Capítulo 12 - O BATIZADO

“A nossa vida precisa continuar.”


“Ela parece estar dormindo.”


Joana sentou-se na cama. Chega! Não estava tendo sonhos, eram pessoas falando na sua cabeça. E, quando pessoas falavam na sua cabeça, ou estava enlouquecendo, ou havia enlouquecido de vez. Não havia várias doenças cujos sintomas eram esses? Talvez estivesse esquizofrênica, ou com desvio de personalidade, ou com algum outro distúrbio de nome horrível. As vozes começavam impedindo-a de dormir em paz, e logo a estariam mandando assassinar alguém. Ai, que merda, havia se tornado uma ameaça para a sociedade.


Como Alice ainda estivesse dormindo, levantou-se e se arrumou fazendo o mínimo barulho possível. Sua aparência no espelho era péssima, de quem havia passado a noite ouvindo vozes do além. A primeira providência do dia seria procurar a tia Rosa e pedir a história médica da família.


Para seu alívio, tia Rosa era a única acordada, e tomava café da manhã sozinha à mesa da sala. Ela levou a pergunta à sério e, depois de escarafunchar os recantos mais escuros e empoeirados da memória, lembrou-se de uma tia-avó que ficava presa por uma coleira a um poste no quintal. Joana perdeu imediatamente o apetite, ao ver o futuro que a aguardava.


-Não faça essa cara horrorizada, Joanita. Meu avô construiu um telhadinho para ela ficar na sombra.


Talvez tivesse de se mudar para a fazenda. Do jeito que andava seu relacionamento com os pais, apenas os tios teriam a bondade de construir um telhado em cima do poste para que ela não esturricasse. Aquela mudança implicava enormes decisões. O que faria com os seus móveis? Será que suas plantas sobreviveriam naquele clima? Será que Marcos e seus amigos viriam visitá-la? Será que alguém iria conversar com ela de vez em quando, ou a sua única companhia seria a empregada mal-humorada, que viria trazer-lhe a comida em prato e talheres descartáveis?


A tia não percebeu os enigmas que torturavam a mente da sobrinha, e contava seus planos para a manhã. Disse que, no dia anterior, pedira para que lavassem a capela da fazenda. Era uma linda capelinha construída pelo pai da tia Rosa, mas era tão pouco usada que as bolas de poeira se juntavam nos cantos. Antigamente, tentara organizar uma missa pelo menos uma vez por mês, mas quando chovia o padre não conseguia chegar, e o padre velho reclamava de tudo, e muitos lavradores tinham virado evangélicos. Agora, a capela só era aberta para os batizados e para a missa de natal.


Joana não sabia mais se seria uma boa idéia ir à missa agora que era uma ameaça à sociedade, mas, quanto mais mantivesse uma aparência de normalidade, mais adiaria o momento em que seria presa ao poste. Portanto, perguntou à tia se ela e os amigos poderiam ir, e se Marcos poderia tirar algumas fotos.


-É claro que sim! Fico muito feliz que você se interesse tanto pela vida dos seus tios velhos! Eu conheço os jovens da capital, e sei que ninguém quer saber da vida no campo. Basta ver a Rosana, que fica com um bico amarrado o tempo todo que está aqui, e olha que a Mercedes trata aquela menina como um pão-de-ló. Além do mais, eu preferia mesmo que tivesse alguém lá. Ainda não conheço o padre novo direito e, depois do sermão que ele fez ontem, sabe-se lá o que vai dizer em um batizado!


-A senhora não vai?


-Ah, minha filha, eu tenho tanto que fazer! Não é fácil cuidar desta casa, e o Antônio ficou de ligar hoje dando a data da volta. Eu iria, gosto muito de estar presente, mas agora você pode me representar.


Aos poucos, os amigos de Joana foram acordando e se juntaram à mesa. Tia Rosa, de ótimo humor, não deixou de insinuar que gostaria muito que Renato virasse seu vizinho, na Santa Maria. O rapaz, que teria berrado de horror em um dia normal, limitou-se a um sorriso amarelo, pois estava morrendo de ressaca. Também sentada à mesa, mexendo seu café com leite desinteressadamente, Alice parecia bastante emburrada. Inventou a desculpa que também havia bebido além da conta, mas na verdade rodava, em sua mente, o VT de uma cena da noite anterior. Enquanto ajudava Teresa a colocar os poucos doces que sobraram de volta no carro, vira Marcos e Joana na pista de dança. Eles só dançavam, mas havia algo na forma como estavam próximos e em como ele falava junto ao ouvido dela que fazia as suas entranhas queimarem e lhe provocava uma imediata dor de cabeça.


-Então, vamos a capela? – Joana terminou seu café e se levantou, irritantemente animada.


-Eu preciso mesmo ir? – Renato gemeu.


-Pode ficar, se quiser – Alice levantou os olhos da sua xícara. – A última coisa de que preciso é de alguém vomitando no Pedro.


Renato podia ter ficado agradecido pela chance de se arrastar de volta à cama, mas se ofendeu com o comentário e foi tomar sal de frutas, pois, na realidade, era bem provável que vomitasse mesmo no carro.


-Aconteceu alguma coisa, Alice? – Joana perguntou.


-Não. Vamos embora.


Era uma manhã tão linda que nem o mau humor de Alice resistiu. Lembrou-se que estavam ali com um objetivo muito maior que briguinhas por causa de um homem, e que havia muito tempo para esse tipo de discussão quando voltassem para casa, dali a alguns dias. Por hora, saber que aquele trabalho se aproximava do fim já bastava. Gostava de estar na estrada, mas nem sempre com a mesma intensidade, e nunca com o gosto amargo que estava sentindo agora. Esta deveria ter sido a melhor de todas as viagens, André não estava por perto com suas atas e sua mania de organização, Joana havia ficado meses afastada, e Renato era um idiota. Nunca haviam combinado que teriam um líder, mas também nunca combinaram que todos seriam sombras de André e Joana. Eram seus amigos, claro, ela os amava, lógico, mas não era sempre que conseguia negar que a época que se sentira mais a vontade havia sido quando Joana brigara com os pais, se afastara de todos e só podia contar com ela.


Chegaran quase junto com o padre, que estava acompanhado de uma freira chamada Lucia. Enquanto preparavam a capela para a cerimônia, Marcelo e Teresa chegaram em uma picape e começaram a armar as mesas para o lanche que aconteceria depois. Havia sanduíches e sucos, e uma música suave tocava no rádio do carro. Dali a pouco vieram caminhões trazendo os lavradores, e Joana, representando tia Rosa, foi cumprimentar os recém-chegados, dentro os quais reconheceu João. Eram muito menos pessoas do que esperara, a maioria sem saber como se comportar, se botava ou tirava o chapéu, se conversava ou ficava em silêncio.


Ao todo, dez famílias trouxeram suas crianças para serem batizadas. Foi uma cerimônia simples, curta, mas muito bonita; quando saíram novamente da capela, as crianças finalmente se lembraram que eram crianças e começaram a correr e brincar pelo pátio, e os adultos se lembraram que não eram robôs e conversaram entre si, a princípio timidamente, em seguida mais à vontade. Os quatro amigos serviam a comida, mas logo os lavradores passaram a ajudar, e assim Joana pôde se separar do grupo e cumprimentar João, perguntando se o garoto se lembrava dela. Este respondeu que sim e, para puxar assunto, Joana perguntou quem da sua família havia sido batizado. Ele respondeu que fora o seu irmão menor, que estava ali, no colo da mãe. Levantando os olhos para a direção apontada, Joana percebeu que a mãe era uma senhora que estivera conversando com padre Moacir desde o fim da cerimônia. Ao vê-la olhando em sua direção, o padre fez um gesto para que se aproximasse.


-Dona Vicentina, essa é a Joana, uma amiga. Eu gostaria que ela fosse comigo conversar com o seu filho, tem problema?


-Não tem problema nenhum, não – ela respondeu, rapidamente. – Qualquer ajuda é bem vinda!


-A senhora se importaria de dizer a ela o que estava me contando?


-Não, imagina! É o seguinte. Eu vim pedir pro padre conversar com meu filho mais velho, que anda com umas idéias estranhas. Ele anda querendo ir embora, mas eu e meu marido não concordamos.


Foram se sentar em um banco, pois a criança no colo de dona Vicentina começava a pesar. Ela continuou:


-Eu, meu marido e meus garotos sempre trabalhamos aqui. Eu tive oito filhos, mas só cinco vingaram. Não reclamo dessa vida, não, aqui não é pior que nas outras fazendas. É até melhor. Desde que a gente chegou aqui, a gente consegue pôr comida na mesa e está ai o resultado, nossos cinco filhos estão grandes e fortes, ajudando na lavoura, menos esse, que ainda e pequeno. Comigo foi diferente, eu e meu marido já passamos muita necessidade nessa vida. Só o menino mais velho é que não vê isso. Ele cresceu muito revoltado, tem essa mania de pensar grande, de não ficar satisfeito com o que Deus deu pra nós, o que já é muito. Vive pensando em ir embora para a capital, mas o seu Marcelo diz que não pode. A gente tem muita divida aqui, por causa do material e da comida que a gente compra. A gente não pode sair enquanto não pagar tudo. O meu menino diz que a gente não vai conseguir pagar nunca, que é muito dinheiro e o que a gente ganha não dá pra nada. Que não é justo porque, no fim das contas, a gente está trabalhando é pro patrão, então ele tinha mais e que dar tudo de graça pra gente.


-E a senhora e o seu marido não concordam com ele? – Joana perguntou.


-Eu sei é que agora temos casa e comida na mesa. Eu tive três filhos que morreram de fome, e os cinco que eu tive depois estão ai, fortes. Se a gente sair daqui, vai fazer o quê? Passar fome outra vez? A gente não pode se revoltar com o que Deus dá pra nós. O seu Marcelo tem sua casinha de alvenaria, e eu tenho minha casinha de tábua, mas foi Deus que decidiu assim, então é o justo. Seu Marcelo toma conta da gente e cuida da gente, e o meu menino devia parar com essas besteiras, que é muita ingratidão da parte dele.