Cena Extra: Joana deixa o hospital. By Autora

Dani entrou no quarto carregando sua sacola, e ignorando o velho babão do leito ao lado da porta. Com seu metro e oitenta e um de altura, seus cabelos louros e seus olhos azuis, o que mais encontrava pela frente era velhos babões, e agora já os ignorava com a mesma naturalidade com que andava ou respirava. Joana lhe pareceu menor e mais magra que nunca, perdida dentro daquela horrorosa bata de hospital, olhando pela janela com olhos fundos, mas com um sorriso de antecipação. Ganhava a sua liberdade depois de meses horrendos, e Dani não perderia aquele momento por nada no mundo.


-Bom dia! – Dani saudou alegremente, fechando a cortina para bloquear a visão do velho tarado. – O Marcos foi buscar o carro, e eu vim direto do trabalho pra te deixar apresentável pro mundo. Preparada?


Joana sorriu mais um pouco e assentiu. Enquanto isso, Dani abriu a sacola e tirou toda a sua parafernália: roupas, sapatos, escova de cabelo, perfume contra o cheiro de doença, o cordão que Joana usava desde que se entendia por gente.


-Não sei o que estou odiando mais. Este quarto, esta bata ou a companhia – Joana cochichou, enquanto pegava a escova.


-Eu sei. Se ele não estivesse tão nas últimas eu já teria lhe dado um tabefe.


-Não vejo a hora de ir pra casa.


Dani deu um sorriso esquisito que Joana não percebeu, pois se olhava no espelho e tomava um choque ao ver seu rosto encovado, seus olhos fundos, e sua palidez. Já se vira outras vezes no ultimo mês, mas achava que, cada vez, sua aparência era pior. Não deixava de ser ridiculamente contraditório um lugar que deveria restabelecer a sua saúde te deixar com uma aparência de zumbi.


-Na verdade – Dani começou, ajudando Joana a tirar a bata – você não vai para casa. É que você não pode ficar sozinha, entende. A gente resolveu te levar pra casa do Marquinhos, já que achamos que você não iria se importar. – Contou, cheia de dedos, tentando deixar o assunto de que tinha outra morando no seu apartamento para mais tarde.


-Não, não me importo – Joana respondeu, sentindo uma infinidade de sentimentos contraditórios. – Só que... É que... Vai levar um tempo até eu ter uma vida normal, né?


-Vai – respondeu Dani, com a sinceridade de costume. – Mas lembre-se que você vai ter um homem lindo te paparicando vinte e quatro horas por dia. Bom, quer dizer, 16 horas por dia, por que com o trabalho e tal a minha mãe esta vindo pra ficar com você.


-Como assim? – Joana perguntou, incrédula.


-Meus pais estão chegando amanhã, e a minha mãe vai ficar com você enquanto o Marcos trabalha.


Joana repentinamente chegou a várias conclusões tristes. A primeira era que não importava se estava saindo do hospital, continuava uma inválida que precisava de ajuda para se vestir e tomar banho. A segunda foi que possuía uma família tão cabeçuda que, quando mais precisava, tinha de pedir emprestado a mãe dos outros para ajudá-la. A terceira foi que não conhecia a família do Marcos, e que seu primeiro contato com eles seria daquela forma absolutamente patética e humilhante. Dani percebeu o que passava pela cabeça da amiga e não teve coragem de dizer nada, continuou olhando fixamente para as roupas que a ajudava a vestir.


-Isso é deprimente.


-Claro que não – Dani falou rapidamente, ainda às voltas com a saia e sem levantar os olhos, pois na verdade era um pouco deprimente, sim. – Você tem uma porrada de amigos que te amam, um namorado louco por você, uma sogra que sai do outro lado do planeta pra te ajudar sem nem ao menos te conhecer. Não vou te enganar não, ela vai te deixar louca. Mas existem milhares de pessoas no mundo em situações piores e com uma equipe de apoio bem menos dedicada. – Ajudou Joana a se colocar precariamente em pé, para que pudesse levantar a saia. – Além disso, todos os seus amigos estão te esperando em uma festa de boas vindas, que era surpresa, mas foda-se.


-A Alice apareceu?


Dani deu um sorriso torto. Agradeceria muito se Joana parasse de abordar, um por um, todos os assuntos delicados.


-Na verdade, não. Mas, sinceramente, você precisa mesmo de uma amiga como ela?


Joana fez que não com a cabeça, ainda sem saber como se sentir em relação ao assunto “Alice”. Por pior que tivesse sido a briga das duas, recusava-se a acreditar que estivesse naquele estado patético e dependente por sua causa.


-Cruzes, parece um saco! – comentou Dani, ao ver como havia ficado a roupa PP que havia cuidadosamente escolhido para a amiga.


Joana avaliou o resultado e, quando se viu obrigada a concordar, teve de rir. Depois lutou para segurar a água que lhe enchia os olhos. Era uma merda ficar doente. Passava o dia entre deprimida ou comovida com alguma coisa completamente estúpida e, nas duas ocasiões, sentia uma enorme vontade de chorar.


Dani ajudou Joana a ir até o banheiro e acabar de se embonecar. Voltaram para o quarto e haviam acabado de se sentar na cama (o velho babão, ainda bem, estava dormindo) quando a porta do quarto se abriu, e Marcos entrou acompanhado do médico.

Cena Extra: A Traição. By Kelly

Antônio quase pulou quando viu uma sombra silenciosa à porta da sala. Era Alice, com o rosto bastante abatido e segurando o que parecia ser alguns rolos de filme e um bloco.



-Hoje é dia de todo mundo cair da cama? – Riu, disfarçando o susto que havia levado.



-Posso conversar com o senhor?



-Claro. Sente-se e tome café da manhã comigo.



Alice olhou para a porta aberta que dava para a cozinha, de onde se ouvia vários sons domésticos.



-Pode ser no seu escritório? É que o assunto é meio delicado.


Antônio até tentou continuar seu café, mas percebeu no rosto de Alice que era algo grave. Deixou sua xícara com o café ainda quente, levantou-se e entrou no escritório seguido por uma figura que parecia arrastar correntes.


Por um instante Alice pensou em dizer qualquer outra coisa banal, como agradecer à hospitalidade, elogiar a fazenda tão bem cuidada. Mas o ódio não permitiu. E de repente sua fisionomia se transformou e aquele olhar que antes continha algum sinal de arrependimento agora era friamente doce e calmo.


- Sr. Antonio, eu sei que não devia, mas não acho justo estarmos fazendo tudo o que temos feito pelas suas costas. Ainda mais o senhor que é um homem tão bom, e nos acolheu tão bem aqui. A Dona Rosa tão simpática e que não mede esforços para nos...


- Diga logo menina! Sei que não me chamou aqui para elogios. O que tem nas mãos?


- Veja o senhor mesmo! E estendendo os braços entregou as provas – Acho que não merecia isso, mas quando viemos pra cá não imaginávamos que estivesse envolvido nisso tudo, o trabalho escr...


- Cale-se! Ele a interrompeu novamente. O pouco que ele havia lido era o suficiente para comprovar tudo o que suspeitava até então. Ele deveria estar grato por Alice ter lhe entregue tudo assim tão facilmente. Mas algo o incomodava muito. Joana havia saído cedo, e ele tinha certeza de que ela iria se encontrar com aquele “padre comunista”.


Chamou Marcelo e deu ordens para que ele trouxesse Joana de volta o mais rápido possível, nem que fosse à força. Mais do que impedi-la do contato com padre Moacir, ele queria tê-la ali, diante de si. Saber se ela negaria tudo, se ela o afrontaria. De que ela era capaz afinal?


Alice ainda tentou contestar, com seu jeito dissimulado, dizendo que não era aquilo que ela pretendia e que se soubesse que ele ficaria tão nervoso não teria contado nada. Pediu desculpas e saiu do escritório de forma que ele não pudesse ver seu sorriso satisfeito de missão cumprida.


Quando saiu do escritório e olhou Marcos, sentiu que o havia perdido de vez. Ele nunca a perdoaria depois disso. Se era Joana quem ele queria, que ficasse com o que sobraria da boa moça depois que tio Antonio e expulsasse dali. O ódio e a inveja a consumiam, quando ela se deu conta de que Marcelo estava demorando demais e algo grave deveria ter acontecido. Tentou se arrepender. Mas aí, já era tarde!

Cena Extra: A Traição de Alice. By Andrea.

Posso conversar com o senhor? Disse Alice ao Tio Antonio...



-Claro. Sente-se e tome café da manhã comigo.



Alice olhou para a porta aberta que dava para a cozinha, de onde se ouvia vários sons domésticos.



-Pode ser no seu escritório? É que o assunto é meio delicado.


Os dois então partiram em direção ao escritório, a portas fechadas. Tio Antonio pediu para Alice se sentar para que começassem a conversa.


- Pronto, Alice, pode falar que assunto tão delicado é esse que quer ter comigo.


- Seu Antônio, você não se pergunta o que um grupo de jovens jornalistas vieram fazer numa cidade como essa?


- Não estou entendendo, Alice, onde você quer chegar com essa história?


- Tio Antônio, nossa vinda esta relacionada com trabalho escravo em fazendas como a Santa Maria e como a sua.


Tio Antônio mostrando-se não tão surpreso com que Alice acabara de lhe revelar, disse que há algum tempo já vinha desconfiando devido à proximidade deles com Padre Moacir, além do súbito interesse de Renato por Rosana, que não passava de uma menina chata, que jamais conquistaria o coração de Renato.


- E o que foi que vocês descobriram? - Perguntou Tio Antônio.


- Descobrimos homens sendo tratados como escravos, inclusive dormindo em senzalas. Tivemos contato com um pobre coitado, que deixou família atrás de uma chance de melhorar de vida, acabou tendo que se fingir de morto para escapar dos capatazes da fazenda. Tem mais, Marcos fez uma serie de fotos que comprovam tudo isso que lhe relatei.


- O que você quer em troca dessas provas? - Perguntou ele.


- Muito simples quero que mate Joana, do mesmo jeito que ela fez com filho que esperava do Marcos.


- Filho? Que filho? - Respondeu Tio Antônio mostrando-se pela primeira vez surpreso com que Alice haverá de lhe falar.


- Aquela vaca filha da puta estava tendo um caso com o Marcos, cara do qual era apaixonada, ela sabia da minha paixão por ele, mesmo assim se envolveu com ele, ficou grávida mas é tão covarde que ao invés de me encarar optou por um aborto.


Tio Antônio apesar de tudo não aceitou dar fim em Joana, mas prometeu que daria uma boa lição em todos os que lhe enganaram. Alice acabou aceitando. Sabia que acabar com o trabalho de Joana já era o começo de uma boa vingança. Alice foi até a bolsa de Marcos pegou tudo que achou e entregou a Tio Antônio, que queimou todas as provas, depois ficou a espera de Joana e sua turma. Impaciente com a demora, pediu para que uns capatazes fossem atrás de Joana. Alice, com a sensação de dever cumprido, virou as costas e partiu sabe-se lá pra onde.


Após a saída de Alice, chegaram Marcos e Renato, que logo foram avisados que Tio Antônio os aguardava no escritório. Tio Antônio estava sentando de costas para porta. Ao ouvi-los chegar, nem deu tempo para que eles pudessem pronunciar uma única palavra.


- Vocês estão vendo essas cinzas? – Disse, para surpresa dos dois.


- Não faço a menor idéia do que seja isso - disse Renato.


- Essas cinzas são as fotos que produziram escondidos lá na Santa Maria.


Marcos e Renato se fizeram de desentendidos, afirmando não saber que vídeos eram aqueles. Porém Tio Antônio disse saber de tudo, e que assim que Joana chegasse lhes daria meia hora para sumir de sua fazenda. Pouco tempo depois chega Marcelo, um de seus capatazes, avisando que Joana havia capotado com o carro.

Se você também tem sua versão dos fatos, idéias, pensamentos, ou gostaria de escrever alguma cena que não está incluída, mande um email para mariana.monteiro8@gmail.com

Cena Extra - Marcos descobre sobre o aborto (primeira versão) e volta de Joana. By autora

Marcos tocou a campainha, torcendo para que não houvesse tempo suficiente para ir embora. Tomara o ônibus num impulso, sabendo que o que Dani lhe dissera fazia sentido, mas ainda tentando controlar a raiva e a sensação de ter sido traído. Achara que seus sentimentos tomariam sua devida proporção enquanto estivesse a caminho, o que não aconteceu, e agora o que ainda gritava na sua cabeça era o pensamento que aquela filha da puta amiga da onça não retornava seus telefonemas, não o procurava, se recusava a falar com ele há quase um ano. E ainda por cima resolvera se mudar, e como se não bastasse para o prédio do André, todo mundo sabendo que ele passava pela porta dela quando subia as escadas, menos ele. Isso tudo vindo de uma pessoa que costumava se declarar sua melhor amiga. Houve sexo, é claro, mas porra, eram adultos, eram amigos, e se dois amigos que se sentiam atraídos um pelo outro não pudessem transar sem começar um drama daqueles, então ela que não o tivesse beijado, ela que parasse com aquela mania de segurar a sua mão e abraçá-lo por qualquer besteira. Ele era homem, droga. Não fizera nada que Joana não parecesse estar a fim, e muito.


A porta se abriu, e Marcos sentiu que a raiva que o queimava corria o sério risco de ceder. Joana materializou-se em sua frente, a mesma pele macia, os mesmos olhos expressivos, os mesmo cabelos longos e encacheados, os mesmos ossos de passarinho. Ela estava usando um short surrado e uma camiseta, a mesma roupa que usara no dia da mudança dele e que quase podia ser um uniforme. Segurava uma furadeira e arregalou os olhos quando o viu.


-Marcos? – perguntou, atônita. – Como você...


-Por quê? Estou proibido de te visitar? – Perguntou, sentindo a mágoa voltar com toda força. Joana se recuperou do susto muito bem.


-Não, é que o interfone não tocou, então eu pensei que fosse o André. Entra.


Ela deu espaço para que ele passasse. A sala estava na mais absoluta desordem, com caixas espalhadas por todos os cantos. A televisão e o sofá eram os únicos que pareciam já ter encontrado seu lugar, e Marcos se controlou para não sorrir, pois sabia que Joana não ficaria sem seus filmes mesmo que não tivesse móveis, água ou telefone. Havia um banco próximo à janela e, a julgar pela furadeira, Joana estivera tentando pendurar uma samambaia.


-Quer ajuda? – Apontou o vaso que estava no chão.


-Eu já acabei. Senta.


Enquanto ele se sentava, Joana certificou-se que o gancho estava seguro e prendeu a corrente da samambaia. Depois se afastou para ver como tinha ficado. Sempre adorara plantas, e sua mania de falar com elas gerava vários comentários bem-humorados dos outros. Ela agora olhava a sua samambaia em seu apartamento, de um jeito doce e orgulhoso, e Marcos sentiu que o bloco de gelo que carregava dentro dele se derretia. A raiva cedia a uma mistura de ternura, amor e saudade, e perguntou-se desde quando Dani aprendera a ler pensamentos.


-E então? – Joana se virou para ele. A doçura havia desaparecido do seu olhar e dado lugar a um óbvio desconforto. – Não é grande coisa, eu sei, mas vai ficar muito melhor quando eu terminar de arrumar.


-Você pretendia me contar? – Ele perguntou. Não queria mais provocar uma briga, mas achava que merecia uma explicação.


-Claro que sim – ela sorriu, visivelmente sem graça. – Eu ia convidar vocês assim que o apartamento estivesse pronto, dar uma festa e tal.


“Vocês”? Desde quando ele era “vocês”? Joana havia colocado o banco em frente ao sofá e se sentado nele, mantendo uma distância que o magoava ainda mais. Ela torcia as mãos e olhava para baixo como se fosse uma criança levando bronca. Chocado, Marcos se deu conta que ela ainda não o olhara nos olhos uma única vez desde que chegara.


-Se eu me lembro bem, combinamos que eu te ajudaria quando você se mudasse. – Começou, agora querendo feri-la.


-Mas não foi uma mudança muito planejada, eu e os meus pais brigamos... – Tentou se explicar, ainda fixada nos próprios sapatos.


-No ano passado, quando você se enfiou na casa da Alice, mas esqueceu de me avisar que eu estava proibido de falar com você – sua voz estava se elevando, o que ele não queria que acontecesse, mas não podia evitar. E, quanto mais frustrado se sentia, mais alto falava e mais queria que Joana se sentisse tão mal quanto ele. – E depois você se muda, e eu fico sabendo que não era segredo pra ninguém, só pra mim. E você nem tem o trabalho de me explicar o que foi que eu fiz. Eu fazendo papel de idiota achando que você tava com os seus problemas, que queria ficar sozinha, tentando respeitar, mas o problema era eu, todo mundo falando com você, todo mundo sabendo onde você estava. Então agora, se você não se importa, eu acho que eu mereço saber o que eu posso ter feito de tão grave pra receber isso em troca.


Joana estava à beira das lágrimas, e Marcos murchou como um balão que perde o ar. Conheciam-se há quatro anos, ele a consolara durante o fim de dois namoros e inúmeras brigas com os pais, mas nunca a vira chorar. Não acreditara ser capaz de provocar uma reação daquelas, e por alguns segundos ficou imóvel, inteiramente atônito, sem saber como agir. Quando Joana finalmente soltou um soluço e ele percebeu que as lágrimas rolavam pelo seu rosto, a raiva se desfez de vez e ele se abaixou, tentando pegar suas mãos.


-Eu fiz um aborto! – Ela gritou, arrancando as mãos das dele. Foi tão inesperado que ele custou a entender. – Eu fiquei grávida no norte, e foi por isso que eu saí de casa. Eu não te contei porque tinha medo que você fosse me mandar abortar. E no fim foi isso mesmo que eu fiz.


Agora ela chorava tanto que não conseguia falar, e durante seu silêncio as palavras que acabara de ouvir começaram a fazer algum sentido para Marcos. Ele se lembrou que naquela noite estavam tão bêbados que não usaram proteção alguma, o que pareceu não ter importância nem antes nem depois porque ele sempre se julgara invulnerável. As outras pessoas morriam em acidentes, as outras pessoas ficavam doentes, as outras pessoas engravidavam as amigas, mas não ele.


-Eu não consegui olhar para você depois disso – ela continuou, quando os soluços estavam sob controle. – Não poderia ser sua amiga com um segredo desses, e não podia contar. Se contasse você me odiaria, ou ficaria aliviado, e... e.... e eu não agüentaria.


Os soluços voltaram. Marcos não sentia ódio ou alívio. Estava oco, chocado, apático. O máximo que conseguiu foi:


-Eu não sei o que dizer.


E houve um novo silêncio, ainda mais incômodo que os anteriores. Por fim, Joana respirou fundo e enxugou as lágrimas, lembrando vagamente a Joana forte que ele conhecia.


-Então não diga nada. Agora eu já contei, são águas passadas, e eu já tirei isso de dentro de mim. Eu vou voltar para o grupo, talvez na próxima viagem, e tudo vai ser como antes.


Marcos sentia que nada poderia ser, nem de longe, como antes, mas não tinha forças para discutir. Sentia um bolo na garganta e sua única preocupação era sair dali antes que começasse a chorar também. Como precisava se conter até chegar à casa da Dani, murmurou uma despedida e saiu do apartamento o mais rapidamente que conseguiu.


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Daniela olhava o irmão, tentando se lembrar que ela sempre havia sido a mais prática dos dois, a responsável por segurar a onda e, se não o fizesse, então eles estariam fodidos de vez. Marcos chorara como não fazia desde pequeno, e naquelas ocasiões era ela quem o consolava, como agora. A merda era muito maior do que parecera. Entendera a raiva inicial de Joana com a atitude machista de Marcos, se irritara um pouco ao ver a teimosia dela e a mágoa do irmão, e agora tudo fazia sentido, os dois tinham toda razão em se sentir tão feridos e a culpa não era de ninguém, talvez fosse da própria Daniela, que provocara aquela maldita bebedeira no norte. Mas tinha de deixar sua consciência pesada para depois, agora seu irmãozinho precisava dela.


Foi à cozinha e trouxe duas cervejas. Esperou que Marcos se acalmasse completamente e, depois de algum tempo em que os dois estavam em silêncio, bebendo, ele murmurou:


-Você estava certa. Ela é a mulher da minha vida e eu estraguei tudo.


-É claro que é, e você não estragou. Ela está deprimida, isso acontece, afinal de contas ela não arrancou um dente. Mas você não ficou com ela antes porque não sabia de nada, e se não sabia foi porque a própria Jô preferiu guardar segredo. Não foi sua culpa.


-Mas eu não disse nada. Eu fui embora. – Marcos respondeu, após dar outro gole na sua cerveja.


-O que não foi nem um pouco legal, mas dá pra entender, não dá? O que ela te deu não foi uma notícia, foi uma marretada na cabeça. Quem saberia como agir numa situação dessas? Nem a Jô soube, e olha que ela teve tempo pra pensar. Você só tinha alguns segundos pra dizer a coisa certa.


-Ela deve estar me odiando.


-Provavelmente. – Dani respondeu, com sua sinceridade de costume. – Mas não vai ser pra sempre. Ela te ama, lembra? Agora nós precisamos reparar os danos. A Jô não disse que tá voltando pro grupo? Então, que ótimo! Significa que ela está melhor, e que pelo menos alguma coisa está voltando a ser como antes. Vamos dar um tempo para vocês dois se acalmarem, e vocês vão se reaproximar aos poucos, você vai ver.


E, diante do olhar incrédulo de Marcos, Daniela sorriu:


-Eu já estive errada?


-Você não sabe de tudo.


-Não gostei da resposta.


Mas Marcos não estava com humor algum, e não disse nada. Daniela sentia o coração pequenininho e uma vontade absurda de pegá-lo, ir atrás de Joana, e forçar os dois a fazerem as pazes. Como sabia que não podia mais fazer isso, não depois que seu irmão virara adulto, limitou-se a oferecer hospedagem durante aquela noite.


-Tá – ele respondeu, como se seu espírito estivesse muito longe do corpo.


-Amanhã vai ser melhor, acredite em mim.


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Assim que Marcos fechou a porta, Joana se arrastou para a cama, onde permaneceu por mais de vinte quatro horas. Destas, chorou durante trinta minutos sem tentar identificar o que sentia, permaneceu imóvel e sem pensamentos por mais quinze, dormiu por quinze horas, e se maldizeu durante o tempo que sobrou. Era muito fácil dizer que Marcos não fazia falta quando não o via, e agora era impossível não admitir que tinha tantas saudades que a dor era quase física. Também tentou procurar alguma raiva dentro de si, qualquer sementinha, mas era uma tarefa vã após ver o quanto o havia machucado. Ele tinha aqueles olhos azuis lindos pra cacete que não escondiam nada, e só uma cega ou idiota completa não teria percebido que ele se sentia traído e, mais tarde, assustado o suficiente a ponto de ser incapaz de falar algo decente. E, sinceramente, ela não havia chorado durante meses? O que esperava dele? Que a abraçasse e dissesse que tudo ia ficar bem? Na melhor das hipóteses, quem teria de consolá-lo era ela, e não o contrário.


E foi assim que Joana chegou ao fundo do poço, deu impulso e retornou à superfície. Preferia morrer a entrar naquela onda de autopiedade novamente, e foi como se levantasse da cama pela primeira vez depois de dez meses. O relógio avisou que já eram cinco horas da tarde de domingo, mais um fim-de-semana perdido, mas o último da sua vida. Entrou no chuveiro, esfregou o corpo com esponja e sabonete esfoliante, lavou os cabelos, teria feito hidratação se não estivesse louca de pressa para tocar a vida. Finalmente, colocou um vestido e saiu, ainda com o cabelo pingando pelo corredor.


André abriu a porta.


-Acabei de chegar – avisou, logo que a viu. Depois arregalou os olhos: - Ué, esqueceu de comprar toalha?


-Tô pronta. – Anunciou, triunfante.


-Como assim? Tá pronta pra um secador?


-Não, bobo, pronta pra trabalhar. Vai pegar o caderno preto, anda.


André sorriu de orelha a orelha e disparou para o quarto. Quando voltou, Joana já havia pego uma cerveja na cozinha e estava sentada em um almofadão:


-Quando você pode? – ele se sentou ao lado dela e abriu o caderno.


-Teoricamente, a qualquer hora. Como já estamos no meio de agosto, que tal setembro?


-Beleza. Eu tô ocupado, mas acho que o Marcos pode tirar férias. Vou ligar agora para ele.


-Não! – Joana quase gritou. Foi automático. Precisava, sim, que Marcos fosse nessa viagem e que conseguissem encontrar um caminho de volta à velha amizade. Mas não podia falar com ele agora, não imediatamente. Um passo de cada vez. – Deixe eu confirmar com o meu chefe, primeiro. Quando estiver tudo certo, a gente marca a reunião e decide quem vai. O que temos na agenda?


André, ainda sorrindo, virou algumas folhas. Normalmente ele já ficava empolgado em momentos como aquele, e o fato da Jô estar de volta lhe provocava quase um orgasmo.


-Lembra a idéia que você deu quando voltou do norte? Algumas ongs parecem interessadas. Acho que vai rolar. Mas a gente pode ver outra coisa, se você preferir. – Acrescentou rapidamente, ao ver que o sorriso de Joana tremia.


-Não – ela se apressou: - Por mim está ótimo! Se todo mundo concordar, eu topo. Já topei. Mesmo.


-Eu entendi da primeira vez – André respondeu, um pouco assustado com a ênfase de Joana. – Tudo pra te fazer feliz, esse é o meu lema. É que existem mais algumas questões que a Alice sugeriu, e ela anda meio emburrada porque a gente nunca usa as sugestões dela.


-A última vez – disse, para não falar “norte” - não foi sugestão dela?


-Na verdade, foi do Marcos. Ela só se empenhou muito pra gente aceitar.


“Caralho, a Alice e o Marcos”, pensou, sentindo uma pontadinha no peito. Agora que voltara das cinzas, precisava cuidar daquilo também.


-Vamos falar com o pessoal, e ver o que a maioria decide. Continuam todos no grupo?


-Não se preocupe, a gente não chutou o Renato na sua ausência. E concordo, ele é gente boa pra caramba. A Tati saiu de vez depois que ficou grávida, resolveu virar mãe em tempo integral, e aquele marido dela também não deu muita força.


-Ah, por favor!


-Estamos precisando de gente... Ficamos reduzidos a eu, você, Marcos, Dani, Renato e Alice.


-Ô incompetência! – Joana brincou. – Não posso nem dar as costas.


-Não somos nada sem você... – André completou, bem humorado.


-Então agora feche esse caderno e me diga o que anda acontecendo no resto do mundo.


Enquanto descobria quais os últimos discos que André havia comprado e separava uma pilha de livros pra levar emprestados, Joana se esforçou muito para manter a convicção de que estava pronta. Anotou mentalmente que precisava telefonar urgentemente para Alice e anunciar a sua volta, comprar roupas novas pela primeira vez depois de quase um ano, dar uma volta na praia assim que fosse possível, e falar com seu chefe no dia seguinte logo pela manhã, antes que desistisse. Estava tão apavorada e empolgada que decidiu comprar um diário, para poder reler depois e ver os progressos que fazia. Era muito bom reassumir o controle da sua vida.


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O efeito dominó começou assim: André havia acabado de entrar na redação quando tocou o telefone da sua mesa.


-Tudo certo. Férias! – Ouviu uma voz feminina e animada.


-Legal, Jojô! Posso falar com o Marcos?


-Só se for agora. Beijos!


Marcos, ainda com o peso no peito que sentira o fim de semana inteiro e um humor de cão, atendeu ao telefone no segundo toque.


-Pode falar? - Perguntou André. E continuou, ao obter um grunhido como resposta. – Arrume as malas. A Jô voltou.


-Puta que pariu! – Ele gritou, fazendo várias cabeças se voltarem na sua direção.


-Você consegue férias pra setembro?


-É pra já. Vou ligar pra Dani.


-Falou. Eu ligo pro Renato.


Marcos desligou o telefone e discou um número, sem coragem de levantar a cabeça e encarar seus colegas de trabalho depois da explosão.


-Alô?


-Ela voltou! Vamos em setembro.


-Ai, meu Deus, cheguei a ficar arrepiada! E aí? Eu já estive errada?


-Nunca, você está sempre certa, eu te amo, se você não fosse minha irmã nem sapatão eu casava contigo.


-E pra onde vai ser?


-Não sei, o André ia ligar pro Renato, e eu liguei pra você.


-Ninguém avisou a Alice? Ela vai surtar.


-Vou fazer isso agora.


O telefone tocou em outro ponto da cidade.


-Alô?


-Alice? É o Marcos.


(Suspiro) – Marquinhos, você sumiu o fim de semana todo!


-É, foi meio brabo, mas tenho ótimas notícias.


-Fala.


-A Jô tá voltando, a gente viaja mês que vem.


Silêncio. Antes que Marcos perguntasse se ela estava bem, uma voz um pouco aguda e animada demais voltou ao telefone:


-Que bom! Eu tô tão feliz! Tô louca pra viajar de novo!


-Peraí, vai dar pra você tirar férias?


-Eu dou um jeito, nem que seja a última coisa que eu faça. Só... Ah, deixa pra lá.


-O quê?


--É que... Bem, só fiquei surpresa por não ser a primeira a saber, eu sendo a melhor amiga dela e tudo. Pelo menos você me ligou primeiro, foi legal.


-É... Eu tenho que trabalhar. – Marcos mudou de assunto para não confessar que ela era a última a saber.


-Eu também.


E a última peça do dominó caiu em cima da primeira. Joana estava sentada à sua mesa, tentando desenvolver poderes telepáticos para descobrir como Marcos reagiria ao seu retorno, quando foi a vez do seu telefone tocar.


-Alô?


-Oi, mulé. Sumiu, hein? O fim de semana inteiro sem notícias!


-Pois é, andei ocupada resolvendo a minha vida. Desculpa – Por que Alice sempre a fazia se sentir culpada? – E resolvi. Tô voltando.


-Que bom! Eu tô tão feliz! Tô louca pra viajar de novo! – repetiu, novamente aguda e animada demais. – Já falou com a galera?


-Só com o André, pra ele agitar a reunião. Pena que talvez não dê pra você ir, né?


-Dá sim, eu dou um jeito. Vamos marcar na praia essa semana?


-Vamos!


E assim terminou.

Epílogo - ... E COMEÇO DE UMA NOVA HISTÓRIA

Escuro e silencioso. O mundo devia ter sido assim antes de ser criado. Afinal, não deixava de ser uma sensação agradável, uma sensação de retorno. Nem quente nem frio, sem corpo, era como não existir. Provavelmente a morte era isso, não existir por toda a eternidade, ser apenas um pontinho de consciência vagando pelo universo. Quanto tempo havia se passado? Minutos? Horas? Anos? Fazia alguma diferença? Não, e sim. Não provocara absolutamente nada, fora apenas uma vítima inocente dos acontecimentos, nem ao menos se lembrava como fora parar ali, mas ali estava, e não queria voltar. Ao mesmo tempo, algo a chamava, algo que tivera uma importância crucial em outra vida, mas agora estava tão distante, tão apagado, não adiantava se esforçar para se lembrar, seria o mesmo que tentar segurar a água.


“Nós estávamos todos no escritório”.


Talvez estivessem, mas que importância isso poderia ter agora?Mesmo aquelas palavras pareciam completamente esvaziadas de sentido, era só uma voz que chegava até sua mente, já que não possuía ouvidos, não possuía corpo.


“Estávamos todos no escritório, esperando por você, só que não sabíamos disso. Seu tio estava sentado naquela poltrona marrom que ele gostava, a cara mais vermelha que nunca, e não falava nada. A sua tia cuidava do jardim sem ter a menor idéia do que acontecia. Ninguém sabia o que estava fazendo ali, com exceção da Alice, que parecia pronta para chorar a qualquer instante. Mas tínhamos certeza que algo tinha dado errado”.


Algo dera errado. Algo dera muito errado. Mas não importava, nada dava errado quando se era um pontinho vagando pelo universo.


“Nós ouvimos o carro e, enquanto sua tia corria atrás do Marcelo para saber o que tinha acontecido, ele entrou no escritório com o chapéu na mão, parecendo humilhado e envergonhado ao mesmo tempo, pedindo desculpas e jogando a culpa em você, até que todos nós finalmente entendemos o que tinha ocorrido”.


Mas eu não entendi, e não faço questão de entender, sei que as intenções são boas, mas eu estou muito bem aqui, obrigada. Você poderia me deixar em paz?


“Ele a trouxe até aqui, mas disse que não faria nada além disso”.


Era verdade, estava sozinha. Pensou em um sofá bege no centro de uma sala confortável, uma televisão e o mesmo filme passando novamente, e de novo, e de novo. Na sala não havia aquela voz. Na sala poderia ser deixada em paz.


“Eu te amo, e eu sei que você vai acordar. Não me deixe porque eu te amo, eu te amo, eu te amo, eu te amo”.


Precisava voltar para a sala, a voz a deixaria em paz quando estivesse sentada naquele sofá, assistindo à televisão. Mas ainda havia coisas demais que não entendia. Por que ele a trouxera para lá? Por que não a deixara morrer?


“Porque você sempre foi a filha que ele desejou ter, e ele acha que destruiu a reportagem, e acha que queimou todas as fotos, e pensa que o padre está com medo demais para abrir a boca. Ele sabe que o delegado está do lado dele, e os melhores advogados também, e os juízes podem ser comprados. Mas ele não quer mais te ver. Desculpe te dizer isso, mas eu prometi que contaria a história toda, até o final”.


Então aquele era o fim? Um fim muito do besta, já que todos terminaram com medo, escondidos ou comprados. Passara por poucas e boas para que tudo terminasse daquele jeito?


O sofá e a televisão já não eram nem um pouco atraentes, e o mesmo poderia dizer do espaço escuro e não mais silencioso, agora que aos poucos se lembrava o que deixara para trás e que parecia tão essencial. Precisava descobrir do que era mais fácil abrir mão, sua vida inteira ou aquela imobilidade deliciosa. A voz finalmente se silenciara, mas o silêncio não era mais tão bem vindo, estava muito escuro e tinha medo, não queria ser deixada sozinha novamente. Sentiu uma saudade absurda da vida que pensara ser tão fácil esquecer, e de todas as outras vidas que vinham engatilhadas na dela, dependendo dela, se fundindo com ela. Precisava voltar para casa.


Mais tarde, a primeira coisa que Joana lembraria ter visto em seus primeiros momentos de consciência foi um caderno de colégio sobre uma mesinha de cabeceira fria e impessoal. A segunda foi uma lâmpada incandescente em um teto imaculadamente branco. A terceira foi uma janela fechada. E, em frente a ela, olhando a paisagem, estava Marcos, o dono da voz, que havia estado ali todos os dias, que tinha lido o diário para Joana na esperança que as lembranças a livrassem do coma, uma idéia que nem os médicos, nem seus amigos, acharam que daria certo. Entretanto, ninguém se opôs, pois não custava nada tentar e não deixava de ser muito romântico, e ele já havia se tornado quase uma lenda entre as enfermeiras, que acompanhavam sua vigília e a comentavam, suspirando, enquanto bebiam café.


Os dias viraram semanas, as semanas viraram meses. Ao invés de vagar no espaço, vagava do consultório do fisioterapeuta para o do fonoaudiólogo para o do neurologista. Teve tantas pequenas conquistas e tantas barreiras para superar que às vezes temia esquecer-se o porquê de ter voltado. Até que um dia o céu estava azul e o ar cheirava a maresia e Marcos finalmente cedeu e a levou à praia. Sentaram-se em um quiosque, com Dani, Renato, André e uma menina nova, Roberta. Da mesa onde estavam, Joana podia ver as pedras, e mais uma vez tomou consciência que não havia lugar melhor para renascer. Foi a primeira vez que passaram a limpo o que aconteceu depois do acidente.


Dois dos rolos de filme e o bloco de Joana haviam desaparecido, provavelmente Alice os entregara a tio Antônio, mas, graças à mania de Marcos de esconder os filmes desde o dia em que vira a morte de perto, eles ainda possuíam bastante provas para adicionar ao dossiê. Este se tornara um inquérito que explodiu como uma bomba no exterior, e eles ainda recebiam inúmeras cartas, sobretudo da Europa, mas cada vez menos de seu próprio país. Organizou-se uma diligência e os escravos da Santa Maria foram libertados, entretanto seu Ernesto declarou que não tinha consciência do que acontecia em suas terras, que seus funcionários eram contratados através de intermediários e que estes cuidavam de tudo. Ele e tio Antônio se livraram com uma multa e, após aparecerem nos jornais durante algum tempo, ninguém mais se lembrava deles. Padre Moacir sofrera várias ameaças de morte, e agora estava de volta à capital. E Alice se afastara definitivamente do grupo, desaparecera sem deixar vestígios, “Não que alguém tivesse tentado procurá-la”, Renato acrescentou.


Joana estava em silêncio, com a sensação de quase ter morrido por nada. Havia libertado os escravos da Santa Maria, mas outros estariam no lugar deles em breve, e mais uma vez tinha a incômoda certeza que ainda precisariam caminhar muito para que aquele país pudesse ser tão bom para os outros quanto o era para eles, que podiam se sentar à beira da praia em uma tarde de domingo para bater papo e tomar água de coco. Tudo bem. Eram jovens. Estavam vivos. Podiam caminhar indefinidamente.


-Boas notícias. O fascista do meu chefe vai me dar férias mês que vem – Dani mudou de assunto.


Parecia ter sido ensaiado. André, como se estivesse apenas esperando a deixa, tirou um bloco da mochila.


-O timing não podia ser mais perfeito. Temos de investigar a denúncia da irmã Dulce, aquela freira que entrou em contato com o Renato contra a Madeireira Amaro, no norte. Precisamos de um fotógrafo e mais uma pessoa.


-Eu acho melhor ficar aqui por algum tempo – Marcos disse, acariciando a mão de Joana.


-Tudo bem, eu vou – André respondeu quase imediatamente, como se tivesse oferecido o lugar a Marcos por pura educação. – E acho que essa vai ser uma ótima oportunidade para o batizado da Roberta. Topa?


-Topo – ela sorriu, ainda um pouco tímida.


-Legal. Temos duas semanas pra organizar tudo. O Marcos e a Jô podem fazer a pesquisa na Internet.


-Pelo amor de Deus, estou louca para fazer alguma coisa!


-E o Renato vai entrar em contato com a freira e acertar tudo para o mês que vem, certo?


-Deixe comigo.


-Todo mundo pega o máximo de informações que conseguir, e a gente se encontra no sábado, na casa do Marcos?


Após todos concordarem, André abriu novamente a mochila e dela tirou um caderno preto e de capa dura.


-Ai, não, tudo menos a ata! – Dani gritou. – Como você é panaca, André!


-Cala a boca, Dani – respondeu, habituado a dizer aquela frase após cada reunião. – Madeireiras ilegais... Dani, Roberta e eu... mês que vem... reunião na casa do Marcos no próximo sábado... Agora todos leiam e assinem, por favor.


-Que ridículo! – Dani resmungou, tomando a caneta da mão do amigo.


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Marcos abriu a porta do apartamento e acendeu a luz. Quando ele resolveu se mudar do apartamento de Dani, Joana o convenceu a comprar o sofá bege porque, assim que entraram na loja, lhe deu uma vontade incontrolável de jogar os sapatos para o alto e se atirar nele, e qual era a vantagem de se ter um sofá sobre o qual a gente não quisesse se atirar? Continuava querendo fazê-lo, mas tinha de se conformar com o fato de ter chegado aos setenta anos antes dos trinta, ao menos temporariamente. Além disso, como Marcos a tratava como se fosse se quebrar ao menor descuido, ela deixou que ele a ajudasse a se sentar. Calmamente. Como uma dama.


-Vocês nunca me contaram de onde a Roberta surgiu.


-Claro que eu contei – respondeu ele, abrindo a porta da varanda. Depois hesitou e sorriu, meio sem-graça. –Tá, eu não contei de verdade. Acho que falei sobre ela pouco depois do acidente, quando eu ia ao hospital conversar com você e todo mundo me olhava como se eu fosse maluco. Ela nos procurou logo que voltamos. Disse que admirava muito o seu trabalho.


-O meu?


-É. Bom, ela já conhecia todos nós de nome, porque foi ela que encontrou o seu diário, mas falava muito em você. Ninguém andava com muita cabeça para conversar naquela época, mas ela estava sempre por perto. Foi ela que se mudou para o seu apartamento, ficou amiga do André e, antes que notássemos, virou parte do grupo.


Joana sentiu um calafrio.


-É meio assustador, não é? Meio “Mulher Solteira Procura”?


Marcos riu:


-Aliás, vocês são muito parecidas. A Roberta também adora filmes.


-Todo mundo adora filmes. Além de termos dois olhos, uma boca, um nariz, e da Roberta ter roubado meu apartamento, não consigo ver semelhança alguma. Agora sou oficialmente uma sem-teto.


-Ela não roubou o seu apartamento. Disse que seria seu quando você pudesse voltar, mas eu meio que estava esperando que você ficasse por aqui.


-Obrigada. É muito gentil da sua parte me oferecer hospedagem depois de me despejar – respondeu, irônica.


-Eu queria dizer “para sempre”, mas você nunca me deixa terminar as frases – ele respondeu, ainda no seu tom casual de melhor-amigo-tentando-aprender-a-ser-namorado. – Eu estive pensando, e acho que vai ser uma boa economia na conta de telefone.


Joana, que sempre se orgulhara da sua rapidez de raciocínio, levou um pouco mais de tempo que o usual para entender o que acabara de ouvir. Inúmeros flashes vinham à sua memória: uma redação de revista, um desfile de modas seguido por muitas cervejas, as pedras da praia, filmes de madrugada, contas de telefone astronômicas, uma praia no norte, um piquenique, uma cachoeira.


-Porra, Marquinhos, essa é a coisa mais romântica que eu já ouvi - Joana respondeu, em seu tom casual sou-apaixonada-pelo-meu-melhor-amigo-e-não-podia-estar-mais-feliz. - Você quer morar comigo por pão-durismo?

-Você toparia se eu dissesse que quero tomar conta de você?

-Nem em um milhão de anos!

-Ok... então, o que você acha de economizar o telefone?

-Acho que estou desabrigada, desempregada, e seria uma ótima idéia - e sussurrou, ao seu ouvido: - E adoraria que você tomasse conta de mim.

E, passado o momento, pegou o bloco que estava sobre a mesinha de centro e começou a fazer uma lista rápida, por tópicos, dos itens que precisava pesquisar sobre a Madeireira Amaro. Marcos, em lugar de ficar ofendido, sorriu. A vantagem de se apaixonar pela melhor amiga era saber o tamanho da embrulhada em que estava se metendo desde o início. E, se teria de lidar com as suas sandices para o resto da vida, era melhor começar a desenvolver suas técnicas, ou aprimorar as que já surtiam algum efeito, desde já. Sem se dar ao trabalho de explicar, ele tirou o bloco das suas mãos, a pegou no colo e a levou para o quarto.

FIM

Capítulo 22 - A VIZINHA

-E foi isso o que aconteceu – André disse para a garota.


-Mas ela vai se recuperar, não vai?


-Ninguém sabe. E a verdade é que, conforme o tempo passa, as chances diminuem – ele respondeu, sem querer dizer para si mesmo que nem médicos, nem amigos, acreditavam em uma recuperação. Não que o houvessem comentado. Haviam feito algo muito pior. Haviam voltado para o cotidiano. Estavam de volta aos seus empregos, haviam comparecido à patética festa com coxas de rã envenenadas, haviam se encontrado após o trabalho para beber cerveja e falar sobre assuntos prosaicos como cinema e música. Ainda iam ao hospital, mas cada vez com menos freqüência, e era muito triste ver que ninguém mais estivera lá enquanto ficaram ausentes.


-Só o Marcos.


-Eu quis dizer pessoas da família.


-Eu gostaria de levar flores para ela.


-Por quê? – André perguntou, surpreso. Não que Jô não as merecesse. Ele mesmo ia lá, no início todos os dias, depois todos os fins de semana, e, finalmente, apenas aos sábados, e sempre levava flores. Mas por que aquela menina desconhecida, que nunca havia visto Joana na vida, queria fazer o mesmo, era algo que escapava totalmente à sua compreensão.


-Porque ela mudou a minha vida. Ou está prestes a mudar, sei lá.


E a menina falou que havia se formado em jornalismo há pouco tempo, que, com exceção de alguns estágios, nem ao menos tivera a chance de começar a trabalhar, mas que acompanhava o que o grupo fazia e era grande admiradora do trabalho de todos, principalmente do de Joana.


-Mas como você sabe que somos um grupo?


-Eu achei isso. – E finalmente deu mostras que ia começar a explicar o caderno que segurava desde que tocara a campainha. – É o diário da Jô. Desculpe. Joana. – Se corrigiu. – Eu nunca a vi na vida, mas parece que somos íntimas. Temos muita coisa em comum.


-E onde você encontrou isso? – André pegou o caderno, fascinado.


-Acho que ficou para trás com a mudança. Eu devia ter vindo devolvê-lo imediatamente. Aliás, na quinta página, já dava para adivinhar onde você morava, mas eu fiquei... Bem, envolvida. Envolvida até demais. Eu não consegui parar de ler, viajei imaginando que era parte da história... Ok, é melhor explicar que eu não sou maluca, só tenho uma imaginação muito fértil. Mas faltou o desfecho, sabe? E eu... – ela se interrompeu, visivelmente constrangida.


-Só decidiu devolver o diário para saber como tudo terminava – André completou. Estranhamente, ele não estava com raiva. Estava calmo e muito interessado.


-É – ela confessou. – Mas eu também queria conversar com ela. Temos muito em comum. – Repetiu.


-Isso não vai dar para fazer, por motivos óbvios.


-Eu sei... Mas eu posso ir lá? Posso entregar o diário para ele?


Então foram ao hospital, e abriram a porta do quarto, e Marcos estava sentado ao lado da cama, como a garota sabia que ele estaria. Tanto Joana quanto Marcos eram muito diferentes do que ela havia imaginado, ou talvez tivessem sido transformados pela doença e pela vigília. Afinal, algo que a havia marcado ao ler aquelas páginas havia sido a vitalidade da primeira e a paixão do segundo. Joana parecia um passarinho. Era minúscula, engolida pelos lençóis e perdida em uma cama, de cor indefinida e desoladoramente opaca. Marcos não tinha os traços da sua imaginação, mas era, sim, um gigante nórdico, e possuía lindos e doces olhos azuis, exatamente como descritos no diário.


-Eu trouxe flores pra Jô – ela falou, após repetir que era grande admiradora do trabalho deles. – E esse é o diário dela, que encontrei no apartamento. Você poderia ler para ela, sabe? É só uma idéia maluca que me ocorreu, mas quem sabe ela...


-Se lembre? – Marcos a interrompeu, pegando o caderno com o mesmo fascínio que André havia mostrado no apartamento.


-É. Quem sabe?


Quando saíram do hospital, deixando Marcos e o diário ao lado da cama, André a convidou para beber alguma coisa. Tinha um agradecimento e um convite para fazer. Queria agradecer por tê-lo lembrado que a Joana foi algo mais que pele e ossos em cima de uma cama de hospital, que ela já havia sido uma grande amiga, que tinha uma risada alta e fácil, idéias loucas, uma enorme coragem e não se detinha diante de nada. O convite era para que entrasse para o grupo.