com um segredo desses, e não podia contar. Se contasse você me odiaria, ou ficaria aliviado, e... e.... e eu não agüentaria.
Os soluços voltaram. Marcos não sentia ódio ou alívio. Estava oco, chocado, apático. O máximo que conseguiu foi:
-Eu não sei o que dizer.
E houve um novo silêncio, ainda mais incômodo que os anteriores. Por fim, Joana respirou fundo e enxugou as lágrimas, lembrando vagamente a Joana forte que ele conhecia.
-Então não diga nada. Agora eu já contei, são águas passadas, e eu já tirei isso de dentro de mim. Eu vou voltar para o grupo, talvez na próxima viagem, e tudo vai ser como antes.
Marcos sentia que nada poderia ser, nem de longe, como antes, mas não tinha forças para discutir. Sentia um bolo na garganta e sua única preocupação era sair dali antes que começasse a chorar também. Como precisava se conter até chegar à casa da Dani, murmurou uma despedida e saiu do apartamento o mais rapidamente que conseguiu.
-----
Daniela olhava o irmão, tentando se lembrar que ela sempre havia sido a mais prática dos dois, a responsável por segurar a onda e, se não o fizesse, então eles estariam fodidos de vez. Marcos chorara como não fazia desde pequeno, e naquelas ocasiões era ela quem o consolava, como agora. A merda era muito maior do que parecera. Entendera a raiva inicial de Joana com a atitude machista de Marcos, se irritara um pouco ao ver a teimosia dela e a mágoa do irmão, e agora tudo fazia sentido, os dois tinham toda razão em se sentir tão feridos e a culpa não era de ninguém, talvez fosse da própria Daniela, que provocara aquela maldita bebedeira no norte. Mas tinha de deixar sua consciência pesada para depois, agora seu irmãozinho precisava dela.
Foi à cozinha e trouxe duas cervejas. Esperou que Marcos se acalmasse completamente e, depois de algum tempo em que os dois estavam em silêncio, bebendo, ele murmurou:
-Você estava certa. Ela é a mulher da minha vida e eu estraguei tudo.
-É claro que é, e você não estragou. Ela está deprimida, isso acontece, afinal de contas ela não arrancou um dente. Mas você não ficou com ela antes porque não sabia de nada, e se não sabia foi porque a própria Jô preferiu guardar segredo. Não foi sua culpa.
-Mas eu não disse nada. Eu fui embora. – Marcos respondeu, após dar outro gole na sua cerveja.
-O que não foi nem um pouco legal, mas dá pra entender, não dá? O que ela te deu não foi uma notícia, foi uma marretada na cabeça. Quem saberia como agir numa situação dessas? Nem a Jô soube, e olha que ela teve tempo pra pensar. Você só tinha alguns segundos pra dizer a coisa certa.
-Ela deve estar me odiando.
-Provavelmente. – Dani respondeu, com sua sinceridade de costume. – Mas não vai ser pra sempre. Ela te ama, lembra? Agora nós precisamos reparar os danos. A Jô não disse que tá voltando pro grupo? Então, que ótimo! Significa que ela está melhor, e que pelo menos alguma coisa está voltando a ser como antes. Vamos dar um tempo para vocês dois se acalmarem, e vocês vão se reaproximar aos poucos, você vai ver.
E, diante do olhar incrédulo de Marcos, Daniela sorriu:
-Eu já estive errada?
-Você não sabe de tudo.
-Não gostei da resposta.
Mas Marcos não estava com humor algum, e não disse nada. Daniela sentia o coração pequenininho e uma vontade absurda de pegá-lo, ir atrás de Joana, e forçar os dois a fazerem as pazes. Como sabia que não podia mais fazer isso, não depois que seu irmão virara adulto, limitou-se a oferecer hospedagem durante aquela noite.
-Tá – ele respondeu, como se seu espírito estivesse muito longe do corpo.
-Amanhã vai ser melhor, acredite em mim.
-----
Assim que Marcos fechou a porta, Joana se arrastou para a cama, onde permaneceu por mais de vinte quatro horas. Destas, chorou durante trinta minutos sem tentar identificar o que sentia, permaneceu imóvel e sem pensamentos por mais quinze, dormiu por quinze horas, e se maldizeu durante o tempo que sobrou. Era muito fácil dizer que Marcos não fazia falta quando não o via, e agora era impossível não admitir que tinha tantas saudades que a dor era quase física. Também tentou procurar alguma raiva dentro de si, qualquer sementinha, mas era uma tarefa vã após ver o quanto o havia machucado. Ele tinha aqueles olhos azuis lindos pra cacete que não escondiam nada, e só uma cega ou idiota completa não teria percebido que ele se sentia traído e, mais tarde, assustado o suficiente a ponto de ser incapaz de falar algo decente. E, sinceramente, ela não havia chorado durante meses? O que esperava dele? Que a abraçasse e dissesse que tudo ia ficar bem? Na melhor das hipóteses, quem teria de consolá-lo era ela, e não o contrário.
E foi assim que Joana chegou ao fundo do poço, deu impulso e retornou à superfície. Preferia morrer a entrar naquela onda de autopiedade novamente, e foi como se levantasse da cama pela primeira vez depois de dez meses. O relógio avisou que já eram cinco horas da tarde de domingo, mais um fim-de-semana perdido, mas o último da sua vida. Entrou no chuveiro, esfregou o corpo com esponja e sabonete esfoliante, lavou os cabelos, teria feito hidratação se não estivesse louca de pressa para tocar a vida. Finalmente, colocou um vestido e saiu, ainda com o cabelo pingando pelo corredor.
André abriu a porta.
-Acabei de chegar – avisou, logo que a viu. Depois arregalou os olhos: - Ué, esqueceu de comprar toalha?
-Tô pronta. – Anunciou, triunfante.
-Como assim? Tá pronta pra um secador?
-Não, bobo, pronta pra trabalhar. Vai pegar o caderno preto, anda.
André sorriu de orelha a orelha e disparou para o quarto. Quando voltou, Joana já havia pego uma cerveja na cozinha e estava sentada em um almofadão:
-Quando você pode? – ele se sentou ao lado dela e abriu o caderno.
-Teoricamente, a qualquer hora. Como já estamos no meio de agosto, que tal setembro?
-Beleza. Eu tô ocupado, mas acho que o Marcos pode tirar férias. Vou ligar agora para ele.
-Não! – Joana quase gritou. Foi automático. Precisava, sim, que Marcos fosse nessa viagem e que conseguissem encontrar um caminho de volta à velha amizade. Mas não podia falar com ele agora, não imediatamente. Um passo de cada vez. – Deixe eu confirmar com o meu chefe, primeiro. Quando estiver tudo certo, a gente marca a reunião e decide quem vai. O que temos na agenda?
André, ainda sorrindo, virou algumas folhas. Normalmente ele já ficava empolgado em momentos como aquele, e o fato da Jô estar de volta lhe provocava quase um orgasmo.
-Lembra a idéia que você deu quando voltou do norte? Algumas ongs parecem interessadas. Acho que vai rolar. Mas a gente pode ver outra coisa, se você preferir. – Acrescentou rapidamente, ao ver que o sorriso de Joana tremia.
-Não – ela se apressou: - Por mim está ótimo! Se todo mundo concordar, eu topo. Já topei. Mesmo.
-Eu entendi da primeira vez – André respondeu, um pouco assustado com a ênfase de Joana. – Tudo pra te fazer feliz, esse é o meu lema. É que existem mais algumas questões que a Alice sugeriu, e ela anda meio emburrada porque a gente nunca usa as sugestões dela.
-A última vez – disse, para não falar “norte” - não foi sugestão dela?
-Na verdade, foi do Marcos. Ela só se empenhou muito pra gente aceitar.
“Caralho, a Alice e o Marcos”, pensou, sentindo uma pontadinha no peito. Agora que voltara das cinzas, precisava cuidar daquilo também.
-Vamos falar com o pessoal, e ver o que a maioria decide. Continuam todos no grupo?
-Não se preocupe, a gente não chutou o Renato na sua ausência. E concordo, ele é gente boa pra caramba. A Tati saiu de vez depois que ficou grávida, resolveu virar mãe em tempo integral, e aquele marido dela também não deu muita força.
-Ah, por favor!
-Estamos precisando de gente... Ficamos reduzidos a eu, você, Marcos, Dani, Renato e Alice.
-Ô incompetência! – Joana brincou. – Não posso nem dar as costas.
-Não somos nada sem você... – André completou, bem humorado.
-Então agora feche esse caderno e me diga o que anda acontecendo no resto do mundo.
Enquanto descobria quais os últimos discos que André havia comprado e separava uma pilha de livros pra levar emprestados, Joana se esforçou muito para manter a convicção de que estava pronta. Anotou mentalmente que precisava telefonar urgentemente para Alice e anunciar a sua volta, comprar roupas novas pela primeira vez depois de quase um ano, dar uma volta na praia assim que fosse possível, e falar com seu chefe no dia seguinte logo pela manhã, antes que desistisse. Estava tão apavorada e empolgada que decidiu comprar um diário, para poder reler depois e ver os progressos que fazia. Era muito bom reassumir o controle da sua vida.
-----
O efeito dominó começou assim: André havia acabado de entrar na redação quando tocou o telefone da sua mesa.
-Tudo certo. Férias! – Ouviu uma voz feminina e animada.
-Legal, Jojô! Posso falar com o Marcos?
-Só se for agora. Beijos!
Marcos, ainda com o peso no peito que sentira o fim de semana inteiro e um humor de cão, atendeu ao telefone no segundo toque.
-Pode falar? - Perguntou André. E continuou, ao obter um grunhido como resposta. – Arrume as malas. A Jô voltou.
-Puta que pariu! – Ele gritou, fazendo várias cabeças se voltarem na sua direção.
-Você consegue férias pra setembro?
-É pra já. Vou ligar pra Dani.
-Falou. Eu ligo pro Renato.
Marcos desligou o telefone e discou um número, sem coragem de levantar a cabeça e encarar seus colegas de trabalho depois da explosão.
-Alô?
-Ela voltou! Vamos em setembro.
-Ai, meu Deus, cheguei a ficar arrepiada! E aí? Eu já estive errada?
-Nunca, você está sempre certa, eu te amo, se você não fosse minha irmã nem sapatão eu casava contigo.
-E pra onde vai ser?
-Não sei, o André ia ligar pro Renato, e eu liguei pra você.
-Ninguém avisou a Alice? Ela vai surtar.
-Vou fazer isso agora.
O telefone tocou em outro ponto da cidade.
-Alô?
-Alice? É o Marcos.
(Suspiro) – Marquinhos, você sumiu o fim de semana todo!
-É, foi meio brabo, mas tenho ótimas notícias.
-Fala.
-A Jô tá voltando, a gente viaja mês que vem.
Silêncio. Antes que Marcos perguntasse se ela estava bem, uma voz um pouco aguda e animada demais voltou ao telefone:
-Que bom! Eu tô tão feliz! Tô louca pra viajar de novo!
-Peraí, vai dar pra você tirar férias?
-Eu dou um jeito, nem que seja a última coisa que eu faça. Só... Ah, deixa pra lá.
-O quê?
--É que... Bem, só fiquei surpresa por não ser a primeira a saber, eu sendo a melhor amiga dela e tudo. Pelo menos você me ligou primeiro, foi legal.
-É... Eu tenho que trabalhar. – Marcos mudou de assunto para não confessar que ela era a última a saber.
-Eu também.
E a última peça do dominó caiu em cima da primeira. Joana estava sentada à sua mesa, tentando desenvolver poderes telepáticos para descobrir como Marcos reagiria ao seu retorno, quando foi a vez do seu telefone tocar.
-Alô?
-Oi, mulé. Sumiu, hein? O fim de semana inteiro sem notícias!
-Pois é, andei ocupada resolvendo a minha vida. Desculpa – Por que Alice sempre a fazia se sentir culpada? – E resolvi. Tô voltando.
-Que bom! Eu tô tão feliz! Tô louca pra viajar de novo! – repetiu, novamente aguda e animada demais. – Já falou com a galera?
-Só com o André, pra ele agitar a reunião. Pena que talvez não dê pra você ir, né?
-Dá sim, eu dou um jeito. Vamos marcar na praia essa semana?
-Vamos!
E assim terminou.