<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-2340667380035569147</id><updated>2011-04-21T20:16:18.284-03:00</updated><title type='text'>Memórias de uma Vida Imaginária</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Nome: Malu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16298942119359110223</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>28</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2340667380035569147.post-4412456733539545631</id><published>2008-10-08T09:23:00.002-03:00</published><updated>2008-10-08T09:33:11.093-03:00</updated><title type='text'>Cena Extra: Joana deixa o hospital. By Autora</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Dani entrou no quarto carregando sua sacola, e ignorando o velho babão do leito ao lado da porta. Com seu metro e oitenta e um de altura, seus cabelos louros e seus olhos azuis, o que mais encontrava pela frente era velhos babões, e agora já os ignorava com a mesma naturalidade com que andava ou respirava.  Joana lhe pareceu menor e mais magra que nunca, perdida dentro daquela horrorosa bata de hospital, olhando pela janela com olhos fundos, mas com um sorriso de antecipação. Ganhava a sua liberdade depois de meses horrendos, e Dani não perderia aquele momento por nada no mundo.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Bom dia! – Dani saudou alegremente, fechando a cortina para bloquear a visão do velho tarado. – O Marcos foi buscar o carro, e eu vim direto do trabalho pra te deixar apresentável pro mundo. Preparada?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Joana sorriu mais um pouco e assentiu. Enquanto isso, Dani abriu a sacola e tirou toda a sua parafernália: roupas, sapatos, escova de cabelo, perfume contra o cheiro de doença, o cordão que Joana usava desde que se entendia por gente.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não sei o que estou odiando mais. Este quarto, esta bata ou a companhia – Joana cochichou, enquanto pegava a escova.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu sei. Se ele não estivesse tão nas últimas eu já teria lhe dado um tabefe.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não vejo a hora de ir pra casa.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Dani deu um sorriso esquisito que Joana não percebeu, pois se olhava no espelho e tomava um choque ao ver seu rosto encovado, seus olhos fundos, e sua palidez. Já se vira outras vezes no ultimo mês, mas achava que, cada vez, sua aparência era pior. Não deixava de ser ridiculamente contraditório um lugar que deveria restabelecer a sua saúde te deixar com uma aparência de zumbi.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Na verdade – Dani começou, ajudando Joana a tirar a bata – você não vai para casa. É que você não pode ficar sozinha, entende. A gente resolveu te levar pra casa do Marquinhos, já que achamos que você não iria se importar. – Contou, cheia de dedos, tentando deixar o assunto de que tinha outra morando no seu apartamento para mais tarde.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não, não me importo – Joana respondeu, sentindo uma infinidade de sentimentos contraditórios. – Só que... É que... Vai levar um tempo até eu ter uma vida normal, né?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Vai – respondeu Dani, com a sinceridade de costume. – Mas lembre-se que você vai ter um homem lindo te paparicando vinte e quatro horas por dia. Bom, quer dizer, 16 horas por dia, por que com o trabalho e tal a minha mãe esta vindo pra ficar com você.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Como assim? – Joana perguntou, incrédula.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Meus pais estão chegando amanhã, e a minha mãe vai ficar com você enquanto o Marcos trabalha.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Joana repentinamente chegou a várias conclusões tristes. A primeira era que não importava se estava saindo do hospital, continuava uma inválida que precisava de ajuda para se vestir e tomar banho. A segunda foi que possuía uma família tão cabeçuda que, quando mais precisava, tinha de pedir emprestado a mãe dos outros para ajudá-la. A terceira foi que não conhecia a família do Marcos, e que seu primeiro contato com eles seria daquela forma absolutamente patética e humilhante. Dani percebeu o que passava pela cabeça da amiga e não teve coragem de dizer nada, continuou olhando fixamente para as roupas que a ajudava a vestir.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Isso é deprimente.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Claro que não – Dani falou rapidamente, ainda às voltas com a saia e sem levantar os olhos, pois na verdade era um pouco deprimente, sim. – Você tem uma porrada de amigos que te amam, um namorado louco por você, uma sogra que sai do outro lado do planeta pra te ajudar sem nem ao menos te conhecer. Não vou te enganar não, ela vai te deixar louca. Mas existem milhares de pessoas no mundo em situações piores e com uma equipe de apoio bem menos dedicada. – Ajudou Joana a se colocar precariamente em pé, para que pudesse levantar a saia. – Além disso, todos os seus amigos estão te esperando em uma festa de boas vindas, que era surpresa, mas foda-se.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-A Alice apareceu?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Dani deu um sorriso torto. Agradeceria muito se Joana parasse de abordar, um por um, todos os assuntos delicados.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Na verdade, não. Mas, sinceramente, você precisa mesmo de uma amiga como ela?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Joana fez que não com a cabeça, ainda sem saber como se sentir em relação ao assunto “Alice”. Por pior que tivesse sido a briga das duas, recusava-se a acreditar que estivesse naquele estado patético e dependente por sua causa.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Cruzes, parece um saco! – comentou Dani, ao ver como havia ficado a roupa PP que havia cuidadosamente escolhido para a amiga.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Joana avaliou o resultado e, quando se viu obrigada a concordar, teve de rir. Depois lutou para segurar a água que lhe enchia os olhos. Era uma merda ficar doente. Passava o dia entre deprimida ou comovida com alguma coisa completamente estúpida e, nas duas ocasiões, sentia uma enorme vontade de chorar.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Dani ajudou Joana a ir até o banheiro e acabar de se embonecar. Voltaram para o quarto e haviam acabado de se sentar na cama (o velho babão, ainda bem, estava dormindo) quando a porta do quarto se abriu, e Marcos entrou acompanhado do médico.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2340667380035569147-4412456733539545631?l=memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/feeds/4412456733539545631/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2340667380035569147&amp;postID=4412456733539545631' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/4412456733539545631'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/4412456733539545631'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/2008/10/cena-extra-joana-deixa-o-hospital-by.html' title='Cena Extra: Joana deixa o hospital. By Autora'/><author><name>Nome: Malu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16298942119359110223</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2340667380035569147.post-2079405314647603827</id><published>2008-10-07T05:44:00.002-03:00</published><updated>2008-10-07T05:48:34.200-03:00</updated><title type='text'>Cena Extra: A Traição. By Kelly</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Antônio quase pulou quando viu uma sombra silenciosa à porta da sala. Era Alice, com o rosto bastante abatido e segurando o que parecia ser alguns rolos de filme e um bloco. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Hoje é dia de todo mundo cair da cama? – Riu, disfarçando o susto que havia levado. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Posso conversar com o senhor? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Claro. Sente-se e tome café da manhã comigo. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alice olhou para a porta aberta que dava para a cozinha, de onde se ouvia vários sons domésticos. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Pode ser no seu escritório? É que o assunto é meio delicado. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Antônio até tentou continuar seu café, mas percebeu no rosto de Alice que era algo grave. Deixou sua xícara com o café ainda quente, levantou-se e entrou no escritório seguido por uma figura que parecia arrastar correntes. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Por um instante Alice pensou em dizer qualquer outra coisa banal, como agradecer à hospitalidade, elogiar a fazenda tão bem cuidada. Mas o ódio não permitiu. E de repente sua fisionomia se transformou e aquele olhar que antes continha algum sinal de arrependimento agora era friamente doce e calmo. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Sr. Antonio, eu sei que não devia, mas não acho justo estarmos fazendo tudo o que temos feito pelas suas costas. Ainda mais o senhor que é um homem tão bom, e nos acolheu tão bem aqui. A Dona Rosa tão simpática e que não mede esforços para nos... &lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Diga logo menina! Sei que não me chamou aqui para elogios. O que tem nas mãos? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Veja o senhor mesmo! E estendendo os braços entregou as provas – Acho que não merecia isso, mas quando viemos pra cá não imaginávamos que estivesse envolvido nisso tudo, o trabalho escr... &lt;p&gt;&lt;br /&gt;- Cale-se! Ele a interrompeu novamente. O pouco que ele havia lido era o suficiente para comprovar tudo o que suspeitava até então. Ele deveria estar grato por Alice ter lhe entregue tudo assim tão facilmente. Mas algo o incomodava muito. Joana havia saído cedo, e ele tinha certeza de que ela iria se encontrar com aquele “padre comunista”. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Chamou Marcelo e deu ordens para que ele trouxesse Joana de volta o mais rápido possível, nem que fosse à força. Mais do que impedi-la do contato com padre Moacir, ele queria tê-la ali, diante de si. Saber se ela negaria tudo, se ela o afrontaria. De que ela era capaz afinal? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Alice ainda tentou contestar, com seu jeito dissimulado, dizendo que não era aquilo que ela pretendia e que se soubesse que ele ficaria tão nervoso não teria contado nada. Pediu desculpas e saiu do escritório de forma que ele não pudesse ver seu sorriso satisfeito de missão cumprida. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Quando saiu do escritório e olhou Marcos, sentiu que o havia perdido de vez. Ele nunca a perdoaria depois disso. Se era Joana quem ele queria, que ficasse com o que sobraria da boa moça depois que tio Antonio e expulsasse dali. O ódio e a inveja a consumiam, quando ela se deu conta de que Marcelo estava demorando demais e algo grave deveria ter acontecido. Tentou se arrepender. Mas aí, já era tarde!&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2340667380035569147-2079405314647603827?l=memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/feeds/2079405314647603827/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2340667380035569147&amp;postID=2079405314647603827' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/2079405314647603827'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/2079405314647603827'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/2008/10/cena-extra-traio-by-kelly.html' title='Cena Extra: A Traição. By Kelly'/><author><name>Nome: Malu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16298942119359110223</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2340667380035569147.post-5609298198125645185</id><published>2008-10-06T07:24:00.000-03:00</published><updated>2008-10-06T07:25:31.469-03:00</updated><title type='text'>Cena Extra: A Traição de Alice. By Andrea.</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Posso conversar com o senhor? Disse Alice ao Tio Antonio... &lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Claro. Sente-se e tome café da manhã comigo. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alice olhou para a porta aberta que dava para a cozinha, de onde se ouvia vários sons domésticos. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Pode ser no seu escritório? É que o assunto é meio delicado. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Os dois então partiram em direção ao escritório, a portas fechadas. Tio Antonio pediu para Alice se sentar para que começassem a conversa. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Pronto, Alice, pode falar que assunto tão delicado é esse que quer ter comigo. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Seu Antônio, você não se pergunta o que um grupo de jovens jornalistas vieram fazer numa cidade como essa? &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Não estou entendendo, Alice, onde você quer chegar com essa história? &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Tio Antônio, nossa vinda esta relacionada com trabalho escravo em fazendas como a Santa Maria e como a sua. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Tio Antônio mostrando-se não tão surpreso com que Alice acabara de lhe revelar, disse que há algum tempo já vinha desconfiando devido à proximidade deles com Padre Moacir, além do súbito interesse de Renato por Rosana, que não passava de uma menina chata, que jamais conquistaria o coração de Renato. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- E o que foi que vocês descobriram? - Perguntou Tio Antônio. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Descobrimos homens sendo tratados como escravos, inclusive dormindo em senzalas. Tivemos contato com um pobre coitado, que deixou família atrás de uma chance de melhorar de vida, acabou tendo que se fingir de morto para escapar dos capatazes da fazenda. Tem mais, Marcos fez uma serie de fotos que comprovam tudo isso que lhe relatei. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- O que você quer em troca dessas provas? - Perguntou ele. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Muito simples quero que mate Joana, do mesmo jeito que ela fez com filho que esperava do Marcos. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Filho? Que filho? - Respondeu Tio Antônio mostrando-se pela primeira vez surpreso com que Alice haverá de lhe falar. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Aquela vaca filha da puta estava tendo um caso com o Marcos, cara do qual era apaixonada, ela sabia da minha paixão por ele, mesmo assim se envolveu com ele, ficou grávida mas é tão covarde que ao invés de me encarar optou por um aborto. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Tio Antônio apesar de tudo não aceitou dar fim em Joana, mas prometeu que daria uma boa lição em todos os que lhe enganaram. Alice acabou aceitando. Sabia que acabar com o trabalho de Joana já era o começo de uma boa vingança. Alice foi até a bolsa de Marcos pegou tudo que achou e entregou a Tio Antônio, que queimou todas as provas, depois ficou a espera de Joana e sua turma. Impaciente com a demora, pediu para que uns capatazes fossem atrás de Joana. Alice, com a sensação de dever cumprido, virou as costas e partiu sabe-se lá pra onde. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Após a saída de Alice, chegaram Marcos e Renato, que logo foram avisados que Tio Antônio os aguardava no escritório. Tio Antônio estava sentando de costas para porta. Ao ouvi-los chegar, nem deu tempo para que eles pudessem pronunciar uma única palavra. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Vocês estão vendo essas cinzas? – Disse, para surpresa dos dois. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Não faço a menor idéia do que seja isso - disse Renato. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Essas cinzas são as fotos que produziram escondidos lá na Santa Maria. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Marcos e Renato se fizeram de desentendidos, afirmando não saber que vídeos eram aqueles. Porém Tio Antônio disse saber de tudo, e que assim que Joana chegasse lhes daria meia hora para sumir de sua fazenda. Pouco tempo depois chega Marcelo, um de seus capatazes, avisando que Joana havia capotado com o carro.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2340667380035569147-5609298198125645185?l=memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/feeds/5609298198125645185/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2340667380035569147&amp;postID=5609298198125645185' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/5609298198125645185'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/5609298198125645185'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/2008/10/cena-extra-traio-de-alice-by-andrea.html' title='Cena Extra: A Traição de Alice. By Andrea.'/><author><name>Nome: Malu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16298942119359110223</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2340667380035569147.post-1151365993860673060</id><published>2008-10-05T02:27:00.001-03:00</published><updated>2008-10-05T02:28:28.515-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;Se você também tem sua versão dos fatos, idéias, pensamentos, ou gostaria de escrever alguma cena que não está incluída, mande um email para &lt;a href="mailto:mariana.monteiro8@gmail.com"&gt;mariana.monteiro8@gmail.com&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2340667380035569147-1151365993860673060?l=memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/feeds/1151365993860673060/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2340667380035569147&amp;postID=1151365993860673060' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/1151365993860673060'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/1151365993860673060'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/2008/10/se-voc-tambm-tem-sua-verso-dos-fatos.html' title=''/><author><name>Nome: Malu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16298942119359110223</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2340667380035569147.post-4811966163284841308</id><published>2008-10-05T02:23:00.001-03:00</published><updated>2008-10-05T02:26:03.473-03:00</updated><title type='text'>Cena Extra - Marcos descobre sobre o aborto (primeira versão) e volta de Joana. By autora</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Marcos tocou a campainha, torcendo para que não houvesse tempo suficiente para ir embora. Tomara o ônibus num impulso, sabendo que o que Dani lhe dissera fazia sentido, mas ainda tentando controlar a raiva e a sensação de ter sido traído. Achara que seus sentimentos tomariam sua devida proporção enquanto estivesse a caminho, o que não aconteceu, e agora o que ainda gritava na sua cabeça era o pensamento que aquela filha da puta amiga da onça não retornava seus telefonemas, não o procurava, se recusava a falar com ele há quase um ano. E ainda por cima resolvera se mudar, e como se não bastasse para o prédio do André, todo mundo sabendo que ele passava pela porta dela quando subia as escadas, menos ele. Isso tudo vindo de uma pessoa que costumava se declarar sua melhor amiga. Houve sexo, é claro, mas porra, eram adultos, eram amigos, e se dois amigos que se sentiam atraídos um pelo outro não pudessem transar sem começar um drama daqueles, então ela que não o tivesse beijado, ela que parasse com aquela mania de segurar a sua mão e abraçá-lo por qualquer besteira. Ele era homem, droga. Não fizera nada que Joana não parecesse estar a fim, e muito.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;A porta se abriu, e Marcos sentiu que a raiva que o queimava corria o sério risco de ceder. Joana materializou-se em sua frente, a mesma pele macia, os mesmos olhos expressivos, os mesmo cabelos longos e encacheados, os mesmos ossos de passarinho. Ela estava usando um short surrado e uma camiseta, a mesma roupa que usara no dia da mudança dele e que quase podia ser um uniforme. Segurava uma furadeira e arregalou os olhos quando o viu.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Marcos? – perguntou, atônita. – Como você...&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Por quê? Estou proibido de te visitar? – Perguntou, sentindo a mágoa voltar com toda força. Joana se recuperou do susto muito bem.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não, é que o interfone não tocou, então eu pensei que fosse o André. Entra.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Ela deu espaço para que ele passasse. A sala estava na mais absoluta desordem, com caixas espalhadas por todos os cantos. A televisão e o sofá eram os únicos que pareciam já ter encontrado seu lugar, e Marcos se controlou para não sorrir, pois sabia que Joana não ficaria sem seus filmes mesmo que não tivesse móveis, água ou telefone. Havia um banco próximo à janela e, a julgar pela furadeira, Joana estivera tentando pendurar uma samambaia.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Quer ajuda? – Apontou o vaso que estava no chão.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu já acabei. Senta.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Enquanto ele se sentava, Joana certificou-se que o gancho estava seguro e prendeu a corrente da samambaia. Depois se afastou para ver como tinha ficado. Sempre adorara plantas, e sua mania de falar com elas gerava vários comentários bem-humorados dos outros. Ela agora olhava a &lt;i&gt;sua&lt;/i&gt; samambaia em &lt;i&gt;seu&lt;/i&gt; apartamento, de um jeito doce e orgulhoso, e Marcos sentiu que o bloco de gelo que carregava dentro dele se derretia. A raiva cedia a uma mistura de ternura, amor e saudade, e perguntou-se desde quando Dani aprendera a ler pensamentos.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-E então? – Joana se virou para ele. A doçura havia desaparecido do seu olhar e dado lugar a um óbvio desconforto. – Não é grande coisa, eu sei, mas vai ficar muito melhor quando eu terminar de arrumar.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Você pretendia me contar? – Ele perguntou. Não queria mais provocar uma briga, mas achava que merecia uma explicação.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Claro que sim – ela sorriu, visivelmente sem graça. – Eu ia convidar vocês assim que o apartamento estivesse pronto, dar uma festa e tal.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;“Vocês”? Desde quando ele era “vocês”? Joana havia colocado o banco em frente ao sofá e se sentado nele, mantendo uma distância que o magoava ainda mais. Ela torcia as mãos e olhava para baixo como se fosse uma criança levando bronca. Chocado, Marcos se deu conta que ela ainda não o olhara nos olhos uma única vez desde que chegara.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Se eu me lembro bem, combinamos que eu te ajudaria quando você se mudasse. – Começou, agora querendo feri-la.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Mas não foi uma mudança muito planejada, eu e os meus pais brigamos... – Tentou se explicar, ainda fixada nos próprios sapatos.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-No ano passado, quando você se enfiou na casa da Alice, mas esqueceu de me avisar que eu estava proibido de falar com você – sua voz estava se elevando, o que ele não queria que acontecesse, mas não podia evitar. E, quanto mais frustrado se sentia, mais alto falava e mais queria que Joana se sentisse tão mal quanto ele. – E depois você se muda, e eu fico sabendo que não era segredo pra ninguém, só pra mim. E você nem tem o trabalho de me explicar o que foi que eu fiz. Eu fazendo papel de idiota achando que você tava com os seus problemas, que queria ficar sozinha, tentando respeitar, mas o problema era eu, todo mundo falando com você, todo mundo sabendo onde você estava. Então agora, se você não se importa, eu acho que eu mereço saber o que eu posso ter feito de tão grave pra receber isso em troca.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Joana estava à beira das lágrimas, e Marcos murchou como um balão que perde o ar. Conheciam-se há quatro anos, ele a consolara durante o fim de dois namoros e inúmeras brigas com os pais, mas nunca a vira chorar. Não acreditara ser capaz de provocar uma reação daquelas, e por alguns segundos ficou imóvel, inteiramente atônito, sem saber como agir. Quando Joana finalmente soltou um soluço e ele percebeu que as lágrimas rolavam pelo seu rosto, a raiva se desfez de vez e ele se abaixou, tentando pegar suas mãos.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu fiz um aborto! – Ela gritou, arrancando as mãos das dele. Foi tão inesperado que ele custou a entender. – Eu fiquei grávida no norte, e foi por isso que eu saí de casa. Eu não te contei porque tinha medo que você fosse me mandar abortar. E no fim foi isso mesmo que eu fiz.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Agora ela chorava tanto que não conseguia falar, e durante seu silêncio as palavras que acabara de ouvir começaram a fazer algum sentido para Marcos. Ele se lembrou que naquela noite estavam tão bêbados que não usaram proteção alguma, o que pareceu não ter importância nem antes nem depois porque ele sempre se julgara invulnerável. As outras pessoas morriam em acidentes, as outras pessoas ficavam doentes, as outras pessoas engravidavam as amigas, mas não ele.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu não consegui olhar para você depois disso – ela continuou, quando os soluços estavam sob controle. – Não poderia ser sua amiga com um segredo desses, e não podia contar. Se contasse você me odiaria, ou ficaria aliviado, e... e.... e eu não agüentaria.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Os soluços voltaram. Marcos não sentia ódio ou alívio. Estava oco, chocado, apático. O máximo que conseguiu foi:&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu não sei o que dizer.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;E houve um novo silêncio, ainda mais incômodo que os anteriores. Por fim, Joana respirou fundo e enxugou as lágrimas, lembrando vagamente a Joana forte que ele conhecia.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Então não diga nada. Agora eu já contei, são águas passadas, e eu já tirei isso de dentro de mim. Eu vou voltar para o grupo, talvez na próxima viagem, e tudo vai ser como antes.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Marcos sentia que nada poderia ser, nem de longe, como antes, mas não tinha forças para discutir. Sentia um bolo na garganta e sua única preocupação era sair dali antes que começasse a chorar também. Como precisava se conter até chegar à casa da Dani, murmurou uma despedida e saiu do apartamento o mais rapidamente que conseguiu.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;-----&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Daniela olhava o irmão, tentando se lembrar que ela sempre havia sido a mais prática dos dois, a responsável por segurar a onda e, se não o fizesse, então eles estariam fodidos de vez. Marcos chorara como não fazia desde pequeno, e naquelas ocasiões era ela quem o consolava, como agora. A merda era muito maior do que parecera. Entendera a raiva inicial de Joana com a atitude machista de Marcos, se irritara um pouco ao ver a teimosia dela e a mágoa do irmão, e agora tudo fazia sentido, os dois tinham toda razão em se sentir tão feridos e a culpa não era de ninguém, talvez fosse da própria Daniela, que provocara aquela maldita bebedeira no norte. Mas tinha de deixar sua consciência pesada para depois, agora seu irmãozinho precisava dela. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Foi à cozinha e trouxe duas cervejas. Esperou que Marcos se acalmasse completamente e, depois de algum tempo em que os dois estavam em silêncio, bebendo, ele murmurou:&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Você estava certa. Ela é a mulher da minha vida e eu estraguei tudo.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-É claro que é, e você não estragou. Ela está deprimida, isso acontece, afinal de contas ela não arrancou um dente. Mas você não ficou com ela antes porque não sabia de nada, e se não sabia foi porque a própria Jô preferiu guardar segredo. Não foi sua culpa.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Mas eu não disse nada. Eu fui embora. – Marcos respondeu, após dar outro gole na sua cerveja.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-O que não foi nem um pouco legal, mas dá pra entender, não dá? O que ela te deu não foi uma notícia, foi uma marretada na cabeça. Quem saberia como agir numa situação dessas? Nem a Jô soube, e olha que ela teve tempo pra pensar. Você só tinha alguns segundos pra dizer a coisa certa.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Ela deve estar me odiando.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Provavelmente. – Dani respondeu, com sua sinceridade de costume. – Mas não vai ser pra sempre. Ela te ama, lembra? Agora nós precisamos reparar os danos. A Jô não disse que tá voltando pro grupo? Então, que ótimo! Significa que ela está melhor, e que pelo menos alguma coisa está voltando a ser como antes. Vamos dar um tempo para vocês dois se acalmarem, e vocês vão se reaproximar aos poucos, você vai ver.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;E, diante do olhar incrédulo de Marcos, Daniela sorriu:&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu já estive errada?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Você não sabe de tudo.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não gostei da resposta.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Mas Marcos não estava com humor algum, e não disse nada. Daniela sentia o coração pequenininho e uma vontade absurda de pegá-lo, ir atrás de Joana, e forçar os dois a fazerem as pazes. Como sabia que não podia mais fazer isso, não depois que seu irmão virara adulto, limitou-se a oferecer hospedagem durante aquela noite.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Tá – ele respondeu, como se seu espírito estivesse muito longe do corpo.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Amanhã vai ser melhor, acredite em mim.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;-----&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Assim que Marcos fechou a porta, Joana se arrastou para a cama, onde permaneceu por mais de vinte quatro horas. Destas, chorou durante trinta minutos sem tentar identificar o que sentia, permaneceu imóvel e sem pensamentos por mais quinze, dormiu por quinze horas, e se maldizeu durante o tempo que sobrou. Era muito fácil dizer que Marcos não fazia falta quando não o via, e agora era impossível não admitir que tinha tantas saudades que a dor era quase física. Também tentou procurar alguma raiva dentro de si, qualquer sementinha, mas era uma tarefa vã após ver o quanto o havia machucado. Ele tinha aqueles olhos azuis lindos pra cacete que não escondiam nada, e só uma cega ou idiota completa não teria percebido que ele se sentia traído e, mais tarde, assustado o suficiente a ponto de ser incapaz de falar algo decente. E, sinceramente, ela não havia chorado durante meses? O que esperava dele? Que a abraçasse e dissesse que tudo ia ficar bem? Na melhor das hipóteses, quem teria de consolá-lo era ela, e não o contrário.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;E foi assim que Joana chegou ao fundo do poço, deu impulso e retornou à superfície. Preferia morrer a entrar naquela onda de autopiedade novamente, e foi como se levantasse da cama pela primeira vez depois de dez meses. O relógio avisou que já eram cinco horas da tarde de domingo, mais um fim-de-semana perdido, mas o último da sua vida. Entrou no chuveiro, esfregou o corpo com esponja e sabonete esfoliante, lavou os cabelos, teria feito hidratação se não estivesse louca de pressa para tocar a vida. Finalmente, colocou um vestido e saiu, ainda com o cabelo pingando pelo corredor.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;André abriu a porta.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Acabei de chegar – avisou, logo que a viu. Depois arregalou os olhos: - Ué, esqueceu de comprar toalha?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Tô pronta. – Anunciou, triunfante.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Como assim? Tá pronta pra um secador?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não, bobo, pronta pra trabalhar. Vai pegar o caderno preto, anda.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;André sorriu de orelha a orelha e disparou para o quarto. Quando voltou, Joana já havia pego uma cerveja na cozinha e estava sentada em um almofadão:&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Quando você pode? – ele se sentou ao lado dela e abriu o caderno.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Teoricamente, a qualquer hora. Como já estamos no meio de agosto, que tal setembro?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Beleza. Eu tô ocupado, mas acho que o Marcos pode tirar férias. Vou ligar agora para ele.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não! – Joana quase gritou. Foi automático. Precisava, sim, que Marcos fosse nessa viagem e que conseguissem encontrar um caminho de volta à velha amizade. Mas não podia falar com ele agora, não imediatamente. Um passo de cada vez. – Deixe eu confirmar com o meu chefe, primeiro. Quando estiver tudo certo, a gente marca a reunião e decide quem vai. O que temos na agenda?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;André, ainda sorrindo, virou algumas folhas. Normalmente ele já ficava empolgado em momentos como aquele, e o fato da Jô estar de volta lhe provocava quase um orgasmo.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Lembra a idéia que você deu quando voltou do norte? Algumas ongs parecem interessadas. Acho que vai rolar. Mas a gente pode ver outra coisa, se você preferir. – Acrescentou rapidamente, ao ver que o sorriso de Joana tremia.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não – ela se apressou: - Por mim está ótimo! Se todo mundo concordar, eu topo. Já topei. Mesmo.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu entendi da primeira vez – André respondeu, um pouco assustado com a ênfase de Joana. – Tudo pra te fazer feliz, esse é o meu lema. É que existem mais algumas questões que a Alice sugeriu, e ela anda meio emburrada porque a gente nunca usa as sugestões dela.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-A última vez – disse, para não falar “norte” - não foi sugestão dela?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Na verdade, foi do Marcos. Ela só se empenhou muito pra gente aceitar.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;“Caralho, a Alice e o Marcos”, pensou, sentindo uma pontadinha no peito. Agora que voltara das cinzas, precisava cuidar daquilo também.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Vamos falar com o pessoal, e ver o que a maioria decide. Continuam todos no grupo?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não se preocupe, a gente não chutou o Renato na sua ausência. E concordo, ele é gente boa pra caramba. A Tati saiu de vez depois que ficou grávida, resolveu virar mãe em tempo integral, e aquele marido dela também não deu muita força.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Ah, por favor!&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Estamos precisando de gente... Ficamos reduzidos a eu, você, Marcos, Dani, Renato e Alice.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Ô incompetência! – Joana brincou. – Não posso nem dar as costas.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não somos nada sem você... – André completou, bem humorado.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;            -Então agora feche esse caderno e me diga o que anda acontecendo no resto do mundo.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;            Enquanto descobria quais os últimos discos que André havia comprado e separava uma pilha de livros pra levar emprestados, Joana se esforçou muito para manter a convicção de que estava pronta. Anotou mentalmente que precisava telefonar urgentemente para Alice e anunciar a sua volta, comprar roupas novas pela primeira vez depois de quase um ano, dar uma volta na praia assim que fosse possível, e falar com seu chefe no dia seguinte logo pela manhã, antes que desistisse. Estava tão apavorada e empolgada que decidiu comprar um diário, para poder reler depois e ver os progressos que fazia. Era muito bom reassumir o controle da sua vida.&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;-----&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;O efeito dominó começou assim: André havia acabado de entrar na redação quando tocou o telefone da sua mesa.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Tudo certo. Férias! – Ouviu uma voz feminina e animada.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Legal, Jojô! Posso falar com o Marcos?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Só se for agora. Beijos!&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Marcos, ainda com o peso no peito que sentira o fim de semana inteiro e um humor de cão, atendeu ao telefone no segundo toque.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Pode falar? - Perguntou André. E continuou, ao obter um grunhido como resposta. – Arrume as malas. A Jô voltou.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Puta que pariu! – Ele gritou, fazendo várias cabeças se voltarem na sua direção.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Você consegue férias pra setembro?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-É pra já. Vou ligar pra Dani.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Falou. Eu ligo pro Renato.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Marcos desligou o telefone e discou um número, sem coragem de levantar a cabeça e encarar seus colegas de trabalho depois da explosão.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Alô?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Ela voltou! Vamos em setembro.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Ai, meu Deus, cheguei a ficar arrepiada! E aí? Eu já estive errada?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Nunca, você está sempre certa, eu te amo, se você não fosse minha irmã nem sapatão eu casava contigo.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-E pra onde vai ser?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não sei, o André ia ligar pro Renato, e eu liguei pra você.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Ninguém avisou a Alice? Ela vai surtar.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Vou fazer isso agora.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;O telefone tocou em outro ponto da cidade.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Alô?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Alice? É o Marcos.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;(Suspiro) – Marquinhos, você sumiu o fim de semana todo!&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-É, foi meio brabo, mas tenho ótimas notícias.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Fala.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-A Jô tá voltando, a gente viaja mês que vem.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Silêncio. Antes que Marcos perguntasse se ela estava bem, uma voz um pouco aguda e animada demais voltou ao telefone:&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Que bom! Eu tô tão feliz! Tô louca pra viajar de novo!&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Peraí, vai dar pra você tirar férias?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu dou um jeito, nem que seja a última coisa que eu faça. Só... Ah, deixa pra lá.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-O quê?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;--É que... Bem, só fiquei surpresa por não ser a primeira a saber, eu sendo a melhor amiga dela e tudo. Pelo menos você me ligou primeiro, foi legal.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-É... Eu tenho que trabalhar. – Marcos mudou de assunto para não confessar que ela era a última a saber.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu também.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;E a última peça do dominó caiu em cima da primeira. Joana estava sentada à sua mesa, tentando desenvolver poderes telepáticos para descobrir como Marcos reagiria ao seu retorno, quando foi a vez do seu telefone tocar.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Alô?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Oi, mulé. Sumiu, hein? O fim de semana inteiro sem notícias!&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Pois é, andei ocupada resolvendo a minha vida. Desculpa – Por que Alice sempre a fazia se sentir culpada? – E resolvi. Tô voltando.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Que bom! Eu tô tão feliz! Tô louca pra viajar de novo! – repetiu, novamente aguda e animada demais. – Já falou com a galera?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Só com o André, pra ele agitar a reunião. Pena que talvez não dê pra você ir, né?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Dá sim, eu dou um jeito. Vamos marcar na praia essa semana?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Vamos!&lt;p&gt;&lt;br /&gt;E assim terminou.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2340667380035569147-4811966163284841308?l=memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/feeds/4811966163284841308/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2340667380035569147&amp;postID=4811966163284841308' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/4811966163284841308'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/4811966163284841308'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/2008/10/cena-extra-marcos-descobre-sobre-o.html' title='Cena Extra - Marcos descobre sobre o aborto (primeira versão) e volta de Joana. By autora'/><author><name>Nome: Malu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16298942119359110223</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2340667380035569147.post-3017233220304703164</id><published>2008-09-29T11:33:00.003-03:00</published><updated>2008-09-29T23:40:51.798-03:00</updated><title type='text'>Epílogo - ... E COMEÇO DE UMA NOVA HISTÓRIA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Escuro e silencioso. O mundo devia ter sido assim antes de ser criado. Afinal, não deixava de ser uma sensação agradável, uma sensação de &lt;em&gt;retorno&lt;/em&gt;. Nem quente nem frio, sem corpo, era como não existir. Provavelmente a morte era isso, não existir por toda a eternidade, ser apenas um pontinho de consciência vagando pelo universo. Quanto tempo havia se passado? Minutos? Horas? Anos? Fazia alguma diferença? Não, e sim. Não provocara absolutamente nada, fora apenas uma vítima inocente dos acontecimentos, nem ao menos se lembrava como fora parar ali, mas ali estava, e não queria voltar. Ao mesmo tempo, algo a chamava, algo que tivera uma importância crucial em outra vida, mas agora estava tão distante, tão apagado, não adiantava se esforçar para se lembrar, seria o mesmo que tentar segurar a água. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;“Nós estávamos todos no escritório”. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Talvez estivessem, mas que importância isso poderia ter agora?Mesmo aquelas palavras pareciam completamente esvaziadas de sentido, era só uma voz que chegava até sua mente, já que não possuía ouvidos, não possuía corpo. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;“Estávamos todos no escritório, esperando por você, só que não sabíamos disso. Seu tio estava sentado naquela poltrona marrom que ele gostava, a cara mais vermelha que nunca, e não falava nada. A sua tia cuidava do jardim sem ter a menor idéia do que acontecia. Ninguém sabia o que estava fazendo ali, com exceção da Alice, que parecia pronta para chorar a qualquer instante. Mas tínhamos certeza que algo tinha dado errado”. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Algo dera errado. Algo dera muito errado. Mas não importava, nada dava errado quando se era um pontinho vagando pelo universo. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;“Nós ouvimos o carro e, enquanto sua tia corria atrás do Marcelo para saber o que tinha acontecido, ele entrou no escritório com o chapéu na mão, parecendo humilhado e envergonhado ao mesmo tempo, pedindo desculpas e jogando a culpa em você, até que todos nós finalmente entendemos o que tinha ocorrido”. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Mas eu não entendi, e não faço questão de entender, sei que as intenções são boas, mas eu estou muito bem aqui, obrigada. Você poderia me deixar em paz? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;“Ele a trouxe até aqui, mas disse que não faria nada além disso”. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Era verdade, estava sozinha. Pensou em um sofá bege no centro de uma sala confortável, uma televisão e o mesmo filme passando novamente, e de novo, e de novo. Na sala não havia aquela voz. Na sala poderia ser deixada em paz. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;“Eu te amo, e eu sei que você vai acordar. Não me deixe porque eu te amo, eu te amo, eu te amo, eu te amo”. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Precisava voltar para a sala, a voz a deixaria em paz quando estivesse sentada naquele sofá, assistindo à televisão. Mas ainda havia coisas demais que não entendia. Por que ele a trouxera para lá? Por que não a deixara morrer? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;“Porque você sempre foi a filha que ele desejou ter, e ele acha que destruiu a reportagem, e acha que queimou todas as fotos, e pensa que o padre está com medo demais para abrir a boca. Ele sabe que o delegado está do lado dele, e os melhores advogados também, e os juízes podem ser comprados. Mas ele não quer mais te ver. Desculpe te dizer isso, mas eu prometi que contaria a história toda, até o final”. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Então aquele era o fim? Um fim muito do besta, já que todos terminaram com medo, escondidos ou comprados. Passara por poucas e boas para que tudo terminasse daquele jeito? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;O sofá e a televisão já não eram nem um pouco atraentes, e o mesmo poderia dizer do espaço escuro e não mais silencioso, agora que aos poucos se lembrava o que deixara para trás e que parecia tão essencial. Precisava descobrir do que era mais fácil abrir mão, sua vida inteira ou aquela imobilidade deliciosa. A voz finalmente se silenciara, mas o silêncio não era mais tão bem vindo, estava muito escuro e tinha medo, não queria ser deixada sozinha novamente. Sentiu uma saudade absurda da vida que pensara ser tão fácil esquecer, e de todas as outras vidas que vinham engatilhadas na dela, dependendo dela, se fundindo com ela. Precisava voltar para casa. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Mais tarde, a primeira coisa que Joana lembraria ter visto em seus primeiros momentos de consciência foi um caderno de colégio sobre uma mesinha de cabeceira fria e impessoal. A segunda foi uma lâmpada incandescente em um teto imaculadamente branco. A terceira foi uma janela fechada. E, em frente a ela, olhando a paisagem, estava Marcos, o dono da voz, que havia estado ali todos os dias, que tinha lido o diário para Joana na esperança que as lembranças a livrassem do coma, uma idéia que nem os médicos, nem seus amigos, acharam que daria certo. Entretanto, ninguém se opôs, pois não custava nada tentar e não deixava de ser muito romântico, e ele já havia se tornado quase uma lenda entre as enfermeiras, que acompanhavam sua vigília e a comentavam, suspirando, enquanto bebiam café. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Os dias viraram semanas, as semanas viraram meses. Ao invés de vagar no espaço, vagava do consultório do fisioterapeuta para o do fonoaudiólogo para o do neurologista. Teve tantas pequenas conquistas e tantas barreiras para superar que às vezes temia esquecer-se o porquê de ter voltado. Até que um dia o céu estava azul e o ar cheirava a maresia e Marcos finalmente cedeu e a levou à praia. Sentaram-se em um quiosque, com Dani, Renato, André e uma menina nova, Roberta. Da mesa onde estavam, Joana podia ver as pedras, e mais uma vez tomou consciência que não havia lugar melhor para renascer. Foi a primeira vez que passaram a limpo o que aconteceu depois do acidente. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Dois dos rolos de filme e o bloco de Joana haviam desaparecido, provavelmente Alice os entregara a tio Antônio, mas, graças à mania de Marcos de esconder os filmes desde o dia em que vira a morte de perto, eles ainda possuíam bastante provas para adicionar ao dossiê. Este se tornara um inquérito que explodiu como uma bomba no exterior, e eles ainda recebiam inúmeras cartas, sobretudo da Europa, mas cada vez menos de seu próprio país. Organizou-se uma diligência e os escravos da Santa Maria foram libertados, entretanto seu Ernesto declarou que não tinha consciência do que acontecia em suas terras, que seus funcionários eram contratados através de intermediários e que estes cuidavam de tudo. Ele e tio Antônio se livraram com uma multa e, após aparecerem nos jornais durante algum tempo, ninguém mais se lembrava deles. Padre Moacir sofrera várias ameaças de morte, e agora estava de volta à capital. E Alice se afastara definitivamente do grupo, desaparecera sem deixar vestígios, “Não que alguém tivesse tentado procurá-la”, Renato acrescentou. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Joana estava em silêncio, com a sensação de quase ter morrido por nada. Havia libertado os escravos da Santa Maria, mas outros estariam no lugar deles em breve, e mais uma vez tinha a incômoda certeza que ainda precisariam caminhar muito para que aquele país pudesse ser tão bom para os outros quanto o era para eles, que podiam se sentar à beira da praia em uma tarde de domingo para bater papo e tomar água de coco. Tudo bem. Eram jovens. Estavam vivos. Podiam caminhar indefinidamente. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Boas notícias. O fascista do meu chefe vai me dar férias mês que vem – Dani mudou de assunto. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Parecia ter sido ensaiado. André, como se estivesse apenas esperando a deixa, tirou um bloco da mochila. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-O &lt;em&gt;timing&lt;/em&gt; não podia ser mais perfeito. Temos de investigar a denúncia da irmã Dulce, aquela freira que entrou em contato com o Renato contra a Madeireira Amaro, no norte. Precisamos de um fotógrafo e mais uma pessoa. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu acho melhor ficar aqui por algum tempo – Marcos disse, acariciando a mão de Joana. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Tudo bem, eu vou – André respondeu quase imediatamente, como se tivesse oferecido o lugar a Marcos por pura educação. – E acho que essa vai ser uma ótima oportunidade para o batizado da Roberta. Topa? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Topo – ela sorriu, ainda um pouco tímida. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Legal. Temos duas semanas pra organizar tudo. O Marcos e a Jô podem fazer a pesquisa na Internet. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Pelo amor de Deus, estou louca para fazer alguma coisa! &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-E o Renato vai entrar em contato com a freira e acertar tudo para o mês que vem, certo? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Deixe comigo. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Todo mundo pega o máximo de informações que conseguir, e a gente se encontra no sábado, na casa do Marcos? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Após todos concordarem, André abriu novamente a mochila e dela tirou um caderno preto e de capa dura. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Ai, não, tudo menos a ata! – Dani gritou. – Como você é panaca, André! &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Cala a boca, Dani – respondeu, habituado a dizer aquela frase após cada reunião. – Madeireiras ilegais... Dani, Roberta e eu... mês que vem... reunião na casa do Marcos no próximo sábado... Agora todos leiam e assinem, por favor. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Que ridículo! – Dani resmungou, tomando a caneta da mão do amigo. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;----- &lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Marcos abriu a porta do apartamento e acendeu a luz. Quando ele resolveu se mudar do apartamento de Dani, Joana o convenceu a comprar o sofá bege porque, assim que entraram na loja, lhe deu uma vontade incontrolável de jogar os sapatos para o alto e se atirar nele, e qual era a vantagem de se ter um sofá sobre o qual a gente não quisesse se atirar? Continuava querendo fazê-lo, mas tinha de se conformar com o fato de ter chegado aos setenta anos antes dos trinta, ao menos temporariamente. Além disso, como Marcos a tratava como se fosse se quebrar ao menor descuido, ela deixou que ele a ajudasse a se sentar. Calmamente. Como uma dama. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Vocês nunca me contaram de onde a Roberta surgiu. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Claro que eu contei – respondeu ele, abrindo a porta da varanda. Depois hesitou e sorriu, meio sem-graça. –Tá, eu não contei &lt;i&gt;de verdade&lt;/i&gt;. Acho que falei sobre ela pouco depois do acidente, quando eu ia ao hospital conversar com você e todo mundo me olhava como se eu fosse maluco. Ela nos procurou logo que voltamos. Disse que admirava muito o seu trabalho. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-O &lt;i&gt;meu&lt;/i&gt;? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-É. Bom, ela já conhecia todos nós de nome, porque foi ela que encontrou o seu diário, mas falava muito em você. Ninguém andava com muita cabeça para conversar naquela época, mas ela estava sempre por perto. Foi ela que se mudou para o seu apartamento, ficou amiga do André e, antes que notássemos, virou parte do grupo. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Joana sentiu um calafrio. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-É meio assustador, não é? Meio “Mulher Solteira Procura”? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Marcos riu: &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Aliás, vocês são muito parecidas. A Roberta também adora filmes. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Todo mundo adora filmes. Além de termos dois olhos, uma boca, um nariz, e da Roberta ter roubado meu apartamento, não consigo ver semelhança alguma. Agora sou oficialmente uma sem-teto. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Ela não roubou o seu apartamento. Disse que seria seu quando você pudesse voltar, mas eu meio que estava esperando que você ficasse por aqui. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Obrigada. É muito gentil da sua parte me oferecer hospedagem depois de me despejar – respondeu, irônica. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu queria dizer “para sempre”, mas você nunca me deixa terminar as frases – ele respondeu, ainda no seu tom casual de melhor-amigo-tentando-aprender-a-ser-namorado. – Eu estive pensando, e acho que vai ser uma boa economia na conta de telefone. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Joana, que sempre se orgulhara da sua rapidez de raciocínio, levou um pouco mais de tempo que o usual para entender o que acabara de ouvir. Inúmeros flashes vinham à sua memória: uma redação de revista, um desfile de modas seguido por muitas cervejas, as pedras da praia, filmes de madrugada, contas de telefone astronômicas, uma praia no norte, um piquenique, uma cachoeira. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Porra, Marquinhos, essa é a coisa mais romântica que eu já ouvi - Joana respondeu, em seu tom casual sou-apaixonada-pelo-meu-melhor-amigo-e-não-podia-estar-mais-feliz. - Você quer morar comigo por pão-durismo? &lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Você toparia se eu dissesse que quero tomar conta de você? &lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Nem em um milhão de anos! &lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Ok... então, o que você acha de economizar o telefone? &lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Acho que estou desabrigada, desempregada, e seria uma ótima idéia - e sussurrou, ao seu ouvido: - E adoraria que você tomasse conta de mim. &lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E, passado o momento, pegou o bloco que estava sobre a mesinha de centro e começou a fazer uma lista rápida, por tópicos, dos itens que precisava pesquisar sobre a Madeireira Amaro. Marcos, em lugar de ficar ofendido, sorriu. A vantagem de se apaixonar pela melhor amiga era saber o tamanho da embrulhada em que estava se metendo desde o início. E, se teria de lidar com as suas sandices para o resto da vida, era melhor começar a desenvolver suas técnicas, ou aprimorar as que já surtiam algum efeito, desde já. Sem se dar ao trabalho de explicar, ele tirou o bloco das suas mãos, a pegou no colo e a levou para o quarto.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;FIM&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2340667380035569147-3017233220304703164?l=memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/feeds/3017233220304703164/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2340667380035569147&amp;postID=3017233220304703164' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/3017233220304703164'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/3017233220304703164'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/2008/09/eplogo-e-comea-de-uma-nova-histria.html' title='Epílogo - ... E COMEÇO DE UMA NOVA HISTÓRIA'/><author><name>Nome: Malu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16298942119359110223</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2340667380035569147.post-5780562079241242484</id><published>2008-09-29T00:40:00.003-03:00</published><updated>2008-09-29T00:46:00.624-03:00</updated><title type='text'>Capítulo 22 - A VIZINHA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;-E foi isso o que aconteceu – André disse para a garota. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Mas ela vai se recuperar, não vai? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Ninguém sabe. E a verdade é que, conforme o tempo passa, as chances diminuem – ele respondeu, sem querer dizer para si mesmo que nem médicos, nem amigos, acreditavam em uma recuperação. Não que o houvessem comentado. Haviam feito algo muito pior. Haviam voltado para o cotidiano. Estavam de volta aos seus empregos, haviam comparecido à patética festa com coxas de rã envenenadas, haviam se encontrado após o trabalho para beber cerveja e falar sobre assuntos prosaicos como cinema e música. Ainda iam ao hospital, mas cada vez com menos freqüência, e era muito triste ver que ninguém mais estivera lá enquanto ficaram ausentes. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Só o Marcos. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu quis dizer pessoas da família. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu gostaria de levar flores para ela. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Por quê? – André perguntou, surpreso. Não que Jô não as merecesse. Ele mesmo ia lá, no início todos os dias, depois todos os fins de semana, e, finalmente, apenas aos sábados, e sempre levava flores. Mas por que aquela menina desconhecida, que nunca havia visto Joana na vida, queria fazer o mesmo, era algo que escapava totalmente à sua compreensão. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Porque ela mudou a minha vida. Ou está prestes a mudar, sei lá. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;E a menina falou que havia se formado em jornalismo há pouco tempo, que, com exceção de alguns estágios, nem ao menos tivera a chance de começar a trabalhar, mas que acompanhava o que o grupo fazia e era grande admiradora do trabalho de todos, principalmente do de Joana. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Mas como você sabe que somos um grupo? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu achei isso. – E finalmente deu mostras que ia começar a explicar o caderno que segurava desde que tocara a campainha. – É o diário da Jô. Desculpe. Joana. – Se corrigiu. – Eu nunca a vi na vida, mas parece que somos íntimas. Temos muita coisa em comum. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-E onde você encontrou isso? – André pegou o caderno, fascinado. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Acho que ficou para trás com a mudança. Eu devia ter vindo devolvê-lo imediatamente. Aliás, na quinta página, já dava para adivinhar onde você morava, mas eu fiquei... Bem, envolvida. Envolvida até demais. Eu não consegui parar de ler, viajei imaginando que era parte da história... Ok, é melhor explicar que eu não sou maluca, só tenho uma imaginação muito fértil. Mas faltou o desfecho, sabe? E eu... – ela se interrompeu, visivelmente constrangida. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Só decidiu devolver o diário para saber como tudo terminava – André completou. Estranhamente, ele não estava com raiva. Estava calmo e muito interessado. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-É – ela confessou. – Mas eu também queria conversar com ela. Temos muito em comum. – Repetiu. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Isso não vai dar para fazer, por motivos óbvios. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu sei... Mas eu posso ir lá? Posso entregar o diário para &lt;i&gt;ele&lt;/i&gt;? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Então foram ao hospital, e abriram a porta do quarto, e Marcos estava sentado ao lado da cama, como a garota sabia que ele estaria. Tanto Joana quanto Marcos eram muito diferentes do que ela havia imaginado, ou talvez tivessem sido transformados pela doença e pela vigília. Afinal, algo que a havia marcado ao ler aquelas páginas havia sido a vitalidade da primeira e a paixão do segundo. Joana parecia um passarinho. Era minúscula, engolida pelos lençóis e perdida em uma cama, de cor indefinida e desoladoramente opaca. Marcos não tinha os traços da sua imaginação, mas era, sim, um gigante nórdico, e possuía lindos e doces olhos azuis, exatamente como descritos no diário. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu trouxe flores pra Jô – ela falou, após repetir que era grande admiradora do trabalho deles. – E esse é o diário dela, que encontrei no apartamento. Você poderia ler para ela, sabe? É só uma idéia maluca que me ocorreu, mas quem sabe ela... &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Se lembre? – Marcos a interrompeu, pegando o caderno com o mesmo fascínio que André havia mostrado no apartamento. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-É. Quem sabe? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Quando saíram do hospital, deixando Marcos e o diário ao lado da cama, André a convidou para beber alguma coisa. Tinha um agradecimento e um convite para fazer. Queria agradecer por tê-lo lembrado que a Joana foi algo mais que pele e ossos em cima de uma cama de hospital, que ela já havia sido uma grande amiga, que tinha uma risada alta e fácil, idéias loucas, uma enorme coragem e não se detinha diante de nada. O convite era para que entrasse para o grupo.&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2340667380035569147-5780562079241242484?l=memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/feeds/5780562079241242484/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2340667380035569147&amp;postID=5780562079241242484' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/5780562079241242484'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/5780562079241242484'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/2008/09/captulo-22-vizinha.html' title='Capítulo 22 - A VIZINHA'/><author><name>Nome: Malu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16298942119359110223</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2340667380035569147.post-3821982276997225320</id><published>2008-09-27T14:46:00.004-03:00</published><updated>2008-09-28T03:52:31.906-03:00</updated><title type='text'>Capítulo 21 - DANI</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;A tarde de sábado ia embora aos poucos sem que André se desse conta, pois estava ocupado demais com os papéis e com a Dani. Os papéis eram relacionados à reportagem, todos impressos porque olhar muito tempo para a tela do computador lhe dava dor de cabeça, e consistiam em tudo que Joana, Renato e Alice lhe haviam mandado nas últimas semanas, alinhavados por Dani para que fizesse algum sentido. Mesmo que nunca escrevesse um livro, tivesse um filho ou plantasse uma árvore, sabia que podia morrer em paz por ter deixado a sua contribuição para o mundo, e pouco importava se Dani o chamava de brega para baixo quando falava assim, pois era exatamente isso o que sentia e, se fosse diferente, então teria sido melhor fazer um concurso público, como era o sonho do seu pai. No dia seguinte, estariam juntos em uma reunião que se repetia há mais de cinco anos, mais uma história contada, outra página encerrada, mais um passo de formiga para tornar aquele país mais justo e, sabe-se lá, talvez um dia conseguisse mesmo e então poderia se dedicar a tirar fotos de paisagens. &lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Também estava ocupado com Dani, que terminara de digitar a última pagina e agora se dedicava a preparar o cardápio para o dia seguinte, provavelmente uma nova gororoba que ninguém teria coragem de provar. Brigar com aquela loura descomunal era um dos maiores prazeres da sua vida, aquela mulher gigantesca e lindíssima que, estranhamente, ele nunca sentira vontade de levar para a cama, mas sem a qual não saberia viver. Sempre se perguntara se a amiga tinha alguma noção do quanto era bonita. Dani possuía quase um metro e oitenta de altura, olhos tão azuis que chegavam a ser quase violeta, o cabelo louro dourado que atrizes de televisão só conseguiam às custas dos maiores gênios da cosmética moderna, e um corpo que não deixava dúvidas sobre a existência de um Deus sábio e bom. No entanto, se portava com tanta indiferença em relação a tudo que dizia respeito à moda e aparência que, quem não a conhecesse, pensaria que ela possuía uma auto-estima indigente. Dani tinha o vocabulário de um marinheiro e, apesar da aparência de top model, o venceria facilmente em uma briga. Por outro lado, era a mulher mais maternal que já conhecera, além, claro, da sua mãe. Não havia uma só pessoa da turma que nunca tivesse procurado e conseguido consolo no seu colo cheio de ossos salientes. Ela sabia ser absurdamente grossa e doce, na medida perfeita. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;-Onde se compra carne de avestruz? – Perguntou Dani, que folheava seu caderno de receitas, sentada em um dos almofadões. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;-Eu não como isso. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;-E por que não? Já provou? &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;-E preciso? Dani, quando é que você vai começar a cozinhar como uma pessoa normal? &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;-Nunca, então podem começar a ser menos obtusos. Sabia que carne de avestruz e chiquérrima em vários países do mundo? &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;-Foda-se. Eu não como isso. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;-Grosso, ignorante, atende o telefone – resmungou, de um só fôlego, enquanto considerava substituir a avestruz por carne de jacaré. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;André foi atender sem dar muita importância ao prato que a amiga escolhia, pois sabia que as receitas de Dani invariavelmente grudavam no fundo da panela. Não precisou ir muito além do “alô” para perceber que, pela primeira vez, a festa do retorno estava adiada. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;-André... cara... aconteceu uma coisa horrível – ouviu a voz de Renato, tremida. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Sempre tivera pavor de receber um telefonema como aquele e, como fazia com tudo que o apavorava, já havia treinado mentalmente como agir em tais situações. Ficaria calmo e pediria todas as informações, não saberia a dimensão da desgraça antes de ouvir a história completa, e então pensaria racionalmente e encontraria a melhor solução. O problema é que não estava mais sozinho em sua mente, e havia ficado tão branco que Dani largou o caderno e começou a fazer sinais frenéticos na sua frente, querendo saber o que tinha acontecido. Ele, contrariando todo o seu treinamento, não teve voz para perguntar, e Renato teve que continuar a narração por conta própria. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;-Aconteceu um acidente, a gente está no hospital, mas a Jô tá mal. Cara, vem pra cá agora. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;-Eu estou indo. Que hospital? – E aquela pergunta foi a deixa para a Dani ficar ainda mais histérica. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;-Porra, fala logo, o que aconteceu? &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;-Cala a boca, Dani, assim eu não consigo ouvir nada. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quando desligou, ela já estava com a chave do carro na mão. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;-Quem está no hospital? Foi o Marquinhos, não foi? Ai, caralho, eu tô sentindo que foi. Se calça, merda, vamos logo! &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;-Não foi o Marcos, foi a Jô – respondeu André, revirando a sala atrás dos sapatos. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Dani ultrapassou todos os limites de velocidade até o hospital, tendo sido um milagre não ter sido multada. Sentia o coração do tamanho de uma noz, louca para saber o que tinha acontecido e com medo ao mesmo tempo, aliviada por Marcos estar bem e em pânico por causa de Joana, o que significava que uma de suas melhores amigas estava sofrendo e que o irmão, com certeza, não estaria bem porcaria nenhuma. Foi torturando André por todo o caminho, “Como assim, a Jô tá mal? Mal como? Correndo risco de vida? Morta? Quase morta?”. O amigo respondia que já tinha lhe contado tudo o que sabia, Dani se silenciava por um minuto, e depois recomeçava: ”Mas o Renato não falou nada? Não deu nem uma pista? Ela tá muito mal? Correndo risco de vida?”. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Após Dani gritar perguntas para uma recepcionista apavorada, dispararam hospital adentro, quase atropelando algumas pessoas e macas pelo caminho. Finalmente chegaram ao segundo andar, em uma sala de espera relativamente vazia. De repente, André não sentiu mais a menor pressa. Renato estava sentado com um ar tão desolado que perdeu imediatamente a vontade de ouvir as notícias. Marcos, que estivera andando pela sala, abraçou a irmã e afundou o rosto no seu cabelo dourado, reprimindo um soluço. André teve certeza absoluta que Joana estava morta. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;-Que bom que vocês chegaram. – Renato se levantou ao vê-los. – Ninguém dá noticias, tá brabo. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Se ninguém dava noticias, ao menos Joana estava viva. André finalmente conseguiu recuperar o juízo e a voz e, ao ver que Dani estava preocupada demais com o irmão e não falaria nada no próximo minuto, achou por bem tomar a frente e perguntar o que diabos estava acontecendo. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;-Deu tudo errado – Renato explicou, voltando a se sentar. – o seu Antônio descobriu, sei lá como. Mandou uns caras atrás da Jô, que tinha saído. Nem sei direito como aconteceu, ele chamou todo mundo no escritório com uma cara emputecida, disse que estava esperando ela chegar pra gente acertar umas coisas. Ai voltou o Marcelo, o capanga dele, dizendo que a Jô tinha capotado. O carro virou um monte de ferro retorcido, foi uma sorte ela estar viva. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;-Então ela &lt;i&gt;está&lt;/i&gt; viva – Dani disse suas primeiras palavras, ainda abraçada a Marcos. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;-Tá, mas tá muito mal. O seu Antônio chamou um helicóptero que trouxe a gente até aqui, disse pra ver se a Jô tem plano de saúde que ele não queria ter mais nada a ver com ela, falou que queimou os filmes, as anotações, tudo. Ela está sendo operada, estão tendo que botar uma porrada de coisa de volta no lugar, e ninguém diz se ela vai ficar boa. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Renato concluiu a narrativa sem dizer o principal, que só poderia ter sido obra daquela vaca da Alice, de que outra forma o seu Antônio poderia ter descoberto, agora sua melhor amiga estava a beira da morte e a troco de nada, não tinham as fotos para provar o que tinham visto e aquele velho gordo do inferno faria todos caírem no ridículo quando contassem a história. Não teve coragem de dizê-lo em voz alta, nem quando André olhou ao redor e perguntou onde estava a Alice. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;-Sei lá – respondeu, querendo dizer “fugiu”. – Ela veio com a gente, mas não a vimos mais desde que entramos no hospital. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;-Eu ainda tenho três rolos de filme – disse Marcos, finalmente se separando de Dani. Sua voz estava surpreendentemente calma e seus olhos estavam secos. – Ele só pegou os do inicio da viagem, que não tinham nada demais. Eu tinha escondido os outros. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Sentaram-se todos, preparados para esperar. André, que estava enlouquecendo aos poucos com a demora das noticias, tentou ligar algumas vezes para Alice, mas só conseguiu encontrar a secretaria eletrônica. Já estavam ali há duas horas, mudos, tentando não imaginar o pior, quando Dani se levantou e chamou Marcos para buscar café. Sabia que o irmão não se abriria enquanto não estivessem sozinhos, e seus olhos injetados sugeriam que ele iria explodir se não o fizesse logo. Marcos olhou para a porta fechada da sala de operação, em dúvida, e André garantiu que iria atrás deles logo que soubessem alguma coisa. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;-A gente tinha se acertado – Marcos murmurou, assim que se sentaram com seus copos de café à mesa da cantina. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;-Ela vai ficar bem – respondeu a irmã, acariciando a sua mão. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;-Você não sabe. Ela pode morrer – completou, olhando para o seu copo de café. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;-O destino não teria esse trabalho do cão pra botar vocês dois juntos se ela fosse morrer agora. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;-E se ela morrer? O que eu faço? &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;-Pára de falar isso. Ela vai ficar bem, eu já disse. E eu nunca me engano, lembra? – Dani consolou-o, sabendo que sim, ela poderia morrer, e que aquilo seria uma puta sacanagem, pois aqueles dois já haviam passado por um bocado de coisas juntos, haviam sofrido feito uns cachorros no último ano, e se agora tudo terminasse em um carro capotado onde Judas perdeu as botas então o mundo tava mais fodido do que ela imaginara. Ela tornou a abraçar Marcos e ele chorou pela primeira vez desde que tudo começara, nunca o admitiria na frente de Renato ou André, mas Joana poderia realmente morrer e ele não sabia o que seria da sua vida se isso acontecesse, não conseguia se lembrar de um único momento feliz em que ela não estivesse presente, não saberia recomeçar a viver sem ela, odiaria todas as mulheres do mundo por não serem a Jô, odiaria todas as pessoas que continuassem vivas, era melhor que eles voltassem para saber se já tinham noticias, mas talvez fosse melhor não saber, pelo menos assim ainda havia alguma esperança, e quem contou pro seu Antônio, só poderia ter sido a Alice, ela andava muito estranha ultimamente, ontem ela e a Joana quebraram o pau, por minha causa, que merda, será que a Alice era tão maluca que faria isso por minha causa, e agora ela havia desaparecido, o que era bom, pois ele seria capaz de quebrar a cara dela se a visse, e se a Jô morresse provavelmente a quebraria mesmo, vaca filha da puta, Renato sempre estivera certo, de que outra forma os filmes teriam ido parar nas mãos do seu Antônio, estavam dentro da mala dele, quem mais mexeria nas suas coisas, e a Jô falou que tinha um pressentimento ruim, ele achou que era paranóia da cabeça dela, mas prometeu a si mesmo que a protegeria e olha só o que tinha acontecido, a primeira vez que a Jô admitia estar com medo e ele nem conseguira ajudá-la, agora ela estava no hospital por sua culpa, era a segunda vez em sua vida inteira que a Joana chegava perto da morte, e as duas vezes quem fizera isso com ela fora ele, logo ele, que tinha jurado que nunca amaria outra mulher, que estaria sempre ao seu lado. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;-E se ela morrer? – Concluiu Marcos, com um soluço. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Desta vez, Dani não respondeu. Pouco importava se Marcos era um gigante e tinha quase trinta anos na cara, era seu irmãozinho e ela não tinha como consolá-lo. Pela primeira vez, desejou que não estivessem sozinhos naquele país tropical que não era mais lar para eles do que vários outros cantos mais civilizados do planeta, onde tios não maltratavam empregados e amigas da onça não traíam os outros por causa de um homem. Por um instante, quis que os pais estivessem ali. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;-Os pais da Jô já foram avisados? &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Marcos enxugou as lágrimas e voltou a olhar para o copo de café, que já estava frio, mas que, de qualquer maneira, ele nunca tivera a intenção de beber. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;-O Renato telefonou, mas eles não estavam em casa. Deixou um recado com o nome e o telefone do hospital. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A porta do elevador se abriu e Renato e André apareceram, com uma expressão que, embora não comunicasse a morte de ninguém, também não revelava boas noticias. Sentaram-se à mesa com Dani e Marcos. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;-Ela está estável – disse André. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;-Então ela vai ficar boa – Dani sorriu, olhando para Marcos com ar de “eu te disse”. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;André, de aparência normalmente desengonçada por ser tão alto e tão magro, pareceu ainda mais estranho em seu próprio corpo ao baixar os olhos, completamente desconcertado. Dani permanecia num vácuo completo, sem se atrever a tirar conclusões, mas apertando a mão de Marcos com tanta força que seus dedos já começavam a ficar dormentes. Quem tomou a palavra foi Renato, que parecia bem menos desconfortável e muito mais chocado com a situação. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;-Na verdade, ela está em coma. O cirurgião disse que iria chamar o neurologista para conversar com a família, e eu tive de responder que a família é a gente, afinal os pais dela não deram notícias até agora, não é? – Meio que perguntou, meio que afirmou, parecendo esperar confirmação para saber se tinha feito o certo. – Eu disse que vinha buscar vocês pra gente poder conversar com ele. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Naquela noite, Marcos sentou-se na cadeira ao lado da cama de Joana e deu inicio a um monólogo ininterrupto dirigido ao espírito dela que, tinha certeza, estava vivo em algum lugar daquele corpo inerte. Começou por tentar ignorar completamente aquela máquina que sinalizava as batidas do seu coração, e com o tempo ficou tão bom nisso que chegou a acreditar que Joana estava dormindo. De início, repetia infinitas vezes que a amava, que ela precisava acordar, que não o deixasse, e tudo que desabafara a irmã no dia do acidente, na cantina. Depois, conforme recebia notícias do mundo fora do hospital, passou a lhe contar que a reportagem estava pronta, que Alice ainda não dera sinal de vida, que agora todos sabiam que estavam juntos e que Dani quase os envenenara com umas coxas de rã de procedência duvidosa. Falou que uma mulher havia estado no hospital, havia acabado de se formar em jornalismo e era fã de Joana, havia até trazido flores, veja como você é importante para a gente, mesmo para quem você não conhece, por favor não nos deixe, não me deixe, eu estou te esperando, eu te amo, eu te amo, eu te amo. &lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Os amigos todos vinham com freqüência, principalmente Dani, que queria fiscalizar de perto o estado de saúde da amiga e do irmão. Como sempre, as questões prosaicas caíram em suas mãos, e precisou dar entrada junto aos órgãos competentes para que Joana recebesse uma pensão enquanto não se restabelecia, preencheu a papelada do plano de saúde, tentou inutilmente contatar qualquer membro da família de Joana que se interessasse por se estado e, quando o médico continuou reticente e distante sobre o futuro, exibindo gráficos e estatísticas que traziam muito pouco conforto, convocou todos os amigos para uma reunião infame para que decidissem o que fazer dali em diante. Concordaram em pagar o aluguel do apartamento naquele mês, mas não sabiam por quanto tempo a situação se prolongaria e André propôs, para revolta de Marcos e Renato, que entregassem o imóvel e guardassem as suas coisas. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O apartamento foi alugado, e aquele momento, para Dani, foi o fim de um capítulo na sua história. O argumento preferido de Renato era que não podiam dispor da vida de Joana como se ela não fosse se recuperar nunca, mas ela era prática demais para que acreditasse em milagres. Sentindo-se um monstro, entrou em contato com a imobiliária, tentou arrancar Marcos do hospital para que ele ao menos tomasse um pouco de sol, organizou uma festa patética e baixo astral com o intuito, fracassado, de melhorar humores e levantar espíritos, e começou a procurar quem preenchesse as duas vagas abertas no grupo.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2340667380035569147-3821982276997225320?l=memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/feeds/3821982276997225320/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2340667380035569147&amp;postID=3821982276997225320' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/3821982276997225320'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/3821982276997225320'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/2008/09/captulo-21-dani.html' title='Capítulo 21 - DANI'/><author><name>Nome: Malu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16298942119359110223</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2340667380035569147.post-6834928707624592561</id><published>2008-09-26T18:50:00.002-03:00</published><updated>2008-09-26T18:54:09.418-03:00</updated><title type='text'>Capítulo 20 - FIM DE UMA HISTÓRIA...</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Antônio viu Joana sair e dirigiu-se à mesa, para tomar o café da manhã. Não estava com a menor fome, mas precisava seguir os mesmos passos todos os dias, ou era melhor dar seu dia como perdido. Acordava sempre às cinco horas e, se por algum acaso levantasse da cama às cinco e dez, passaria as próximas vinte e quatro horas com a sensação de estar, irremediavelmente, dez minutos atrasado. Naquela manhã, levantara às quatro e meia. “Levantar” era uma palavra muito mais apropriada que “acordar”, já que não havia pregado o olho a noite inteira, revirando para um lado e outro da cama no escuro, pensando em Joana, sua Joanita, um milhão de vezes melhor que suas filhas inúteis e fúteis que não se dignavam a visitar a própria mãe na fazenda. Sempre soubera o futuro maravilhoso que aguardava aquela menina. Quando o preguiçoso do irmão lhe pediu, ajudou a pagar os estudos de Joana com muito gosto, ela era excepcionalmente inteligente, sempre tirava ótimas notas e guardava com carinho as enciclopédias que o tio havia lhe dado ao longo da vida. Nas férias, ao invés de visitar aquela besteirada de Disney, passava um mês inteiro na fazenda andando a cavalo, tomando banho de rio, fazendo tudo que as meninas normais deveriam fazer, ao contrario das cabeças de vento das filhas que só queriam saber de comprar roupas, viajar e namorar. Bastou um telefonema seu para arrumar-lhe emprego naquela ótima revista quando se formou, e nunca se arrependeu disso, pois só ouvia comentários elogiosos sobre o seu trabalho. Quando aconteceu a desgraça, e seu irmão lhe ligou chorando tanto que mal conseguia falar, ele foi o primeiro a colocar a culpa nas pessoas certas, os pais, claro, que permitiam que uma garota tão boa, tão inteligente e tão doce se desviasse daquela forma do seu caminho. A Rosa chorara muito, se enfurnara na igreja e acendera milhares de velas, mas ele lhe mostrou que aquela não era a solução, precisavam tirá-la da capital, levá-la novamente para o campo e afastá-la das tentações da cidade grande. Quando a sobrinha telefonou dizendo que passaria algumas semanas lá com uns amigos, disse à Rosa que ela tinha razão, que Deus sempre resolvia tudo por nós.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Mas algo muito estranho estava acontecendo. Começara com um pressentimento, e talvez Rosa até tivesse adiado a viagem por causa disso, mas era um homem prático demais para dar atenção a bolos no estômago. A sua menina havia mudado, talvez fosse o trauma da experiência pela qual passara, mas isso não explicava sua incômoda amizade com o padre comunista, suas inúmeras visitas à plantação, as conversas longas com os lavradores no dia do batizado, a saída inexplicável de seus dois amigos no dia do churrasco, e sua ida hoje à igreja, com o dia mal nascendo. Rosa deveria estar certa mais uma vez, era hora de começar a dar mais ouvidos à sua intuição.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Antônio quase pulou quando viu uma sombra silenciosa à porta da sala. Era Alice, com o rosto bastante abatido e segurando o que parecia ser alguns rolos de filme e um bloco.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Hoje é dia de todo mundo cair da cama? – Riu, disfarçando o susto que havia levado.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Posso conversar com o senhor?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Claro. Sente-se e tome café da manhã comigo.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Alice olhou para a porta aberta que dava para a cozinha, de onde se ouvia vários sons domésticos.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Pode ser no seu escritório? É que o assunto é meio delicado.&lt;p&gt;&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;-----&lt;p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Roberta havia ficado sentada em um banco da praça, ainda sem idéia de qual seria seu próximo passo, até que as portas da igreja se abriram para a missa. As pessoas passavam por ela segurando terços e usando véus, como em um filme de época, e várias a cumprimentaram. Roberta respondeu a todos os “bons dias”, embora parecesse cada vez menos fazer parte daquela paisagem, assistindo à cena de seu sofá, mas sem participar dela. Ainda não decidira o que fazer. Desejava muito falar com o padre, ele se tornara quase um amigo nas últimas semanas, e não estava tão envolvido na vida de Joana quanto Marcos ou Renato. Mas falaria o quê? Narraria a história completa e correria o risco do padre Moacir chamar o sanatório, ou omitiria o diário mágico, pedindo ao padre conselhos para melhorar a sua vida? Ainda sem respostas, entrou na igreja e sentou-se em um banco ao fundo.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Havia uma terceira opção. Se algum dia voltasse para casa, e levando-se em conta que vivia uma experiência mágica em lugar de uma alucinação, poderia procurar Joana. Com certeza existiriam registros dela em algum lugar, e essa seria sua própria aventura. Mas, caso Joana não existisse nem nunca tivesse existido, então seu subconsciente deveria estar dizendo a ela que era hora de se mexer. Tom Hanks e Mel Gibson sobreviveriam sem sua ajuda, e a TV por assinatura se sairia muito bem sem sua audiência. Talvez até mesmo vendesse a televisão, pararia com aquela história ridícula de viver da renda de um dinheiro que não movera um músculo para ganhar, e arrumaria um emprego. Era nova demais para viver a vida dos outros daquele jeito. Ainda havia uma chance, não estava morta.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Levantou-se se sentindo bem mais otimista. Entrou na fila que se formava à saída da igreja, para cumprimentar o padre, e sorriu quando chegou em frente a ele:&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Acho que é uma despedida.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Espero que não seja para sempre. – Ele respondeu. Ela esperava o mesmo. Segundo o que tinham conversado, o padre a procuraria dali a duas semanas, quando estivesse na capital. Agora não sabia se aquele telefonema jamais aconteceria.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Ia apertar a mão do padre, mas ele lhe deu um abraço, e Roberta, sensível do jeito que estava, lutou para segurar as lágrimas. Finalmente, desceu as escadas da igreja no meio dos fiéis, e foi então que viu Marcelo no boteco da praça.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Marcelo estava sentado exatamente à mesma mesa onde ela e Marcos haviam bebido uma aguardente após encontrar Ronaldo na estrada. Nada impedia que tudo fosse coincidência, mas havia algo na forma que ele olhava para a igreja, tentando localizá-la, que fez seu sangue gelar. Continuou descendo os degraus, tentando se mesclar aos outros à sua volta, tendo certeza que algo dera terrivelmente errado e ele estava lá por causa dela. Sem ter uma idéia clara do que fazer a seguir, começou a andar para o lado oposto e entrou em uma rua transversal. Da esquina, percebeu que o número de pessoas deixando a igreja diminuía, e que Marcelo começava a se impacientar. Ele pagou a conta e, logo depois, começou a subir os degraus atrás dela.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Sentindo-se a protagonista de um dos filmes que via repetidamente na televisão, percebeu que era a sua chance. Tirou a chave do bolso e correu para o carro de tio Antônio, sabendo que não poderia voltar à fazenda, mas que precisava sair dali o mais rápido possível. Estava abrindo a porta quando um homem gritou para Marcelo, que o ouviu e voltou correndo. O tal homem segurava uma arma, e Roberta hesitou por um milésimo de segundo. Achou que, mesmo que seu suposto tio estivesse completamente corroído de ódio, não mandaria que atirassem na sobrinha querida. Provavelmente só estavam querendo intimidá-la. Rezando para estar certa, abriu a porta e entrou no carro.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Marcelo e o outro homem a seguiam. Roberta não conseguia despregar os olhos do espelho retrovisor como se esperasse que, por milagre, o carro fosse desaparecer. Mas continuava lá, aproximando-se cada vez mais. Com o pé direito testando o quão baixo o acelerador conseguia ir, Roberta alternava todas as orações que conhecia com a tentativa desesperada de descobrir o que faria. Tomara o caminho da fazenda por impulso, e agora se dava conta que havia sido uma estupidez sem tamanho. Estava completamente sozinha. Não podia pedir a ajuda do tio, que mandara aqueles brutamontes atrás dela. Não podia pedir a ajuda dos amigos, pois estavam todos na fazenda. Não podia pedir a ajuda do padre, que ficara para trás. E aquela não era uma ótima hora para a magia do diário terminar? Era Joana que eles perseguiam, e não Roberta. Será que teria de morrer no lugar da outra?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Aproximava-se da ribanceira por onde havia passado na noite anterior, com Marcelo ainda atrás dela e cada vez mais perto. Logo estaria passando em frente à fazenda do tio, direto para a boca do lobo. Mas não havia escolha, saindo-se da cidade só havia aquela estrada, a mesma estrada onde a própria Roberta encontrara um homem morto, e outro vivo por puro acidente.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Tentou afastar aquele pensamento da cabeça antes que sentisse um pânico tão grande que a paralisasse e impedisse de sair daquela confusão, mas a verdade é que um cansaço enorme começava a dominá-la, uma vontade de simplesmente desistir ou talvez explicar o impossível, que sim, tinha a cara da Joana, sim, dissera se chamar Joana, mas na realidade era Roberta e estivera todo aquele tempo presa em um diário, vivendo outra vida e ouvindo a voz de Marcos em seus sonhos. E agora será que dava pra ligar para a minha família e pedir pra alguém vir me buscar? Eu sou maluca assim mesmo, perdi o juízo porque assisto à televisão demais, e não vou publicar o que descobri aqui, eu juro, eu nem tenho um emprego!&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Riu da sua idéia descabida, e a risada soou histérica. Não havia nada que pudesse fazer, e percebeu isso quando se aproximou do portão da fazenda e viu que outro carro saía para fechá-la, desta vez uma caminhonete branca com dois caras mal encarados. Foi puro reflexo. Pisou no freio com toda força. Roberta viu o carro rodar durante alguns segundos que pareceram horas, percebeu que dava cambalhotas pela ribanceira que estivera a seu lado, e depois ficou tudo abençoadamente escuro.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2340667380035569147-6834928707624592561?l=memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/feeds/6834928707624592561/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2340667380035569147&amp;postID=6834928707624592561' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/6834928707624592561'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/6834928707624592561'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/2008/09/captulo-20-fim-de-uma-histria.html' title='Capítulo 20 - FIM DE UMA HISTÓRIA...'/><author><name>Nome: Malu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16298942119359110223</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2340667380035569147.post-5847167091876617802</id><published>2008-09-25T22:47:00.003-03:00</published><updated>2008-09-25T23:07:35.831-03:00</updated><title type='text'>Capítulo 19 - ROBERTA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Eram mais de dez horas da noite quando voltaram para casa, e foram quase os últimos a partir. Primeiro, precisaram arrancar Rosana dos braços de Renato. Depois, tiveram de arrancar Alice dos braços de Cláudio e carregá-la até o carro. Havia um certo ressentimento velado em relação à última, que praticamente tomara banho de sol e andara de bicicleta durante todos os dias que ficaram na fazenda, e que agora dava o maior vexame, agradecendo dona Mercedes pela festa “liiiiiiinda” e pela comida “de-li-ci-o-sa”, e concluindo com “eu amo todos vocês”. Alice protestou muito, mas acabou entregando as chaves de Pedro a Marcos quando todos se recusaram a entrar no carro com ela como motorista. A estrada podia ser praticamente deserta, mas margeava uma ribanceira onde ninguém pretendia terminar a noite. Por fim, após alguma discussão, conseguiram chegar ao estacionamento da fazenda de tio Antônio. O carro deste já estava lá e, a julgar pelas luzes apagadas da casa, os tios já havia chegado há muito tempo.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu vou arrumar a cama da Alice – ofereceu-se Joana, saindo do carro. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Foi para o quarto cantarolando, muito bem humorada, e pensando que era uma injustiça com a amiga ressentir-se por sua falta de empenho, já que Alice visivelmente passava por um mau momento, como ela mesma já havia passado, e a amiga de infância fora muito compreensiva. Agora, o mínimo que podia fazer era ter paciência, principalmente porque escondia um segredo dela, e dos mais cabeludos, por isso quem era a Joana para julgar alguém? Portanto tirou a colcha de crochê, colocou o travesseiro e até estendeu o edredom sobre a cama, tomada por uma súbita onda de amor por Alice. Entretanto, ao voltar para a sala, encontrou Renato sentado no sofá com uma cara bastante constrangida.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-O que aconteceu?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu achei melhor sair – ele respondeu, e Joana imediatamente sentiu um bolo enorme no estômago. Preferindo ouvir a notícia completa a tirar conclusões precipitadas, perguntou:&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Como assim?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu acho que a Alice preferia conversar com o Marcos a sós.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Mal terminou a frase, e Alice passou para o quarto com bastante destreza para alguém que havia bebido tanto. Pouco depois entrou Marcos, com uma expressão completamente confusa e que combinava muito bem com a ruga de interrogação no rosto de Joana. Renato só precisou de alguns segundos para entender, se não a história completa, pelo menos que havia alguma coisa errada e que ele estava de fora. Por isso, saiu de fininho para o seu quarto.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Ela tentou me beijar – Marcos esclareceu, antes que Joana perguntasse. – E eu contei a verdade.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Ai, meu Deus – Ela levou as mãos à boca, sentindo o rosto queimar. Novamente queria poder rebobinar a sua vida para o momento em que tivera a idéia infeliz de arrumar a cama de Alice.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Jô, foi da maneira errada, mas isso tinha de acontecer, você não acha?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Não, não achava. Não havia motivo algum em todo o universo para que aquilo tivesse acontecido. Quantas vezes Alice tentara beijar alguém em seus vinte e oito anos de vida? Nenhuma. Por que aquela precisava ter sido justamente a primeira vez?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu vou conversar com ela.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Joana foi para o quarto como se estivesse caminhando pelo corredor da morte. Tentava pensar em alguma justificava que não existia, pois ela havia sido uma péssima amiga e merecia tudo o que Alice tivesse para dizer a ela. Então, qual seria a melhor maneira de agir, se é que existia alguma? Confessar a culpa e implorar perdão? Ouvir tudo calada e aceitar o fim da amizade?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Joana deixou que ela explodisse, e foi uma explosão feia. Alice tremia de tanto ódio e humilhação. Perguntou por que Joana não havia sido honesta quando Alice lhe contou como se sentia, como ela podia ter sido tão dissimulada, como ela podia tê-la manipulado daquela forma. Não que manipulação fosse um conceito desconhecido para Joana, mas usar a sua suposta melhor amiga mostrava que ela não tinha caráter absolutamente nenhum.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Alice poderia ter dado uma bofetada em Joana, e o efeito teria sido o mesmo. Com todos os erros que havia cometido, com toda a culpa que se infligia, nunca pensara em si mesma como uma pessoa sem caráter. O que a consolara durante o último ano e a impedira de sucumbir completamente à depressão fora a certeza de ser uma pessoa boa. E agora, por mais ferida que Alice estivesse, não via como poderia ser acusada de ser manipuladora e má.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Manipuladora, sim. Você sempre arrumou um jeito de o grupo fazer exatamente o que você quer. As idéias são sempre suas, tudo gira ao seu redor, você fez o Renato seduzir aquela garota só para conseguir aquela merda de reportagem...&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Joana tentava interromper. Muitas idéias eram suas, era verdade, mas os trabalhos eram decididos pelo grupo, e não por ela. Nada girava ao seu redor, mas as pessoas gostavam dela, e daí, eram seus amigos, e não era isso que amigos faziam, gostar da gente? Ela não havia mandado Renato seduzir ninguém, ele conhecera Rosana antes mesmo de ela saber se tratar da filha do dono da Santa Maria, mas havia incentivado o romance, sim. Eles precisavam entrar lá, e aquilo não se chamava manipulação, se chamava trabalho, e às vezes eles precisavam fazer coisas desagradáveis mesmo por uma reportagem. Além disso, Rosana não estava apaixonada, aquilo era só um romancezinho de férias que logo passaria. Ou, ao menos, era o que Joana desejava, pois, agora que pensava no assunto, havia sido manipuladora, sim.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Tudo isso Joana pensou, mas não conseguiu dizer nada, pois Alice enumerava todos os pecados mortais que cometera desde que haviam se conhecido. Com horror crescente, Joana se perguntava como Alice pudera ser sua amiga enquanto alimentava tanta amargura, e ao mesmo tempo tentava imaginar se seria mesmo uma pessoa tão egocêntrica. Alice transformava todas as suas qualidades em defeitos hediondos, sua simpatia virara mania de chamar a atenção, sua inteligência virara megalomania, sua preocupação com problemas sociais virara uma forma de desviar a atenção dos outros para a sua pouca beleza. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Mas me usar, mentir para mim enquanto estava na minha casa, eu te consolando achando que o problema era os seus pais, quando você tinha feito um aborto do filho do homem por quem eu tinha acabado de te dizer que estava apaixonada... Isso foi demais. Nunca pensei que a sua falta de consideração fosse se virar contra mim, que sempre fui sua amiga.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Joana se sentou na cama, entendendo completamente a dimensão que Alice dava à sua traição. Talvez ela tivesse razão. Talvez fosse realmente uma pessoa muito má e extremamente egoísta.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Mas eu não sabia que amava o Marcos. Eu estava confusa...- Conseguiu murmurar.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-E depois que a confusão passou? O que te impediu de me contar?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;O quê? Amizade? Difícil convencer a si mesma disso, muito menos a Alice. Fora tão amiga que preferiu fazê-la passar por idiota agarrando Marcos no carro? Medo? Covardia? Estivera sendo tudo o que mais abominava ser, medrosa e covarde?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;De repente, Alice também se sentou. Fora um balão inchado que descarregara todo o seu conteúdo em cima de Joana, mas agora esvaziara e parecia não ter mais o que dizer. Joana também não sabia o que falar. Era tarde demais para implorar perdão, como havia planejado. Não adiantava achar uma justificativa, pois não havia nada que pudesse dizer em sua defesa. Finalmente, após o que pareceu ser horas de um silêncio esmagador e intolerável, Alice concluiu:&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Nós vamos voltar para casa, terminar essa maldita matéria e eu vou me desligar do grupo. Você pode explicar para todo mundo o porquê de eu não ir à festa da Dani. Ou então, como você tem um certo problema para falar a verdade, pode pedir para eles lerem isso. Todo mundo vai entender.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Dizendo isso, abriu o armário e jogou um caderno em cima de Joana. Esta levou algum tempo para entender o que a atingira. Pegou o caderno espiral, com os adolescentes felizes na capa, e, com dedos dormentes, abriu-o na primeira página. Estava em branco.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Agora, se eu ainda posso pedir um favor, saia daqui e só volte quando eu estiver dormindo.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Foi para a sala em estado de choque, segurado o caderno com força contra o peito, como se tivesse medo que ele se soltasse e arruinasse mais alguma coisa além da sua vida, que se esfarelava inexoravelmente. Marcos, que estivera sentado no sofá, levantou-se assim que a viu.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Foi ruim, não foi? – Perguntou.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Foi horrível – respondeu, com uma voz que parecia vir de muito longe, de outra vida.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu posso fazer alguma coisa?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Olhou para ele piscando, como se estivesse acordando. Forçou um sorriso, que saiu bastante fraco, e respondeu:&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não. É melhor você ir dormir. Eu vou esperar um pouco, porque acho que não posso encarar a Alice agora.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Tudo bem. – Marcos a beijou. –Então, boa noite. E não fique muito preocupada com a Alice. Ela bebeu demais, metade das coisas que ela disse deve ter sido por causa disso. Amanhã vai ser melhor.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Vai – concordou. E achou melhor acrescentar: - E obrigada. Eu te amo.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Marcos sorriu, um sorriso lindo e infantil que iluminava todo o seu rosto. Beijou-a uma última vez e foi para o seu quarto.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;O caderno estava inteiramente em branco, com exceção da última página:&lt;p&gt;&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;                                               &lt;em&gt;8 de setembro de 19-&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/em&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;E agora?!&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;A força de uma frase tão simples foi a gota d’água, e Roberta começou a chorar. Chorou porque não era Joana. Porque era Roberta, entediada, sem amigos, com uma vida vazia preenchida por filmes da TV por assinatura. Era Roberta, estava vivendo uma alucinação e, mais cedo ou mais tarde tudo desapareceria. A reportagem à qual havia se dedicado tanto não existia, não mudaria a vida de alguém e não veria um sorriso luminoso no rosto de um homem incrível ao lhe dizer que o amava. Não seria chamada de egoísta, pois não possuía absolutamente nada para dividir, só solidão, mas essa ninguém queria. Não chegaria na festa de Dani de mãos dadas com Marcos, vendo o ar espantando de seus amigos e explicando uma história que Joana tentara tanto esconder. Não veria seu nome em uma matéria publicada, não realizaria nada, não desapontaria tio Antônio, não se remoeria mais de culpa pelo aborto, não imploraria a atenção dos pais, mas também não seria feliz. Talvez. Continuava no corpo de Joana, mas e a alma? O que precisava fazer para ter sua alma de volta?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;E agora?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Os primeiros raios do dia que nascia entraram na sala, e Roberta finalmente parou de chorar, não por falta de tristeza, mas por falta de lágrimas. Uma parte dela acreditava que aquela sala não existia, que naquele momento ela deveria estar sentada no chão de um quarto acolchoado, vestindo uma camisa de força, balançando o tronco para frente e para trás. A outra parte dizia que devia haver um sentido, um motivo para ela estar ali, uma razão para estar sofrendo daquele jeito. Por que havia sido jogada involuntariamente naquela história sem nenhuma missão a cumprir, sem nenhuma recompensa, sem nada a levar para a sua outra vida? E, por falar em outra vida, será que conseguiria encará-la? Será que faria novos amigos? Será que conseguiria viajar e conhecer lugares novos e pessoas novas? Também havia estudado jornalismo, poderia ser como Joana. Mas não era uma vida parecida que queria. Queria o bom humor de Renato, a luta de padre Moacir, a história maravilhosa que estava ajudando a escrever e, acima de tudo, queria o amor de Marcos. O diário havia chegado ao fim, a viagem terminava e a mágica que a havia transportado até ali também teria de acabar. E depois? E agora? Depois não existia, só lhe restavam “roupas de fazer faxina”, “roupas de ir ao supermercado” e “roupas de assistir à televisão”, era encarar uma agenda cheia de telefones para os quais nunca ligaria, era estar sozinha.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;E agora?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Agora precisava desesperadamente falar com alguém. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Acordou com as galinhas?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Roberta não havia percebido que passara a noite inteira sentada no sofá, que o dia havia amanhecido e a vida voltava à casa. Deu um pulo ao ouvir a voz de tio Antônio, que já estava vestido e se dirigindo à cozinha para tomar o café da manhã. Só então percebeu o barulho de alguém cozinhando, o cheiro de café fresco, o canto dos passarinhos e a luminosidade da sala.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Tio, o senhor pode me emprestar o carro? Eu queria ir até a igreja.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Pegando a mania da sua tia? – Tio Antônio perguntou, bem humorado. Tirou um chaveiro do gancho que ficava próximo à porta e o estendeu à sobrinha.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2340667380035569147-5847167091876617802?l=memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/feeds/5847167091876617802/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2340667380035569147&amp;postID=5847167091876617802' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/5847167091876617802'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/5847167091876617802'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/2008/09/captulo-19-roberta.html' title='Capítulo 19 - ROBERTA'/><author><name>Nome: Malu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16298942119359110223</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2340667380035569147.post-57323705643240489</id><published>2008-09-23T22:32:00.003-03:00</published><updated>2008-09-23T22:58:58.181-03:00</updated><title type='text'>Capítulo 18 - SANTA MARIA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Joana acordou com duas certezas. A primeira era que A Voz em seus sonhos era de Marcos, e se achava uma estúpida sem salvação por não tê-lo percebido antes. Provavelmente estava se sentindo tão culpada com o seu romance secreto que sonhava que ele estava falando com ela, e tudo passaria uma vez que a história fosse posta às claras. Oba, não estava ouvindo vozes! Não seria colocada em uma coleira! &lt;p&gt;&lt;br /&gt;A segunda certeza era que talvez pudesse reverter a tragédia que estava para acontecer se falasse com Alice. Afinal, tudo que vinha passando ultimamente parecia estar ligado a um único sentimento: culpa. Se fosse uma pessoa exemplar, corrigiria todos os males da sua vida e poderia, finalmente, ser tão feliz quanto havia sido um dia. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Joana abriu os olhos e percebeu que seu estômago fazia cócegas. Segundo o relógio ao lado da cama, ainda faltavam horas para o churrasco, e ela não fazia idéia de como matá-las. Não via o momento de pisar na Santa Maria. Também pensou que, culpada ou não, ainda precisava resolver a questão da amnésia. Por que não conseguia se lembrar das festas da Dani? Por que não se lembrava de nada da Dani, além dos dias que passaram juntas no norte e da reunião na qual decidiram ir à fazenda? Como se esquecera que agora Marcos morava sozinho? E, já que o assunto era moradias, não se lembrava nem mesmo do apartamento que ele dividira com a irmã, onde, certamente, já estivera várias vezes. Estivera lá, certo? Claro, claro que sim, embora não conseguisse apontar uma única ocasião em que isso acontecera. Concentrou-se para tentar se visualizar ajudando Marcos com a mudança. Pensou em um apartamento vazio, em caixas de papelão no chão, em cheiro de tinta fresca e em buscas infrutíferas pelas caixas, tentando localizar coisas como um pano de prato ou um abridor de latas. Nada. E aquele som estranho no quarto definitivamente não estava ajudando. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;O “som estranho” era Alice, que cantarolava alegremente enquanto se arrumava. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Que bom humor! – Joana comentou, sentando-se na cama. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-É claro, nós finalmente vamos entrar na Santa Maria, esqueceu? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Não, pelo menos disso ela se lembrava. Alice continuou, revirando suas roupas: &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu conversei com a dona Rosa sobre que tipo de presente a gente poderia levar. É difícil, você sabe, já que a Rosana provavelmente tem absolutamente tudo. E o comércio na cidade é bem limitado, principalmente para uma garota riquinha e mimada que mora na capital. Então a sua tia disse que vai fazer um buquê com as flores aqui do jardim. Vai ser muito delicado, você não acha? O seu Antônio pode ter algumas contas para ajustar com a justiça, mas a dona Rosa é um amor. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Ela é maravilhosa – Joana respondeu, distante, enquanto seguia Alice pelo quarto. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Aliás, os seus tios também vão. O seu Antônio perguntou se queríamos ir todos no mesmo carro, mas vamos ter mais liberdade se formos no Pedro. Ele entendeu, e disse que provavelmente Renato não vai querer ir embora tão cedo, para aproveitar o tempo com a namorada antes de voltar para casa. Alice riu, como se estivesse falando de uma criança levada. – Coitado do Renato, ele nunca imaginou que pagaria tão caro quando conheceu a Rosana naquela festa. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-“Coitado do Renato”? – Perguntou Joana, subitamente sendo tomada por uma sensação de irrealidade. – Você está passando bem? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Ah, Jô, eu fui muito boba. O Renato é meio marrento, mas coitado, é um cara legal. Acho que eu só estava meio, vá lá, com inveja porque tudo é tão fácil para ele. E andei meio mal humorada também, já que estava muito frustrada com a história do Marcos. Mas foi bobeira minha. O Marcos é um cara maravilhoso, mas se não rolou, azar. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Nossa. Será que Joana havia acordado mesmo? Bom, nem em seus sonhos mais loucos imaginara uma oportunidade como aquela para conversar com Alice. Parecia que o mundo era um lugar perfeito, e ela conseguiria ficar com o namorado e com a amiga, sem magoar ninguém. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-A gente pode conversar? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Agora? – Alice perguntou, parando no meio de sua busca por uma blusa. – É coisa séria? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu acho que é. – Era definitivamente sério até o dia anterior, mas agora ela não tinha tanta certeza. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Então podemos deixar para depois do churrasco? E, pelo amor de Deus, vá escovar esses dentes! &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Joana, envergonhada, cobriu a boca e tomou o caminho do banheiro, enquanto Alice perguntava atrás dela: &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Jô, posso usar aquela sua blusa azul? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não sei nem se a trouxe – respondeu, ainda bloqueando seu mau hálito com a mão. – Dê uma olhada na minha mala. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;“Tomara que escorregue, bata a cabeça na pia e morra”, Alice resmungou, assim que Joana fechou a porta. Após cozinhar a raiva durante tanto tempo, nem sabia mais por que sentia todos os órgãos em combustão quando olhava para a antiga amiga. Não sabia se era mesmo o Marcos, ou aquela mania irritante de Joana de delegar tarefas, ou o fato de ter ficado longe tanto tempo e agora voltar, se sentindo a frente de tudo. Como entender o motivo não parecia lhe oferecer consolo algum, resolveu tirar temporariamente o assunto da cabeça, pegar a blusa azul, e escapar logo daquele quarto. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;A bolsa de viagem estava jogada em um canto, praticamente vazia. Ainda resmungando como uma velha, Alice abriu o fecho, e a primeira coisa que viu foi o que estava procurando. Puxou a blusa distraída, e não teria reparado no objeto que veio com ela se não escutasse o barulho do caderno caindo no chão. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Não deixava de ser curioso aquele caderno de espiral no fundo da bagagem esquecida. Sabia tudo sobre os transes de escritora de Joana e sobre o quanto escrevia à noite, depois que todos iam dormir, mas ele usava um bloco barato, não um caderno de colégio. Curiosa, virou a primeira página. &lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;23 de agosto de 19- &lt;p&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Teve um segundo de imobilidade, tentando decidir o que fazer. Quem tomou a decisão foi Joana, ligando o chuveiro do banheiro, e mostrando para Alice que ela teria tempo suficiente de folhear o diário. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Quando saiu do banheiro vinte minutos depois, com sua auto-estima e confiança restaurados e hálito refrescante de eucalipto, Joana encontrou Alice vestindo sua blusa azul e se penteando, os olhos cheios d’água. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-O que aconteceu? – Perguntou, imaginando várias desgraças. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Nada – Alice deu um sorriso de “como eu sou boba” – Só estou feliz porque vamos entrar na Santa Maria. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Nem em seus dias mais felizes ou sentimentais ela havia se comportado daquela forma, mas, após tanto mau humor, não deixava de ser uma mudança muito bem vinda. Joana resolveu deixar para lá e, após dizer que Alice havia ficado muito bonita na sua blusa, foi tomar o café da manhã. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Ao cruzar a porta do quarto, porém, teve uma experiência inédita e assustadora. Foi como se estivesse pisando em espuma, sem que o chão pudesse oferecer qualquer resistência, muito menos sustentar o seu corpo. Por alguns segundos intermináveis, foi como se sua alma fosse deixá-la, como se o mundo tivesse virado um borrão, como se a sala da fazenda, ou a fazenda inteira, fosse desaparecer. Sentiu um arrepio pelo corpo inteiro e, por uma fração de segundo, podia jurar ter visto um sofá bege, sobre o qual jazia, abandonado, uma guia de televisão. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Jô? Tudo bem? – Renato perguntou, atrás dela. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Joana se virou rapidamente, ainda com dificuldade para localizar onde estava. Nem mesmo a expressão preocupada de Renato fazia qualquer sentido pra ela. Aos poucos, tomou consciência que estava se apoiando na parede e que seu coração galopava. Tentou sorrir, e disse que havia ficado zonza de repente. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Se você não estiver passando bem, é melhor ficar – disse ele, solícito. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Nunca – Joana recobrou imediatamente a compostura. – E perder o churrasco? Nem que eu estivesse morrendo! &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Porém, enquanto acompanhava Renato até a mesa da sala, parecia estar andando sobre pernas de borracha. &lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;----- &lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Foram recepcionados por uma lista de convidados na entrada da fazenda. “Dá para acreditar nisso?”, Alice comentou, enquanto dirigia por um caminho asfaltado até a majestosa casa que se erguia à frete deles. Era azul clara, com uma varanda cercada por grades de ferro trabalhado, atrás das quais empregados numerosos e atarefados como abelhas operárias serviam os convidados. Estes estavam sentados em frente a mesas cobertas por toalhas brancas, e no centro de cada uma havia um vaso de violetas. Ao lado da casa, a varanda se abria para um pátio onde havia uma enorme churrasqueira de tijolos, ao redor da qual mais dois empregados se revezavam, desta vez usando roupas brancas como se fossem chefs de um restaurante grã-fino. Havia mais mesas ao ar livre, mas em lugar de violetas, tinham guarda-sóis amarelos para proteger os convidados do calor. E, também no pátio, um conjunto tocava musicas tradicionais, que soavam um tanto melancólicas para um churrasco, mas que, de toda forma, os presentes não pareciam ouvir. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Já havia bastante gente. Alice estacionou o carro perto de um caminho de terra que Renato lhe indicou, e se dirigiram à casa. Sentada a uma mesa e cercada de pessoas de idade que se derramavam em atenções, Rosana se levantou imediatamente ao ver os recém-chegados. Agradeceu as flores, mas parecia ainda mais contente por ver pessoas que não eram idosas nem de sua família. Apresentou o pai, Ernesto, um homem moreno e atlético que começava a ficar grisalho, e seu irmão, Cláudio, muito alto e com o corpo esculpido em academias de ginástica. O primeiro foi muito simpático, e insistiu que provassem uma aguardente, típica da região, que um garçom oferecia naquele momento. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não, obrigado – responderam Marcos, Joana e Renato, explicando que era melhor não beber de estômago vazio. Alice respondeu “aceito” com um sorriso derretido, como se estivesse aceitando um marido em lugar de uma bebida. Dona Mercedes lhes mostrou uma longa mesa com vários tipos de frios, saladas e acompanhamentos. E, terminadas as formalidades, os quatro foram se sentar a uma das mesas do pátio. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-E então? Quando vamos começar? – Renato perguntou, esfregando as mãos. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Assim que deixarmos de ser os recém-chegados e pararem de prestar atenção na gente – disse Alice, depois de dar um grande gole na sua bebida. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-E assim que você conseguir despistar a sua namorada – disse Joana, fazendo um sinal com a cabeça na direção de Rosana, que se aproximava. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;E lá vinha ela, com um amplo sorriso, balançando um copo de suco em uma das mãos e, com a outra, fazendo sombra sobre os olhos, como se estivesse um sol de deserto. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Vocês não preferem ficar na varanda? Está um calor horrível aqui. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Nós queremos ficar perto da música – Joana respondeu. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Rosana olhou para os músicos como se os estivesse vendo pela primeira vez e, a julgar pelo seu olhar, eles poderiam ter sido escolhidos por qualquer um, menos por ela. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-E o seu irmão? Acabou de chegar? Ele não estava na festa da igreja – Alice perguntou, terminando com seu copo em outra golada. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-É, ele chegou ontem. Ele também faz faculdade na capital, e só vem quando não tem outro jeito – e, fechando a explicação, deu um sorriso açucarado para Renato. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-E ele faz faculdade de quê? – Renato perguntou, tentando fazer Rosana falar o máximo possível, para conseguir uma folga no seu trabalho de príncipe encantado. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Sabe que eu não sei? – E, para lhe fazer justiça, ela parecia realmente estar se esforçando para se lembrar. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;À medida que a tarde corria, Alice resolveu descobrir por conta própria o que Cláudio fazia. Podia ser vista bebendo alegremente e envolvida em uma conversa muito animada, sentada com o irmão da aniversariante a uma das mesas do pátio. Um pouco longe deles, Renato obviamente tentava afastar Rosana, sem surtir efeito algum. Joana mal podia conter a impaciência. Marcos, temendo que ela simplesmente explodisse em chamas no meio do churrasco, acariciava a sua mão por baixo da mesa. Sua técnica estava sendo tão bem sucedida quanto a de Renato. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Finalmente tiveram uma trégua, quando o avô de Rosana ficou bêbado o suficiente para puxar-lhe da mesa e começar a lhe fazer vários elogios constrangedores. Mal ela se afastou alguns passos, Joana murmurou, entre dentes: &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-A gente não veio aqui para comer; &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-E eu preciso aproveitar enquanto ainda está claro – Marcos complementou. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Então vamos logo – propôs Renato, louco para se ver livre de Rosana. Infelizmente, Joana lembrou que ela poderia voltar a qualquer instante, e era a única pessoa ali que daria pela falta deles se sumissem por uma meia hora. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Tudo bem, eu vou pedir para a Alice conversar com ela – Joana falou, determinada. Justamente naquele momento, Alice passava por eles, com um copo vazio na mão e pronta para se servir de mais uma dose de bebida. Joana ainda tentou: - Alice, eu preciso que você... – Mas ela respondeu, dispensando-a com um gesto com a mão livre: &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Depois, depois... – e continuou seu caminho, alegremente, flertando abertamente com todos os garçons. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-O que deu nela? – Irritou-se Joana. Tudo bem que isso é um milhão de vezes melhor que aquele astral horroroso, mas ela não podia ser um pouquinho profissional? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Na verdade, o que a deixava tão furiosa era prever o papel que lhe caberia. Marcos transformou seu medo em palavras: &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Você vai ter de distrair a Rosana. E é melhor ficar de olho na Alice também, tá? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Tá – resmungou, contrariada, ainda sem acreditar que o momento pelo qual esperara tanto havia sido arruinado. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-É o seguinte. Você desce do carro antes e fica escondido, e eu vou fingir ter um problema qualquer para distrair o cara que fica vigiando – Renato se virou para Marcos. – Tire as fotos, tente conseguir pelo menos uma pessoa que confirme a história do Ronaldo, mas não se arrisque muito e seja rápido. Acho que consigo tirar o cara de lá por uns cinco, no máximo dez minutos. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Marcos concordou, e olhou para Joana, que mal conseguia disfarçar a frustração. Para tentar fazê-la se sentir um pouco melhor, Renato assegurou que sem ela não teriam chegado tão longe, e marcos beijou-lhe a testa antes de se levantar. Joana não se sentiu nem um pouco reconfortada, enquanto via os dois se afastarem cada vez mais. &lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;----- &lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Joana já sabia que Rosana estava no segundo ano de direito, que dividia o apartamento com uma garota “super legal”, que elas davam festas “ma-ra-vi-lho-sas”, e havia até sido convidada para uma visita quando voltassem para a capital. Já havia visto as fotos da última festa de aniversário de Rosana, que esta buscara apressadamente dentro de casa. Sabia que a menina odiava a fazenda, tinha horror a mosquitos e morria de tédio. Que até seria maneiro se pudesse ir para lá só com os amigos, mas a avó também morava ali e não saía de casa há exatos onze anos. Que sempre estudara na capital, que tinha um tio deputado que supostamente tomava conta dela, mas ela entrara em acordo com a mulher do tio, e por isso podia fazer o que quisesse sem que chegasse aos ouvidos do pai. Que estudara inglês e fizera intercâmbio de um ano nos Estados Unidos. Que adorava viajar e colecionava bichinhos de pelúcia da Disney. Que era viciada em chocolate e sabia passar batom sem se olhar no espelho e sem borrar. Que odiava morcegos, guerras e pessoas que estalavam os nós dos dedos. Que amava cachorros, paz, e homens que tocavam guitarra. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Deu branco. Joana não conseguia nem acompanhar o que Rosana dizia, muito menos inventar novas perguntas. Não que fosse uma conversa muito difícil. Era só iniciar um assunto que dissesse respeito única e exclusivamente a Rosana, e esta passava a falar interminavelmente. Entretanto, já havia escurecido, Joana começava a se perguntar onde diabos estariam Marcos e Renato, a bebedeira de Alice já se tornara óbvia há algum tempo, e Rosana lançava olhares impacientes ao redor. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;De repente, em uma cena típica de contos de fadas, surgiram duas silhuetas na extremidade do pátio que, em alguns minutos, provaram se tratar de ninguém mais, ninguém menos, que Marcos e Renato. Joana quase aplaudiu. Rosana, que também os viu, levantou-se imediatamente. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Onde é que aqueles dois se meteram esse tempo todo? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Joana fez que não sabia, e provavelmente não importava, pois Renato era muito bom em inventar desculpas para mulheres desconfiadas. Só o que era capaz de sentir no momento era tanto alívio que se sentia anestesiada, com a boca seca e as pernas bambas. Rosana foi ao encontro de Renato sem que ela tomasse conhecimento, pois não conseguia tirar os olhos de Marcos, que caminhou em sua direção e sentou-se na cadeira ao lado. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-E aí? – Perguntou, ainda sentindo todo o seu corpo adormecido. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Terminamos. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Ela adorava e odiava aquela palavra. Satisfação única e saudade insuportável. Na maioria das vezes, aqueles sentimentos antagônicos se traduziam em cansaço. Sentia uma vontade irresistível de ir para a cama e compensar todas as noites mal dormidas, todos os transes de escritora. Marcos sabia disso e nunca ligava para ela nas primeiras quarenta e oito horas após as festas da Dani. Alice ignorava isso e telefonava sem parar. Mas, enquanto não voltavam para casa, enquanto Marcos não sumia durante dois dias e enquanto Alice não começava a telefonar ininterruptamente, Joana relaxou e tomou seu primeiro copo de aguardente da noite, enquanto ouvia a musica e via os casais da família de Rosana começarem a dançar. Talvez seu destino não estivesse escrito, afinal. Talvez seus pressentimentos fossem pura neurose e tudo estivesse bem, tudo fosse acabar bem. Pensando nisso, deitou a cabeça sobre o ombro de Marcos, que não fez a menor objeção e a envolveu pela cintura. Poderia ser daquela vez que escrevessem uma reportagem que mudasse o país. Talvez &lt;em&gt;aquele&lt;/em&gt; processo não fosse arquivado. Talvez &lt;em&gt;aquela &lt;/em&gt;história não fosse esquecida. Talvez pelo menos uma única vez transformassem a vida de algumas pessoas. E, quem sabe, mudasse a sua própria. Voltaria para casa e não sentiria um vazio esmagador, tinha alguém, tinha Marcos, e seria feliz. Seu tio a odiaria, mas seus pais voltariam a amá-la, não teria medo do silêncio do seu apartamento, do telefone mudo que a acusava de ser uma pessoa egoísta, uma pessoa capaz de matar uma criança, uma pessoa inteiramente fria e má. Era muito injusto, ela sabia o que era dor, sabia o que era estar completamente sozinha, sabia que talvez nunca fosse para o céu. Mas também sabia que havia pago a maioria das suas contas, tinha sofrido, tinha expiado boa parte dos seus pecados, e talvez agora, finalmente houvesse conquistado outra chance de ser feliz.&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2340667380035569147-57323705643240489?l=memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/feeds/57323705643240489/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2340667380035569147&amp;postID=57323705643240489' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/57323705643240489'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/57323705643240489'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/2008/09/captulo-18-santa-maria.html' title='Capítulo 18 - SANTA MARIA'/><author><name>Nome: Malu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16298942119359110223</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2340667380035569147.post-3226809928817454416</id><published>2008-09-22T22:09:00.002-03:00</published><updated>2008-09-22T22:31:17.265-03:00</updated><title type='text'>Capítulo 17 - TIO ANTÔNIO ESTÁ DE VOLTA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;-Missão cumprida – disse Renato, sentando-se no sofá de couro. Alice lia um livro, enquanto Marcos e Joana assistiam a um filme na televisão. Ao ouvirem aquela frase, os três imediatamente pararam o que estavam fazendo e se sentaram ao redor de Renato.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Como assim? Você entrevistou alguém? Você viu alguma coisa?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Renato sorriu e não respondeu. Se o haviam torturado com uma tarde na companhia de Rosana, então ele tinha todo o direito de maltratar os seus amigos com um pouco de suspense. Por fim, rompeu o silêncio, antes que os três o pendurassem em um pau de arara, ou algo do gênero:&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Vocês são pessoas muito, muito ruins. A dona Mercedes ficou me enchendo de comida. E a Rosana, juro, me apresentou ao pai como namorado dela.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Ele é a pessoa ruim, e não a gente – disse Joana, massageando os ombros do amigo. – E a Rosana é mimada e ingrata.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-É.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-E egocêntrica – a amiga acrescentou.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Completamente – Renato concordou.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-E o que você descobriu?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Descobri onde os lavradores dormem. E, acreditem ou não, o lugar costumava ser uma senzala, da época da escravatura. Dá para acreditar nisso? Havia dois caras mal-encarados e super armados vigiando, e a Rosana estava na minha cola, então eu não pude falar com ninguém. Mas nós podemos ir lá no dia do churrasco. Eu guardei o caminho.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Rê, você é um gênio! – Joana lhe beijou o rosto. – Estamos te devendo uma – ela repetiu.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Devendo muitas – ele corrigiu, e a amiga concordou:&lt;p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Devendo muitas.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-E você não se divertiu nem um pouquinho? – Alice perguntou desinteressadamente, voltando para o seu livro.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-É claro que eu me diverti .&lt;p&gt;&lt;br /&gt;E foi para o quarto, com Joana e Marcos atrás dele, querendo mais detalhes. Alice, decidida a ignorar qualquer coisa que não fosse relacionada ao seu estado de espírito nebuloso, afundou o nariz no romance que estava lendo.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;No quarto, Joana pediu que Marcos e Renato fossem à venda da fazenda no dia seguinte, já que estava marcada demais como “a sobrinha do patrão”. “E a Alice? Ela vai ficar uma fera se, de novo, não tiver nenhuma missão urgente para resolver”, Renato perguntou, um pouco preocupado, um pouco amargo. Joana, percebendo que Alice se transformava em mera motorista do grupo, disse que era uma boa idéia oferecer-lhe a ida à venda. Não foi. Alice respondeu que, já que havia ficado de fora de quase tudo, era melhor que fossem sem ela, mas que todos se sentissem à vontade para pegar as suas coisas, como o carro e o gravador, por exemplo.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Quando Marcos, Joana e Renato saíram para a varanda para conversar, o último estava com um sorriso muito satisfeito no rosto.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-O que foi? – Marcos perguntou.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Agora que a Alice odeia &lt;em&gt;todo &lt;/em&gt;mundo, vamos ver se ela larga do meu pé.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Cretino! – Joana lhe deu um tapinha no braço, um tapinha leve enquanto sentia um bloco de cimento de uma tonelada no estômago. E essa agora?&lt;p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;-----&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, foram até a venda, que era muito mais cara que a mercearia da cidade. Na volta, Marcos guardou o rolo de filme que terminara, escondendo-o cuidadosamente entre suas roupas. Sentia-se sempre inseguro antes de revelar as fotos, depois que tivera um rolo e uma câmera estragados no único dia e que vira a morte de perto. Havia sido há dois anos, quando testemunhou a expressão máxima de democracia em seu país: pessoas chegando para votar em caminhões, cortejadas por homens armados, que estendiam a gentileza da companhia a levá-los até a urna e ajudá-los a votar nos candidatos dos patrões. Era perigoso e muito estúpido, mas Marcos não conseguiu resistir ao impulso de registrar a cena. Terminou com um gigante arrancando a câmera de suas mãos e o convidando a acompanhá-lo. O clichê diz que, quando somos confrontados com a morte, a nossa vida passa como um filme diante dos nossos olhos. Marcos não podia dizer que assistira ao filme da sua vida, mas se lembrava de pensar que só tinha vinte e seis anos, mal tinha acabado de encontrar um trabalho que realmente gostasse, e que ficaria muito puto se morresse daquela forma. Foi Alice que o salvou. Ela viu o que estava acontecendo, começou a fazer um escândalo disparatado sobre algo que não fazia o menor sentido – nem ela, mais tarde, conseguiu se lembrar do que tinha dito - e chamou a atenção de uma multidão. O homem se assustou e foi embora... com a máquina fotográfica. Aquele equipamento havia sido presente dos pais de Marcos, mas a sua vida também não deixava de sê-lo, e ele preferia conservar a última. Entretanto, nunca se conformou com as fotos que perdeu.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Quando terminou de esconder o rolo de filme e saiu do quarto, percebeu um movimento incomum. E, antes que chegasse à sala, ouviu uma voz de tenor cumprimentando seus amigos. Era tio Antônio que chegava de viagem.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;O tio trazia notícias da capital, presentes para tia Rosa, e a cara satisfeita e bem humorada de sempre. Queria saber se os garotos estavam aproveitando os dias na fazenda, e disse que era muito bom ver que Joana finalmente havia ganhado alguma cor, e que seus amigos tinham perdido aquele ar pálido e doentio da cidade grande. Tia Rosa, muito orgulhosa, contou ao marido que os meninos haviam ajudado Teresa na festa da igreja e a representado no batizado. Tio Antônio os advertiu contra padre Moacir, que pensava demais no que não devia e de menos nos assuntos da igreja.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Como assim, tio? – Perguntou Joana, com arzinho de anjo.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;E tio Antônio respondeu que aquele rapazinho da capital que nunca tinha plantado nem criado nada na vida adorava meter o bedelho nos assuntos dos fazendeiros, coisa da qual ele não entendia e que também não era da conta dele, já que, segundo o que o tio sabia, padre tinha era de rezar missa.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;O próximo assunto foi Renato e sua nova namorada, e tio Antônio ficou feliz da vida, dizendo que Ernesto era seu grande amigo, e que seria muito bom ter Renato por perto. Renato sorriu e agradeceu, sem querer dizer que Rosana era uma pentelha dos infernos e que ele mal via a hora de se livrar dela.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-E eu soube que vocês andam muito interessados na lavoura. Estão pensando em plantar cana quando voltarem? – Perguntou o tio, com o mesmo ar bem humorado e bonachão de sempre.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Houve um silêncio quase longo, que só não foi longo de verdade porque Renato o interrompeu:&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu estou. Não em casa, claro, mas sempre quis viver em uma fazenda. Quem sabe um dia...&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Tio Antônio deu um sorriso que quase lhe rasgou o rosto, e falou que sempre gostara daquele rapaz, desde o primeiro instante. Prometeu ensinar a Renato tudo o que sabia, e que no dia seguinte sairiam e ele lhe mostraria todo o processo de cultivo da cana-de-açúcar. Tia Rosa comentou que aquela era uma notícia ótima para o sogro de Renato, pois quem sabe, dessa forma, Rosana se animaria e voltaria de vez para a fazenda. E Renato sorriu conformado mais uma vez, seu destino era o abate e tinha de se acostumar de uma vez a se sacrificar pelo grupo.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Ele está desconfiado – Alice comentou, quando estavam todos sentados na varanda, após o jantar.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não está, não – Joana respondeu. – Ele pode ter ficado, mas o &lt;em&gt;Renato&lt;/em&gt; – enfatizou a palavra – foi um gênio.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Jô, será possível que eu conheço o seu tio melhor que você? Ele está desconfiado, sim, e digo mais: vamos esquecer a Santa Maria.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Nunca! E tudo o que a gente fez, tudo o que o Renato fez, foi a troco de nada?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Essa não é a nossa prioridade.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Dane-se a nossa prioridade. Já estamos fazendo uma porra de um trabalho superficial, porque a gente precisava de no mínimo um mês aqui para lidar com pelo menos metade das coisas que eu ouvi. E não é só isso, nós demos a nossa palavra ao padre.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Você está sendo burra.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-E você está sendo covarde.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Alice olhou para os rapazes em busca de apoio, mas Renato, adormecido na rede, não a apoiaria mesmo que estivesse acordado, por uma questão de princípios. Marcos, apaziguador, disse que eles estariam mesmo na Santa Maria no dia seguinte, que não fazia sentido não tentar. Alice o encarou durante meio segundo, e um milhão de sentimentos apareceram no seu rosto. Nenhum deles era bom. Por fim, disse que ia dormir e entrou em casa.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-O que foi isso? – Joana perguntou, ainda brava. – Eu vou falar com ela.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Agora? – Marcos riu a risada reservada para a amiga quando ela estava sendo inteiramente insensata.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Não, agora não, Joana pensou e se sentou, mas não conseguiu ficar parada por muito tempo. Somando-se à frustração pela cabeça dura de Alice, havia a volta prematura para casa, o trabalho deixado pela metade, o telefonema de André dizendo que precisavam esperar a próxima vez, a sensação de deixar o padre Moacir na mão com o seu regresso antes do fim. E que fim seria aquele, quando não haviam resolvido nada, nem tinham chances de resolver? Precisava de mais uma semana, mais um mês, mais um ano. Precisava ficar. Ao mesmo tempo havia aquela eletricidade, aquela tensão crescendo e a sufocando, a sensação de destino e de desgraça iminente. O que quer que seu pressentimento estivesse tentando alertá-la, estava próximo de acontecer.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Marcos, sentando no banco, a seguia com os olhos.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Como vai ser quando a gente voltar? – Ele perguntou, finalmente.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Joana, absorta demais em seus próprios pensamentos, levou um certo tempo até descobrir do que ele estava falando.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Você está dizendo isso por causa do norte?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não. Por causa da Alice.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Joana parou de andar, e olhou para Marcos como se não fizesse idéia do que ele estava falando.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-A gente vai chegar, e vai ter aquele lance da minha irmã. Eu não quero ficar na mesma sala que você fingindo que somos só amigos. O que te deixa pouco tempo para conversar com ela.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Joana se concentrou, tanto que chegou até a sentir um pouco de dor de cabeça, mas não conseguia se lembrar qual seria o lance da irmã do Marcos. Sorriu, insegura:&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não se preocupe com isso. Mas me conte sobre o “lance”.&lt;p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Você não se lembra? Não faz tanto tempo assim que você deixou o grupo. – ele comentou, incrédulo.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-É claro que eu me lembro. Mas gosto de ouvir a sua voz.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Estendeu a mão para que Marcos a pegasse e se levantasse, e começaram a caminhar pelo pátio. Marcos falou sobre a reunião que Dani fazia questão de organizar quando voltavam de viagem, quando sua irmã passava horas cozinhando receitas étnicas, tentando comunicar aos seus amigos as experiências mágicas pelas quais passara através da culinária, mas que invariavelmente terminavam com todos comprando porções de salgadinhos no bar da esquina. Joana sorria e pensava como poderia esquecer disso, era algo recente e que deveria estar fresco em sua mente, mas agora era se comportava como uma pessoa muito idosa, sorrindo e concordando para que não fosse colocada em um asilo. Não se lembrava, não fazia a menor idéia do que ele estava dizendo. Marcos lhe falou sobre os CDs, a enorme coleção de CDs que André levava para tais ocasiões, começando pelos maiores sucessos de décadas atrás, até que alguém lhe implorasse para que trocasse o repertório, depois vinham os maiores sucessos dançantes, mas ninguém dançava, afinal era uma reunião para um dúzia de pessoas, no máximo, e não uma boate. Finalmente ele colocava música popular, e era um alivio, pois ninguém se sentia obrigado a ir para o meio da sala e dançar como se estivesse na melhor discoteca da cidade. A única diferença esse ano é que eles estariam juntos, e Dani sabia que isso poderia acontecer, e André provavelmente desconfiava, então quando é que ela conversaria com Alice a respeito?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Ssshhh – fez Joana, apontando para a rede onde Renato dormia. Entretanto, ela sabia que Renato não acordaria, não sabia explicar o porquê, mas &lt;em&gt;sabia&lt;/em&gt;. Estava ficando zonza com todos aqueles mistérios, e abraçou Marcos, afundando o rosto no seu casaco.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu vou contar. Já tentei milhares de vezes, mas não consegui. Teria contado agora, e foi você que não deixou. – Havia tentado algumas vezes, mas “milhares”? E quem a havia impedido, havia sido mesmo Marcos? Ele mesmo dissera uma vez que ninguém mandava nela. – E prometo que conto antes da festa na sua casa.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Na casa da Dani. – E, ao ver o olhar confuso de Joana, explicou: - Eu não moro mais com a Dani. Jô, você me ajudou com a mudança!&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-É claro – Joana tentou sorrir. – falei “sua casa” por hábito.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Realmente passara por maus bocados no último ano, e ouvira falar que experiências traumáticas podiam provocar lapsos de memória, mas aquilo já era ridículo! Um pensamento lhe ocorreu: poderia estar pagando por não ter sido uma amiga melhor. Talvez Alice não tivesse Marcos, mas, por outro lado, ela nunca poderia ser feliz, pois ficaria louca e, ao invés de ficar com ele, seria trancada em um manicômio ou amarrada a um poste. Depois decidiu que procuraria um psiquiatra, mas por enquanto não havia nada que pudesse fazer, era melhor acreditar que sua confusão era uma besteira e, se repetisse vezes suficientes, acreditaria realmente nisso. Deixando de lado as crises de amnésia e a tristeza com o trabalho inacabado, havia um lado bom em voltar. Retomaria a sua vida, voltaria a se dedicar ao seu emprego, contaria à Alice a verdade, poderia namorar em público. Talvez até tivesse sua segunda chance e pudesse voltar à fazenda.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2340667380035569147-3226809928817454416?l=memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/feeds/3226809928817454416/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2340667380035569147&amp;postID=3226809928817454416' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/3226809928817454416'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/3226809928817454416'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/2008/09/captulo-17-tio-antnio-est-de-volta.html' title='Capítulo 17 - TIO ANTÔNIO ESTÁ DE VOLTA'/><author><name>Nome: Malu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16298942119359110223</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2340667380035569147.post-8724060556726403473</id><published>2008-09-21T21:23:00.002-03:00</published><updated>2008-09-21T21:42:46.409-03:00</updated><title type='text'>Capítulo 16 - MOISÉS</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Alice, por um algum motivo desconhecido pelo grupo, participava menos das atividades, e Joana, à sua volta, se sentia pisando em um campo minado. Achava que, a qualquer hora, diria a palavra errada e Alice explodiria. Lembrou-se com alguma nostalgia da amizade que as duas haviam dividido uma vida inteira, e sentiu que revirava o vazio, que não sobrava mais nada. Tentou sentir-se triste por achar que deveria, mas, por alguma razão, não conseguiu. Só se lembrava que as duas competiam como tigres por algo, por uma reportagem, pelo amor de Marcos, ou por alguma outra razão que ela não conseguia perceber. Em algum ponto da sua vida tivera o momento do fim da amizade claro, talvez no dia do caramanchão, talvez quando Alice se aproveitou da sua fragilidade para se sentir líder, se é que jamais tiveram algum chefe, mas agora tudo estava muito confuso na sua cabeça. Eram as vozes noturnas, só podia ser isso. Não só as vozes, mas A Voz, que a chamava, que lhe pedia para se lembrar, que pedia desculpas por ter voltado a trabalhar, que pedia que ela voltasse, que dizia “não me deixe, eu te amo”.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Vozes à parte, ainda precisava visitar o filho da dona Vicentina, e tinha de arrumar um gravador.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu não entendo o porquê de você não ter trazido o seu – Alice falou, cortante.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Joana também não sabia como o havia esquecido em casa, mas sua cabeça não andava funcionando muito bem ultimamente.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Alice, você não vai precisar dele, vai? – Joana fez um enorme esforço para manter a paciência.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não – ela respondeu, de má-vontade, entregando-lhe o aparelho.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Aliás, o que você vai fazer hoje?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Já que não me sobrou muita coisa, acho que vou à piscina.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Você pode ir com a gente.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não, já vão você, Marcos e o padre. O que mais eu poderia fazer lá?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Então eu posso pegar o Pedro emprestado?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Alice se viu perfeitamente esmurrando Joana, mas respondeu:&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Claro. Vou pegar as chaves.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Marcos esperava com sua máquina fotográfica ao lado do carro. Joana, enquanto lhe entregava as chaves, comentou que ele não deveria andar com a câmera tão à vista. Afinal, por mais que a vida no campo fosse interessante, era estranho que eles quisessem tirar&lt;em&gt; tantas&lt;/em&gt; fotos. Além disso, Joana andava muito incomodada com a forma como Marcelo a olhava.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-É claro que ele te olha – Marcos sorriu. – Você tem pernas lindas.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não é para as minhas pernas que ele olha – Joana respondeu, embora tivesse adorado o comentário. – No início ele tinha aquele ar de tédio, como se o mundo pudesse acabar que não fosse fazer a menor diferença. Agora ele está com um jeito... Sei lá, desconfiado.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Marcelo os viu entrando no carro com uma ruga na testa que dizia claramente: “Não estou gostando disso”. Não deixava de ser um alívio o fato de tio Antônio estar viajando, pois, ao menos para o gerente, eles não precisavam inventar uma desculpa para sair tantas vezes com destino desconhecido. De qualquer forma, precisavam de uma estória para contar, caso Marcelo comentasse alguma coisa com o tio, Renato poderia fazer isso. Ele era ótimo para inventar estórias, não importava o motivo: para entrar em algum lugar, para conseguir uma informação, para convencer uma garota a dormir com ele, ou para dispensá-la na manhã seguinte. Joana se perguntou como ele estaria se saindo na Santa Maria. Provavelmente, muito bem. Era inacreditável que tenha precisado brigar tanto para colocar um cara tão talentoso no grupo.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Marcos também pensava sobre a Santa Maria, sobre a pobre tia Rosa que estava certa que ganhara um novo vizinho, e sobre como alguém poderia escolher morar no campo. Aquela paz não era para ele, que crescera em várias cidades grandes de vários países do mundo. Seu pai era diplomata. Vinha de um país longínquo ao norte e, com a mãe de Marcos, formava um casal improvável que, contra todas as expectativas, havia funcionado. E, dessa forma, Marcos e sua irmã cresceram viajando pelo mundo, falando diversas línguas e esquecendo-se de todas, e sem muita noção de lar. Superaram as brigas de irmão e se tornaram grandes amigos porque não tiveram opção, eram sempre as crianças novas no colégio, e, quando conseguiam fazer alguma amizade, logo tinham de se despedir e partir com o pai para algum outro ponto do planeta. Não que se ressentissem, pois desde sempre Marcos gostava de colecionar fotos dos lugares por onde passava, e Dani era uma estudiosa assídua das culturas diferentes que encontrava. Resolveram morar com a avó materna quando perambular pelo mundo começou a ameaçar o futuro deles, e então decidiram ir para a universidade. Teriam uma melhor formação na terra nórdica do pai, mas foram seduzidos pelo país tropical da mãe, e para lá se mudaram, primeiro Dani, a mais velha, e depois Marcos.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Encontraram o padre na cidade e dirigiram para a casa de dona Vicentina, seguindo as informações que ela havia deixado no dia do batizado. Enquanto ouvia Joana conversando animadamente com padre Moacir, Marcos se lembrou das idas e vindas pelas quais haviam passado naqueles anos de amizade. Joana e Marcos se conheceram trabalhando para uma revista, o primeiro emprego dos dois. Já haviam se cumprimentado várias vezes e se conheciam por nome. Entretanto, só puderam realmente conversar quando trabalharam juntos em um desfile de moda. Depois do desfile, Joana o convidou para tomar uma cerveja e Marcos aceitou imediatamente, pois ela tinha um sorriso franco, uma risada deliciosa e, como ele teria oportunidade de lhe dizer anos depois, pernas lindas. Terminaram conversando por mais de três horas, em uma antecipação da amizade que teriam dali em diante. Marcos contou sobre os pais e suas andanças pelo mundo, que agora dividia um apartamento com a irmã lésbica que, na realidade, era a sua segunda mãe. Joana falou sobre a sua família católica apostólica romana com leves toques medievais, que se chocava com o fato da filha de vinte e cinco anos não ter se casado nem mostrar disposição para isso, e que se irritava com aquela mania de independência das jovens de hoje em dia, que cismavam em ter uma carreira, sair todas as noites e discutir política. Em um dado momento da conersa, Joana lhe perguntou, de sopetão, por que ele havia escolhido a fotografia. Marcos lhe deu todas as respostas padronizadas: porque era apaixonado por fotografia, porque a captura da imagem certa no momento exato dizia mais que um livro inteiro, porque aquele não era um emprego sedentário, porque não agüentaria ficar preso em um escritório, porque tinha a oportunidade de conhecer pessoas novas todos os dias. E, como Joana o olhasse com um sorriso de interesse e olhos que poderiam fazê-lo ir ao inferno e voltar só para fazê-la feliz, ele acabou acrescentando que esperava não ter de continuar fotografando desfiles por muito tempo, que aquele era um trabalho superficial e muito chato, e que ele não havia estudado tanto nem gasto tanto dinheiro em equipamento para que meia dúzia de dondocas soubesse o que usar na próxima estação. “Então, o que você prefere fazer?”, Joana perguntou, e ele não hesitou em responder:” Eu quero estar em contato com o povo. Mas com o povão mesmo. Quero mostrar para as pessoas o que está embaixo do nariz delas mas que elas preferem não ver”. Joana abriu a bolsa e lhe entregou um cartão: “Eu já bebi muito, mas me ligue amanhã. Aí a gente conversa sobre isso”.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Marcos foi para casa sem saber se havia arrumado um trabalho ou um encontro. Telefonou para Joana, como ela havia lhe pedido, e combinaram de ir à praia (“está um sol lindo”, ela falou, já usando o biquíni e com a chave da porta na mão, louca para aproveitar o domingo). E foi nas pedras onde Joana e Alice costumavam se sentar para conversar que ela lhe falou sobre o seu “trabalho alternativo”, que não pagava muito bem, mas que era onde o seu coração estava. Ela e seus amigos se metiam nos confins do país, fazendo reportagens sobre o modo de vida das populações carentes, injustiças sociais, e tudo que fazia a classe média torcer o nariz, e a classe alta tentava esconder. Eles vendiam as reportagens para revistas e jornais, às vezes já partiam com algo encomendado, mas quem se interessava realmente por aquele trabalho eram organizações de direitos humanos, principalmente as internacionais, já que aquele povo não se interessava muito pelas próprias desgraças. “Tem de ter estômago, e muitas vezes a gente não ganha um centavo. Mas, se o que você me disse no bar é verdade, então você foi feito pra esse trabalho.”&lt;p&gt;&lt;br /&gt;E havia sido, sim. Logo que entrou para o grupo, Marcos percebeu que era exatamente para estar ali que havia decidido ser fotógrafo. Pensou em sua irmã e a apresentou também. Todos mantinham empregos ou faziam trabalhos como free lance, pois, recompensador ou não, aquilo não enchia a barriga nem pagava o aluguel. Mas um ano de trabalho convencional valia aqueles momentos, aquele frio na barriga quando decidiam para onde iriam, o momento em que desciam do carro em um lugar completamente novo, a hora em que entravam em contato com vidas que eram tão distantes das suas que era inacreditável que compartilhassem o mesmo idioma, o mesmo país e o mesmo governo.&lt;p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;-----&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Chegaram à casa de dona Vicentina no fim da tarde, quando todos já teriam voltado do trabalho. João, que estava na porta, correu para dentro para avisar que tinham visitas. Logo, dona Vicentina apareceu, acompanhada do marido e do filho mais velho, que se chamava Moisés. Era um rapaz moreno e forte, que não poderia ser mais que um adolescente super desenvolvido pelo trabalho braçal, e parecia bastante contrariado com aquele encontro. Entraram todos na casa de chão batido.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Trocaram várias amenidades, das quais Moisés não quis participar. Joana notou isso através dos seus ombros, que estavam curvados e rígidos, como se ele preferisse estar em todos os lugares do mundo, menos ali. Falaram sobre o tempo, sobre o batizado, sobre o curso bíblico que o padre iniciaria no mês seguinte, e sobre a colheita daquele ano. Seu Válter contou que tinha uma pequena roça no quintal e, aproveitando a deixa, Joana pediu que Moisés a mostrasse.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;O rapaz concordou com o pedido, aliviado por sair dali. Mostrou os legumes que plantavam, discorrendo longamente sobre solo, clima e chuvas, o que não fazia o menor sentido para Joana, mas ela conseguiu demonstrar interesse durante tempo suficiente para que ele não percebesse que estava preso em uma armadilha. Finalmente, quando o assunto parecia ter se esgotado, ela mencionou:&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu estive conversando com a sua mãe.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-A minha mãe fala demais – respondeu, imediatamente se colocando na defensiva.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu sei que você não concorda com ela, mas mães são assim mesmo, se preocupam demais. Eu não estou aqui pra te convencer a ficar. Só queria saber por que você está querendo ir. Eu trabalho para uma organização de direitos humanos. Você sabe o que é isso?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Sem esperar resposta, ela manteve seu sorriso encantador e continuou:&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-É uma organização que se preocupa e tenta corrigir injustiças. Eu sei que muita coisa que acontece nessa fazenda não está de acordo com a lei. Isso significa que o seu patrão pode até ser preso por tratar vocês desta maneira.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Se a senhora já sabe, então por que quer conversar comigo?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Por que eu preciso conversar com o máximo de pessoas que conseguir e, se todo mundo disser a mesma coisa, aí a gente pode dar um jeito. Se você não quiser falar comigo, eu entendo. Mas, se quiser, prometo que não vou dizer seu nome nem dar nenhuma informação sua se você não deixar.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-A justiça não chega por essas bandas, não.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Chega, sim. A gente só precisa tentar. Se não fizermos nada, aí é que ela não chega, mesmo.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Joana, pequena, rosto de criança, ar inocente e sorriso de anjo, conseguiu quebrar sua desconfiança aos poucos e gravou a conversa. À narração da mãe, Moisés acrescentou que as dívidas passavam de pai para filho, que possuía amigos que trabalhavam de graça por causa de dívidas dos avós. Como eles precisassem comer e se vestir e tinham de comprar tudo na venda da fazenda, não terminavam nunca de pagar o que deviam. A cidade ficava longe, e eles não tinham como ir lá comprar o que necessitavam, procurar médico, ou até chamar a polícia. Dependiam do seu Marcelo para tudo. Se ela não acreditasse nele, que perguntasse para os seus amigos, tinha alguns que não se importariam de confirmar o que estava dizendo. Joana enfatizou que acreditava nele, sim, mas, como dissera antes, precisava ouvir aquela estória da boca do máximo de pessoas. Assim, anotou em seu bloco o nome dos tais amigos, e ainda foi informada que os trabalhadores doentes eram mantidos em um galpão, que não recebiam tratamento por não poder ir à cidade. Foram até lá. Parecia um celeiro improvisado, mas, em lugar de vacas, Marcos e padre Moacir encontraram pessoas deitadas no chão ou em redes, enquanto Joana distraía o caboclo forte que vigiava a entrada. Eram oitro lavradores que não se incomodaram em dar entrevistas e até permitiram que Marcos tirasse fotos, pois, se um médico não aparecesse por ali, eles estariam com os dias contados mesmo, e desespero e precaução são opostos demais para serem sentidos ao mesmo tempo.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu vendi os meus tios – Joana murmurou, quando, após deixarem o padre em casa, estacionaram o Pedro no pátio da fazenda.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Marcos não disse nada, pois era isso mesmo que ela havia feito.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-As únicas pessoas da minha família que ainda falam comigo, e eu os vendi.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Jô, podemos ficar só com a Santa Maria. O que o Ronaldo nos contou já basta. Ninguém precisa saber sobre os seus tios.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Ah, Marquinhos, você não me conhece... – ela respondeu, triste. Logo em seguida, soltou uma risada: - Mas que presente de boas vindas de merda vocês me arrumaram.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;E Marcos riu também, pois, em certos momentos, ou se ri ou se enlouquece.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2340667380035569147-8724060556726403473?l=memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/feeds/8724060556726403473/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2340667380035569147&amp;postID=8724060556726403473' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/8724060556726403473'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/8724060556726403473'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/2008/09/captulo-16-moiss.html' title='Capítulo 16 - MOISÉS'/><author><name>Nome: Malu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16298942119359110223</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2340667380035569147.post-1059652588594999933</id><published>2008-09-20T19:46:00.004-03:00</published><updated>2008-09-20T20:00:16.029-03:00</updated><title type='text'>Capítulo 15 - RONALDO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;“Eu voltei a trabalhar ontem. Desculpe por não poder mais estar aqui o tempo todo. Eu prometi que ficaria do seu lado sempre que você precisasse, e não cumpri a minha promessa. Desculpe. Mas eu penso em você sempre, em cada hora do dia. Quando não estou aqui, estou pensando em você.”&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;A visita à dona Vicentina teve de ser adiada, mas por uma boa notícia. A médica, doutora Marlene, informou que Ronaldo estava mais forte e que finalmente se encontrava disposto a narrar o que tinha lhe ocorrido.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Primeiro, passaram por fax as últimas informações para André, que Joana havia passado a madrugada escrevendo. Depois foram ao hospital, onde encontraram padre Moacir sentado em uma das cadeiras da recepção. Ele os informou que Ronaldo poderia conversar, mas que não poderiam entrar todos. Alice fez questão absoluta de ir, e Marcos foi com ela, para fazer as fotos.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Joana e Renato foram deixados sozinhos por quase meia hora, e foi de Renato a idéia de aproveitarem aquele tempo livre de forma mais agradável e irem ao boteco da praça beber alguma coisa. Pediram uma garrafa de cerveja, e Renato perguntou qual era o problema de Alice, se ela era tão implicante por falta de homem. Joana o repreendeu, dizendo que aquele era um comentário sexista e incrivelmente maldoso. Mas o que Renato poderia fazer, ele se defendeu, sentira a rejeição do grupo desde o início, mas agora todos estavam mais simpáticos e dispostos a aceitá-lo, com exceção daquela filha da puta que fazia questão de mostrar-lhe que ele estava ali de favor.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-É claro que você não está aqui de favor, mas você está nos devendo uma.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Ah, não.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Rê, não pode ser tão ruim. É só uma visita, vai... É galinhagem útil, sua especialidade.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Marcos havia inventado o termo “transe de escritora”, e Dani saíra com o “galinhagem útil”. Ela sustentava que, enquanto a maioria dos homens era um bando de sacanas que galinhava simplesmente porque não estava passando nenhum jogo bom na TV, já que seus cérebros estavam divididos igualmente entre futebol e mulher, Renato havia inventado uma aplicação absolutamente nova para a obsessão masculina por sexo, que, no seu vocabulário de marinheira, era “foder somente as pessoas que teriam alguma utilidade no futuro”. Renato já tentara contra-argumentar que fodera uma infinidade de mulheres inúteis, mas, estranhamente, não importava o que estivessem pesquisando ou qual fosse o trabalho, sempre aparecia alguém que ele já havia levado ou pretendia levar para a cama.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Mas você não tem idéia do que eu estou falando – Renato tentou escapar. – Ela é a pessoa mais megalomaníaca que eu já conheci! E veja bem, eu sou o cara mais egocêntrico do mundo. Se reconheço que existe alguém muito pior que eu, é porque eu não estou brincando.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu sei, mas não estou pedindo para você se casar com ela. Só fazer uma visitinha, dar um passeio, pedir pra ela te mostrar o que a Santa Maria tem de bom...&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Renato sorriu maliciosamente, e Joana disse que era ele, e não ela, que tivera a idéia imunda.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Amanhã – ele pediu e comunicou ao mesmo tempo.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Amanhã – ela concedeu, antes de dar um gole na sua cerveja.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Enquanto isso, Alice, Marcos e padre Moacir deixavam o hospital. O padre se despediu dos dois logo que saíram, pois tinha muito o que fazer. Logo após as despedidas, Marcos olhos a sua volta para procurar os amigos, e os encontrou sentados a uma mesa do bar. Preparava-se para tomar aquela direção quando Alice segurou o seu braço. E, no momento em que ele se virou, mil pensamentos passaram pela cabeça dela. Alice se lembrou que aqueles olhos acinzentados haviam sido a primeira coisa nele a lhe chamar a atenção. Pensou que há muito tempo queria um momento como aquele para poder lhe dizer... dizer o quê? Aquele foi seu primeiro susto em um dia no qual já se sentia um verme, descobrir que não tinha nada para lhe falar. Sentia-se tão excluída quanto naquela tarde em que fora até a cachoeira e vira aquela cena que por pouco não lhe queimava a retina. E agora Marcos estava lá, sozinho, na sua frente, olhando para ela com seus olhos acinzentados, e ela não tinha nada para lhe dizer.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-O que foi? – Marcos perguntou, após algus segundos intermináveis, já se sentindo incomodado.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Nada – ela respondeu, odiando Joana por agora tudo ser tão diferente.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Esta e Renato estavam ansiosos para saber as notícias. Infelizmente, Alice achou melhor conversarem quando chegassem em casa, uma decisão baseada em bom senso e em pura vingança. Chegando á fazenda, foram conversar no quarto que Marcos e Renato dividiam, todos sentados no chão, acompanhados dos doces que sobraram da festa e que roubaram da cozinha. Alice tomou a palavra, dizendo que havia gravado a história de Ronaldo, e ligando o aparelho portátil para que todos a escuassem. Não foi tarefa fácil. A voz não era muito compreensível, por causa dos remédios e das bandagens, e Alice e Marcos precisaram intervir em diversos momentos para fazer uma rápida tradução. Dificuldades à parte, Ronaldo começava o relato contando o que já haviam escutado na casa de dona Laura, que ele havia sido contratado para trabalhar na fazenda Santa Maria com promessas de bom pagamento, casa e comida. A casa e a comida ele recebeu mesmo, mas nunca colocou as mãos no salário. Ele dormia em um barracão juntamente com outras quinze pessoas, com um capataz montando guarda para que eles só saíssem de lá para a plantação, e depois de volta para o galpão. Pouco depois que chegou, descobriu que não lhe pagariam nunca, e que já haviam matado três lavradores que não aceitaram as condições e decidiram fugir. O quarto a ser morto foi um amigo de Ronaldo, Zé. Ele não viu o que aconteceu, mas acredita ter ouvido tiros e, no dia seguinte, a plantação zumbia com os cochichos sobre a história. Apesar disso, Ronaldo estava decidido a tentar a sua sorte. Saíra de casa para ganhar dinheiro, não para trabalhar de sol a sol feito um animal e sem receber sequer um “muito obrigado” em troca, dormindo em um barracão, comendo uma gororoba e sem direito nem a ir a um médico. Por isso, passou um ano inteiro esperando uma oportunidade. Um dia, aproveitando a distração do capataz, ele e seu amigo Carlinhos fugiram e se esconderam no mato, onde esperaram até de madrugada. Embrenharam-se pelos campos e andaram durante horas, com medo de pegar a estrada. Quando o fizeram, já na noite do segundo dia, foram logo encontrados, e estavam famintos e cansados demais para opor muita resistência. Ronaldo já havia visto os homens que atiraram neles andando pela fazenda, mas não sabia seus nomes. A única pessoa que conhecia pelo nome era o gerente, seu Josias, e mesmo assim desconhecia seu sobrenome. Carlinhos foi o primeiro a ser baleado. A bala que atingiu Ronaldo não o matou, e ele teve presença de espírito suficiente para se fingir de morto, pensando em depois pedir ajuda. Foi enrolado com o cadáver em um saco de lona e acredita que os matadores fossem colocá-lo na caminhonete que estavam dirigindo, mas ouviram um barulho de motor na estrada e fugiram.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-O que faz do Pedro um herói – Alice concluiu, desligando o gravador. – Se não fosse por ele, provavelmente vocês nunca achariam o Ronaldo.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-O Ronaldo está com medo, mas topa que a gente divulgue o que lhe aconteceu – Marcos explicou. – O padre Moacir está tentando transferi-lo para um hospital da capital. Mas, para abrir o processo, precisamos de mais testemunhas.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-O Renato vai lá amanhã – Joana contou, e Renato fez ar conformado, de quem já desistira de lutar e agora esperava calmamente o abate.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu vou visitar a Rosana, peço que ela me mostre a fazenda, e arrumo um jeito de descobrir onde os escravos estão. Se não der para conversar com eles, a gente tenta de novo no dia do churrasco.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu vou também pra tirar as fotos.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não, no dia do churrasco você faz isso, vai ter mais gente e será mais fácil. Enquanto isso, nós podemos conversar com o filho da dona Vicentina.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-E eu? Faço o quê? – Alice perguntou, irritada.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Ué, você vem com a gente – disse Joana, mas Alice fez um gesto impaciente e disse que ia ler na piscina.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Não que o mau humor de Alice houvesse passado despercebido. Em situações normais, Joana já teria lhe perguntado o que estava acontecendo, mas não queria fazê-lo para que o triângulo amoroso em que estavam envolvidas não fosse levado à tona. Sua ânsia de contar a verdade esfriara consideravelmente depois que Alice se tornara tão arredia. Ela precisava estar calma para saber a verdade, e talvez o melhor momento para isso fosse quando voltassem para casa, parassem de conviver diariamente, e Alice se sentisse com liberdade suficiente para odiar Joana sem ter de dividir o mesmo quarto com ela. Sabia estar tentando desesperadamente arrumar uma justificativa, mesmo que fraca, para adiar mais uma vez o momento.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Contou isso a Marcos durante a madrugada, enquanto bebiam café e enchiam mais páginas do bloco. Terminaram fazendo amor no chão do banheiro, se perguntando se sua relação sobreviveria à volta para casa, quando teriam de encarar o desafio de parar de se esconder e transar em uma cama, como o resto da humanidade. E, deitada com a cabeça sobre o peito de Marcos, tentando prolongar aqueles raros momentos que possuíam a sós, Joana quase contou sobre as vozes noturnas e a sensação de cataclismo que se tornava cada vez mais difícil de descartar como fruto da sua imaginação. Mas Joana estava se acostumando a adiar momentos, e decidiu que aquela não era a melhor hora para anunciar que estava louca.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2340667380035569147-1059652588594999933?l=memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/feeds/1059652588594999933/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2340667380035569147&amp;postID=1059652588594999933' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/1059652588594999933'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/1059652588594999933'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/2008/09/captulo-15-ronaldo.html' title='Capítulo 15 - RONALDO'/><author><name>Nome: Malu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16298942119359110223</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2340667380035569147.post-3354242261723184659</id><published>2008-09-19T19:32:00.002-03:00</published><updated>2008-09-19T19:37:45.181-03:00</updated><title type='text'>Capítulo 14 - FIM DO FIM DO MUNDO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Saíram cedo no dia seguinte, após buscar padre Moacir na cidade, com destino ao vilarejo onde os pais de Ronaldo moravam. A estrada era asfaltada em alguns pontos e de terra em outros, mas sempre horrivelmente esburacada. Havia chovido durante a noite, e em dado momento o padre pediu que Alice parasse o carro e declarou que, se não quisessem ir desatolando o Pedro dali até o ponto de destino, então era melhor que andassem o resto do caminho. Por ser manhã e todos estarem contagiados por um certo espírito de aventura, desceram do carro sem protesto e iniciaram a caminhada.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Levaram mais de duas horas para chegar até os pais de Ronaldo, dona Laura e seu Joaquim. Eles moravam com dois de seus filhos em um casebre de tábuas, com um pequeno quintal onde algumas galinhas esquálidas ciscavam o lixo. Seu Joaquim estava trabalhando na roça, contou dona Laura, e ela estava em casa porque tinha um problema nas pernas e agora mal se agüentava em pé. Padre Moacir a examinou brevemente, e prometeu mandar uma amiga sua, médica, visitá-la. Dona Laura era uma mulher pequena, morena e de traços indígenas. Parecia ter uns cinqüenta anos, mas os garotos já haviam percebido que a maioria das pessoas naquele lugar era muito mais jovem do que aparentava. Enquanto ela passava o café, padre Moacir disse que Marcos e Joana eram as pessoas que haviam encontrado Ronaldo na estrada, e queriam saber o que tinha acontecido.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-O Ronaldo sempre foi um menino muito independente. Ele saiu de casa sem nem consultar nós. Disse que tinha arrumado um emprego, que ia fazer dinheiro e depois voltava. Isso já tem mais de ano.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Ele nunca mandou notícias esse ano todo? – Perguntou Joana.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Nunca. Ninguém aqui sabe escrever, e a gente não tem telefone, mas ele podia ter visitado. Deve ter se metido em encrenca, mas filho é filho e eu rezo muito por ele. Eu queria ir no hospital, mas minhas pernas não deixam. Pelo menos ele apareceu. O filho da Conceição também foi embora, e ninguém nunca mais ouviu falar dele, já tem mais de cinco anos.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Talvez ele não tenha feito nada errado, dona Laura. – Falou Marcos. – Talvez os outros é que tenham feito alguma coisa errada com ele. Quando nós levamos o Ronaldo para o hospital, ele mencionou a fazenda Santa Maria, e dois nomes, Zé e Carlinhos. A senhora sabe alguma coisa sobre isso?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Dona Laura abanou a cabeça.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu sei. – Ouviram uma voz. Todos se viraram e viram um menino moreno, usando uns shorts surrados e sandálias de dedo, parado na porta de entrada.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Sabe o quê, menino? – Perguntou dona Laura.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu vi quando vieram uns homens na cidade um tempo atrás. Eles estavam oferecendo emprego numa fazenda chamada Santa Maria. Prometeram muito dinheiro, casa e comida. Disseram que pagavam o primeiro salário adiantado quando chegassem na fazenda, e o Ronaldo foi com eles.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-E você conhece esses homens?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Nunca vi. Eles não são daqui, não.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Caminhando da aldeia até o carro, e dali dirigindo para a cidade, padre Moacir explicou que era assim que certos fazendeiros costumavam fazer. Iam até aldeias paupérrimas e distantes, e seduziam as pessoas, geralmente jovens que sonhavam com um destino melhor que o dos pais, oferecendo-lhes um salário maravilhoso e algumas mordomias. Renato perguntou o que estava sendo feito para conscientizar aquele povo, e padre Moacir sorriu seu sorriso humano, muito diferente do sorriso santo que os quatro jovens estavam acostumados a ver no rosto de um padre.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Por enquanto, duas coisas. Eu tenho tentado convencer as pessoas a abrir um sindicato desde que cheguei, para organizar os trabalhadores e lhes dar alguma força, mas tem sido muito difícil. Tem muita gente aqui com plena consciência dos seus direitos, o problema é que todas têm medo, e não posso culpá-las. Não passa uma semana sem que eu saiba de alguma morte, é muito mais fácil matar do que chegar a um acordo, e a polícia está toda comprada e não faz nada. Todos os casos que levei até a delegacia terminaram arquivados por falta de provas, mesmo que o crime tenha acontecido em plena luz do dia e nas barbas de todo mundo. Eu estou fazendo um dossiê que pretendo levar à capital na minha próxima viagem, e estou contando com a ajuda de vocês.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-É claro que você pode contar conosco. E qual é a segunda coisa? – Perguntou Joana.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-A segunda são palestras que eu e a irmã Lúcia pretendemos iniciar em breve, alertando as pessoas contra o trabalho escravo. Mas, para tudo isso, precisamos de mais informações. Ou seja, precisamos que Ronaldo esteja disposto a conversar.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2340667380035569147-3354242261723184659?l=memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/feeds/3354242261723184659/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2340667380035569147&amp;postID=3354242261723184659' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/3354242261723184659'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/3354242261723184659'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/2008/09/captulo-14-fim-do-fim-do-mundo.html' title='Capítulo 14 - FIM DO FIM DO MUNDO'/><author><name>Nome: Malu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16298942119359110223</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2340667380035569147.post-2059817532883522682</id><published>2008-09-17T21:51:00.007-03:00</published><updated>2008-09-18T21:31:42.944-03:00</updated><title type='text'>Capítulo 13 - UM PASSEIO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Joana relatou a história enquanto voltavam para casa. Quem colocou a conclusão em palavras foi Marcos: &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Acho que a gente não precisa ir até a Santa Maria para encontrar trabalho escravo. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Depois ficaram todos em silêncio. Marcos, Renato e Alice pensavam em Joana e no desconforto daquela situação, pois agora o Homem Mau de quem estavam falando era o tio dela e, diga-se de passagem, um tio simpático que os havia acolhido, feito questão de que se sentissem em casa, e que, principalmente, havia sido o único da família a não virar as costas para a sobrinha quando ela mais precisou de um colo. Em contrapartida, Joana pensava sobre como tudo aquilo era estranho, uma vez que sentia muito por tia Rosa, mas por tio Antônio, que sempre fora tão amável e bondoso com ela, era completamente indiferente. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Quando chegaram, tanto Alice quando Renato explicaram que não tinham se recuperado totalmente da noite anterior, e foram deitar. Joana estava com aquela desconfortável sensação de ter pensamentos demais na cabeça, e o único alívio possível era abrir a bolsa, pegar a caneta e o bloco, e organizar suas idéias por tópicos. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Você está escutando isso? – Marcos perguntou ao seu lado. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-O quê? – Virou-se, assustada. Talvez não fosse a única a ouvir vozes, afinal. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Nada. O silêncio. Estamos sozinhos. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-E... – disse ela, sem ter idéia do que ele queria dizer. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-E vamos aproveitar e sair daqui. Sem transes de escritora. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Mas eu preciso pensar. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu ajudo. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Saíram para o jardim e tomaram a trilha para a cachoeira. Enquanto caminhavam de mãos dadas, um ia completando as frases do outro, o que era uma espécie de jogo que faziam desde que se conheceram. Soava mais ou menos assim: temos três caminhos. O Ronaldo, dona Vicentina e a Rosana. Nós cuidamos da dona Vicentina. A Alice cuida do Ronaldo. Eu também quero cuidar do Ronaldo. Nós todos cuidamos do Ronaldo. O Renato cuida da Rosana. O Renato vai nos matar. Eu estou com medo. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Marcos parou de andar e olhou para Joana, a testa franzida. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Medo do quê? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Joana queria que a sua vida fosse uma fita de vídeo-cassete, que ela pudesse rebobinar e apagar certas cenas. Teria apagado a parte em que não conseguira controlar aquele movimento involuntário de língua, lábios e dentes que produzira sua última frase. Odiava ser covarde, detestava estar assustada, e abominava reconhecer isso. E agora precisava explicar o porquê de se sentir assim, quando na verdade não fazia a menor idéia! Não era o perigo da situação, era algo muito mais profundo e escuro que isso. Também havia as vozes do além, a coleira presa a um poste do pátio, e Marcos dizendo que Renato os mataria. Havia sido de brincadeira, claro, mas a palavra “matar” fora usada com freqüência demais nos últimos dias. E agora Marcos estava parado ao seu lado, esperando uma explicação que ela não conseguia dar. Seus pensamentos se sucediam em uma desordem incontrolável, e ela se forçou a respirar, se acalmar, a ir aos poucos. Um passo de cada vez. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu tenho um pressentimento horrível de que tudo vai acabar mal. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Marcos sentou-se em uma pedra e fez com que Joana se sentasse ao lado dele. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Sempre há essa possibilidade. Nós não trabalhamos trancados em um escritório, lembra? As coisas sempre podem dar errado. E foi você que me falou isso quando me chamou para trabalhar contigo. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-É diferente. Eu sei que não estou conseguindo me expressar, mas... Há uma parte concreta. Esse pessoal da Santa Maria tem, no mínimo, tanto dinheiro quanto os meus tios. E você já pôde ter uma idéia de quanto dinheiro os meus tios têm. Eles atiraram em dois caras, nós avisamos que tinha um cadáver na estrada, o corpo desapareceu e ficou tudo por isso mesmo. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-A gente já se meteu com esse tipo de gente antes... &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Calma, eu não terminei. – Se havia aberto a boca, então era melhor acabar de vez com a sua constipação verbal. – Além disso, tem o problema da Alice. Eu quero conversar com ela, eu nunca quis ser a amiga filha da puta que todo mundo odeia nos filmes. Eu agi errado, e quero consertar a situação, mas há sempre alguma coisa me impedindo, ou então aparece uma oportunidade perfeita, mas eu me esqueço do assunto, e tudo faz parte da mesma sensação horrorosa. Parece que estamos sempre nos escondendo. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Jô, nós &lt;em&gt;estamos&lt;/em&gt; nos escondendo. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Isso está errado. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Aconteceu, não foi nada que tivéssemos planejado. E, se você tivesse contado no primeiro dia, ela não se sentiria menos traída do que irá se sentir agora. Só não diga que eu sou alguma coisa errada na sua vida, tá bom? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Joana assentiu, pois era impossível discutir com aquele olhar, mas na realidade se sentia horrivelmente frustrada por não ter conseguido expressar exatamente do que sentia medo. Era uma sensação fatalista, como se caminhasse em direção a uma tragédia. Poderia lhe virar as costas e dar meia-volta naquele momento, mas sentia-se como uma marionete, sem vontade própria, seguindo o caminho que outra pessoa havia preparado para ela. Repetia para si mesma que aquele era um risco que sempre soubera existir, e que suas preocupações pequeno-burguesas eram patéticas quando comparadas aos problemas de dona Vincentina e Ronaldo Ferreira, mas era pequeno-burguesa, sim, e queria ser feliz. Queria aproveitar a sua juventude com Marcos sem dramas de consciência e sem ter medo de morrer. Queria poder se perdoar por ter feito um aborto, queria perdoar os pais por terem lhe dado as costas, e queria que estes a perdoassem também. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Uma parte distante da sua mente registrava que Marcos a beijava, enquanto outra se dava conta de que nem se lembrava mais do telefone dos pais, aquele número que também havia sido seu durante quase sua vida inteira. Havia saído de casa há quase oito meses e, apesar de não admitir, tinha esperado durante todo esse tempo por um telefonema da sua mãe. E, se seu pressentimento se concretizasse e ela nunca mais voltasse, as últimas palavras que teria trocado com seus progenitores seriam gritos e acusações. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu estou me sentindo muito sozinha – murmurou, traída por seus lábios mais uma vez, pois nunca tivera a intenção de dizê-lo em voz alta. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não diga isso – Marcos a beijou no ombro. – Estamos juntos nisso, lembra? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Lembrava, e ficava pensando como podia ter suportado aqueles meses, quando se afastara dele e do mundo por livre e espontânea vontade. Ou talvez fosse melhor parar de pensar de todo, enquanto seus nervos reagiam automaticamente a partir de cada ponto no qual a boca de Marcos encostava. Resolveu fingir que aquilo era a única coisa que importava, que tinha Marcos ao seu lado, e pela primeira vez percebeu que, enquanto ele se dizia seu amigo, ele na realidade tomava conta dela. Sentiu-se profundamente grata por isso. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Marcos pensava o mesmo. Que Joana era tão pequena e que estava assustada. Que ele talvez possuísse uma única missão na vida, estar por perto e tomar conta dela, e que o que mais o magoara naqueles últimos meses havia sido o medo de que ela não precisasse dele. Ao mesmo tempo, sabia que era ele que precisava da sua melhor amiga, sua namorada, sua amante, porque Joana era forte, e foi essa força o que primeiro lhe chamou a atenção. Ela sempre tentava esconder qualquer sinal de fragilidade e, quando estava tão frágil que era impossível fingir, escondeu a si mesma. E agora havia confessado que tinha medo, e ele percebeu, mais uma vez, que estava completamente e irremediavelmente apaixonado. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Deitaram-se sobre as folhas com todos os fantasmas pairando sobre suas cabeças, um homem morto, um escravo ferido, uma criança não nascida, uma amiga traída, uma mãe que não dava notícias, uma morte iminente. “Eu te amo”, Marcos sussurrou ao seu ouvido, e a força daquela frase a fez derreter, era verdade, e ela também o amava, tanto que tinha vontade de chorar, tanto que queria parar o tempo e ficar para sempre ali, deitada sobre as folhas, sentindo o cheiro da terra e o cheiro dos seus corpos. “Desta vez vai ser diferente?”, ela tornou a perguntar, “Vai, eu prometo”, e seria, seria diferente, agora estavam realmente juntos, estavam juntos e ficariam juntos para sempre, até o final dos tempos. &lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;-----&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Vamos voltar alguns minutos no tempo. Não muitos, uns vinte já serão suficientes. Vamos entrar em um quarto de bonecas, com móveis pesados e antigos, e pairar sobre uma cama com colchão de molas como os que nossas avós usavam. Nela, Alice finalmente se dava conta que sua dor de cabeça não se devia a uma ressaca, uma vez que realmente havia bebido um pouco na noite anterior, mas não o suficiente para se sentir tão infeliz. Percebeu isso quando deitou a cabeça no travesseiro e não sentiu alívio algum, não sentiu sono, e seu coração continuava pequeno, esmagado por um ressentimento que, aos poucos, tão devagar que ela mal percebia a transformação, virava ódio. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Podia se lembrar exatamente do momento em que fora apresentada a Marcos. Joana trabalhara com ele em uma revista e, em algum ponto, eles ficaram tão amigos que ela resolveu lhe contar sobre o grupo do qual fazia parte. E um dia Alice foi visitar a amiga e ele estava lá, usando calças jeans e uma camisa que realçava os seus olhos, tão bonito que sequer parecia real. Mal acreditou quando ouviu que iriam trabalhar juntos, que viajariam juntos, e que ela teria a oportunidade de fazer parte daquela cumplicidade que havia entre Joana e o homem dos seus sonhos, mas era uma boa amiga, e uma ótima amiga, e primeiro quis saber se era realmente cumplicidade o que havia entre os dois. Soube quando Joana invadiu o seu apartamento com três malas. Ela estava desfigurada, ferida, quebrada, e que surpresa, Joana não era um espírito intocável, não era uma entidade acima de todos os mortais, ela podia ser machucada. Fez muito café para a sua amiga, comeram muitos biscoitos, enquanto ouviu da própria boca de Joana que Alice era a única amiga que tinha no mundo, a única pessoa em quem podia confiar, que nada nem ninguém, nem mesmo Marcos, podia ocupar o lugar de Alice em sua vida. Esta acreditou, e confessou que estava apaixonada. Não foi fácil, era a primeira vez que se apaixonava por alguém real, e não pelo menino mais lindo da escola, ou pelo deputado trinta anos mais velho que defendia o sistema de cotas nas universidades, ou pelo líder comunitário casado que tentava levar cursos profissionalizantes para a área paupérrima em que morava. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Alice chegou à conclusão que não estava com vontade de dormir. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Com exceção da empregada mal-humorada, a casa estava vazia. Renato, o playboyzinho chato, ainda se recuperava da festa, na qual não fizera nada além de beber e seduzir as garotas da cidade. Obviamente, Joana e Marcos estavam sozinhos. Poderia se juntar a eles e se sentir sobrando. Por que eles haviam feito as pazes? Por que Joana havia voltado para o grupo? Por que ela não dependia mais apenas de Alice para ter uma amiga? Por que não podia continuar a ser a única a ter a atenção de Marcos? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Se eles estivessem em algum lugar, provavelmente estariam na cachoeira. Aquela era outra coisa que ela não podia entender, como podiam gostar tanto daquela água fria e cheia de folhas, e, voltando aos “por quês”, por que tinham de gostar das mesmas coisas, e partilhar as mesmas coisas, e obrigá-la a um esforço sobre-humano para simplesmente fazer parte de algo que não a seduzia, não lhe dava prazer, que ela quase detestava? Era muito mais simples quando Joana era apenas a sua amiga que a encontrava nas pedras da praia, e elas se sentavam sob o sol quente e conversavam durante horas, e sentimentos eram muito mais fáceis de catalogar e nomear e não doíam naquela época. Agora era obrigada a tomar aquele caminho longo para a cachoeira, buscando pequenos sinais para saber se estava perto, pisando sobre folhas mortas... &lt;p&gt;&lt;br /&gt;“Eu te amo”, ouviu. Era um sussurro, trazido até ela pela mesma brisa com cheiro de terra que a havia feito se sentir tão bem naquela manhã. Escondeu-se entre as árvores, e andou com cuidado para poder ver de mais perto o que já sabia. Eram eles, trepando como dois animais no meio do mato. “Desta vez vai ser diferente?”. Como assim, “desta vez”? Havia “outras vezes”? Em caso de resposta afirmativa, quantas haviam sido? Quando? Depois que Joana chorava em seu ombro? Depois que Marcos ligava para Alice sem parar, e no meio da conversa perguntava, distraidamente: “a Jô está aí”? Depois que ela vi os sinais negativos da amiga, e respondia, ao telefone: “Ela acabou de sair, mas eu aviso que você ligou”? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Uma parte de Alice pedia, implorava que ela fosse embora. A outra, que já havia perdido toda esperança de sanidade, ficou até o fim, até os últimos suspiros, os últimos gemidos, os últimos soluços. Viu-o deitar, ofegante e exausto, sobre o corpo que devia ser o seu. Via-a acariciar, com os dedos que deveriam ser seus, os cabelos dourados do homem da sua vida. Viu-o dizer novamente, e de novo, e de novo, que amava a sua melhor amiga. E percebeu que, definitivamente, havia perdido seu lugar na vida das duas pessoas que ela mais adorava no mundo. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Quando Joana e Marcos voltaram à casa, a “turma da ressaca” parecia plenamente recuperada. Renato, cujo rosto havia perdido o tom verde doentio que tivera durante a manhã, fazia um lanche na cozinha. Alice, sentada no sofá, assistia à novela das seis com tia Rosa. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Alice, eu queria conversar com você – Joana se aproximou. Alice sorriu angelicamente e respondeu: &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-A gente pode deixar para depois? É que o Artur vai confessar para a Bia que é apaixonado por ela. – E, estendendo o braço, tirou uma folha que estava presa no cabelo de Joana.&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2340667380035569147-2059817532883522682?l=memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/feeds/2059817532883522682/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2340667380035569147&amp;postID=2059817532883522682' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/2059817532883522682'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/2059817532883522682'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/2008/09/captulo-13-um-passeio.html' title='Capítulo 13 - UM PASSEIO'/><author><name>Nome: Malu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16298942119359110223</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2340667380035569147.post-9139860076182785067</id><published>2008-09-17T21:51:00.006-03:00</published><updated>2008-09-17T22:27:51.892-03:00</updated><title type='text'>Capítulo 12 - O BATIZADO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;“A nossa vida precisa continuar.” &lt;p&gt;&lt;br /&gt;“Ela parece estar dormindo.” &lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Joana sentou-se na cama. Chega! Não estava tendo sonhos, eram pessoas falando na sua cabeça. E, quando pessoas falavam na sua cabeça, ou estava enlouquecendo, ou havia enlouquecido de vez. Não havia várias doenças cujos sintomas eram esses? Talvez estivesse esquizofrênica, ou com desvio de personalidade, ou com algum outro distúrbio de nome horrível. As vozes começavam impedindo-a de dormir em paz, e logo a estariam mandando assassinar alguém. Ai, que merda, havia se tornado uma ameaça para a sociedade. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Como Alice ainda estivesse dormindo, levantou-se e se arrumou fazendo o mínimo barulho possível. Sua aparência no espelho era péssima, de quem havia passado a noite ouvindo vozes do além. A primeira providência do dia seria procurar a tia Rosa e pedir a história médica da família. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Para seu alívio, tia Rosa era a única acordada, e tomava café da manhã sozinha à mesa da sala. Ela levou a pergunta à sério e, depois de escarafunchar os recantos mais escuros e empoeirados da memória, lembrou-se de uma tia-avó que ficava presa por uma coleira a um poste no quintal. Joana perdeu imediatamente o apetite, ao ver o futuro que a aguardava. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não faça essa cara horrorizada, Joanita. Meu avô construiu um telhadinho para ela ficar na sombra. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Talvez tivesse de se mudar para a fazenda. Do jeito que andava seu relacionamento com os pais, apenas os tios teriam a bondade de construir um telhado em cima do poste para que ela não esturricasse. Aquela mudança implicava enormes decisões. O que faria com os seus móveis? Será que suas plantas sobreviveriam naquele clima? Será que Marcos e seus amigos viriam visitá-la? Será que alguém iria conversar com ela de vez em quando, ou a sua única companhia seria a empregada mal-humorada, que viria trazer-lhe a comida em prato e talheres descartáveis? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;A tia não percebeu os enigmas que torturavam a mente da sobrinha, e contava seus planos para a manhã. Disse que, no dia anterior, pedira para que lavassem a capela da fazenda. Era uma linda capelinha construída pelo pai da tia Rosa, mas era tão pouco usada que as bolas de poeira se juntavam nos cantos. Antigamente, tentara organizar uma missa pelo menos uma vez por mês, mas quando chovia o padre não conseguia chegar, e o padre velho reclamava de tudo, e muitos lavradores tinham virado evangélicos. Agora, a capela só era aberta para os batizados e para a missa de natal. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Joana não sabia mais se seria uma boa idéia ir à missa agora que era uma ameaça à sociedade, mas, quanto mais mantivesse uma aparência de normalidade, mais adiaria o momento em que seria presa ao poste. Portanto, perguntou à tia se ela e os amigos poderiam ir, e se Marcos poderia tirar algumas fotos. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-É claro que sim! Fico muito feliz que você se interesse tanto pela vida dos seus tios velhos! Eu conheço os jovens da capital, e sei que ninguém quer saber da vida no campo. Basta ver a Rosana, que fica com um bico amarrado o tempo todo que está aqui, e olha que a Mercedes trata aquela menina como um pão-de-ló. Além do mais, eu preferia mesmo que tivesse alguém lá. Ainda não conheço o padre novo direito e, depois do sermão que ele fez ontem, sabe-se lá o que vai dizer em um batizado! &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-A senhora não vai? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Ah, minha filha, eu tenho tanto que fazer! Não é fácil cuidar desta casa, e o Antônio ficou de ligar hoje dando a data da volta. Eu iria, gosto muito de estar presente, mas agora você pode me representar. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Aos poucos, os amigos de Joana foram acordando e se juntaram à mesa. Tia Rosa, de ótimo humor, não deixou de insinuar que gostaria muito que Renato virasse seu vizinho, na Santa Maria. O rapaz, que teria berrado de horror em um dia normal, limitou-se a um sorriso amarelo, pois estava morrendo de ressaca. Também sentada à mesa, mexendo seu café com leite desinteressadamente, Alice parecia bastante emburrada. Inventou a desculpa que também havia bebido além da conta, mas na verdade rodava, em sua mente, o VT de uma cena da noite anterior. Enquanto ajudava Teresa a colocar os poucos doces que sobraram de volta no carro, vira Marcos e Joana na pista de dança. Eles só dançavam, mas havia algo na forma como estavam próximos e em como ele falava junto ao ouvido dela que fazia as suas entranhas queimarem e lhe provocava uma imediata dor de cabeça. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Então, vamos a capela? – Joana terminou seu café e se levantou, irritantemente animada. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu preciso mesmo ir? – Renato gemeu. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Pode ficar, se quiser – Alice levantou os olhos da sua xícara. – A última coisa de que preciso é de alguém vomitando no Pedro. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Renato podia ter ficado agradecido pela chance de se arrastar de volta à cama, mas se ofendeu com o comentário e foi tomar sal de frutas, pois, na realidade, era bem provável que vomitasse mesmo no carro. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Aconteceu alguma coisa, Alice? – Joana perguntou. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não. Vamos embora. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Era uma manhã tão linda que nem o mau humor de Alice resistiu. Lembrou-se que estavam ali com um objetivo muito maior que briguinhas por causa de um homem, e que havia muito tempo para esse tipo de discussão quando voltassem para casa, dali a alguns dias. Por hora, saber que aquele trabalho se aproximava do fim já bastava. Gostava de estar na estrada, mas nem sempre com a mesma intensidade, e nunca com o gosto amargo que estava sentindo agora. Esta deveria ter sido a melhor de todas as viagens, André não estava por perto com suas atas e sua mania de organização, Joana havia ficado meses afastada, e Renato era um idiota. Nunca haviam combinado que teriam um líder, mas também nunca combinaram que todos seriam sombras de André e Joana. Eram seus amigos, claro, ela os amava, lógico, mas não era sempre que conseguia negar que a época que se sentira mais a vontade havia sido quando Joana brigara com os pais, se afastara de todos e só podia contar com ela. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Chegaran quase junto com o padre, que estava acompanhado de uma freira chamada Lucia. Enquanto preparavam a capela para a cerimônia, Marcelo e Teresa chegaram em uma picape e começaram a armar as mesas para o lanche que aconteceria depois. Havia sanduíches e sucos, e uma música suave tocava no rádio do carro. Dali a pouco vieram caminhões trazendo os lavradores, e Joana, representando tia Rosa, foi cumprimentar os recém-chegados, dentro os quais reconheceu João. Eram muito menos pessoas do que esperara, a maioria sem saber como se comportar, se botava ou tirava o chapéu, se conversava ou ficava em silêncio. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Ao todo, dez famílias trouxeram suas crianças para serem batizadas. Foi uma cerimônia simples, curta, mas muito bonita; quando saíram novamente da capela, as crianças finalmente se lembraram que eram crianças e começaram a correr e brincar pelo pátio, e os adultos se lembraram que não eram robôs e conversaram entre si, a princípio timidamente, em seguida mais à vontade. Os quatro amigos serviam a comida, mas logo os lavradores passaram a ajudar, e assim Joana pôde se separar do grupo e cumprimentar João, perguntando se o garoto se lembrava dela. Este respondeu que sim e, para puxar assunto, Joana perguntou quem da sua família havia sido batizado. Ele respondeu que fora o seu irmão menor, que estava ali, no colo da mãe. Levantando os olhos para a direção apontada, Joana percebeu que a mãe era uma senhora que estivera conversando com padre Moacir desde o fim da cerimônia. Ao vê-la olhando em sua direção, o padre fez um gesto para que se aproximasse. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Dona Vicentina, essa é a Joana, uma amiga. Eu gostaria que ela fosse comigo conversar com o seu filho, tem problema? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não tem problema nenhum, não – ela respondeu, rapidamente. – Qualquer ajuda é bem vinda! &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-A senhora se importaria de dizer a ela o que estava me contando? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não, imagina! É o seguinte. Eu vim pedir pro padre conversar com meu filho mais velho, que anda com umas idéias estranhas. Ele anda querendo ir embora, mas eu e meu marido não concordamos. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Foram se sentar em um banco, pois a criança no colo de dona Vicentina começava a pesar. Ela continuou: &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu, meu marido e meus garotos sempre trabalhamos aqui. Eu tive oito filhos, mas só cinco vingaram. Não reclamo dessa vida, não, aqui não é pior que nas outras fazendas. É até melhor. Desde que a gente chegou aqui, a gente consegue pôr comida na mesa e está ai o resultado, nossos cinco filhos estão grandes e fortes, ajudando na lavoura, menos esse, que ainda e pequeno. Comigo foi diferente, eu e meu marido já passamos muita necessidade nessa vida. Só o menino mais velho é que não vê isso. Ele cresceu muito revoltado, tem essa mania de pensar grande, de não ficar satisfeito com o que Deus deu pra nós, o que já é muito. Vive pensando em ir embora para a capital, mas o seu Marcelo diz que não pode. A gente tem muita divida aqui, por causa do material e da comida que a gente compra. A gente não pode sair enquanto não pagar tudo. O meu menino diz que a gente não vai conseguir pagar nunca, que é muito dinheiro e o que a gente ganha não dá pra nada. Que não é justo porque, no fim das contas, a gente está trabalhando é pro patrão, então ele tinha mais e que dar tudo de graça pra gente. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-E a senhora e o seu marido não concordam com ele? – Joana perguntou. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu sei é que agora temos casa e comida na mesa. Eu tive três filhos que morreram de fome, e os cinco que eu tive depois estão ai, fortes. Se a gente sair daqui, vai fazer o quê? Passar fome outra vez? A gente não pode se revoltar com o que Deus dá pra nós. O seu Marcelo tem sua casinha de alvenaria, e eu tenho minha casinha de tábua, mas foi Deus que decidiu assim, então é o justo. Seu Marcelo toma conta da gente e cuida da gente, e o meu menino devia parar com essas besteiras, que é muita ingratidão da parte dele.&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2340667380035569147-9139860076182785067?l=memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/feeds/9139860076182785067/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2340667380035569147&amp;postID=9139860076182785067' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/9139860076182785067'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/9139860076182785067'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/2008/09/captulo-12-o-batizado.html' title='Capítulo 12 - O BATIZADO'/><author><name>Nome: Malu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16298942119359110223</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2340667380035569147.post-4455621697384978621</id><published>2008-09-16T22:14:00.004-03:00</published><updated>2008-09-17T22:19:49.220-03:00</updated><title type='text'>Capitulo 11 - A FESTA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;A mão ainda segurava a sua. Uma voz feminina e familiar disse, a alguma distância: “O apartamento está fechado, e os móveis dela no depósito. Achei melhor ficar com as plantas na minha casa”. Silêncio. “Eu sei que isso tudo vai passar, mas por quanto tempo teríamos que pagar o aluguel?” Silêncio. “Você quer parar de me fazer sentir culpada?” &lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Quando acordou de mais uma noite longa, estavam todos reunidos na varanda, mas desta vez ninguém fazia agenda alguma, embora esta estivesse sendo discutida. Alice dizia que eles precisavam se concentrar. Que, se tentassem escrever sobre tudo, não dariam conta de nada. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-De qualquer forma, eu me comprometi a ajudar com as despesas do hospital e confirmei presença na festa – Joana falou, segurando uma xícara de café preto e sentando-se com eles. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu acho que a gente já se divertiu demais. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não é diversão, Alice – Marcos defendeu Joana. – Se não ganhamos a confiança desse povo, eles não nos contam nada. Basta ver o que aconteceu ontem. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Enquanto Alice insistia em seu ponto de vista e dizia que até o André concordava com ela, Joana se perguntou de onde vinha toda aquela competição. Algo estava irreversivelmente mudado em toda a dinâmica do grupo e, apesar de procurar conforto no fato de ter passado alguns meses distante, havia uma sensação gelada e escura subindo pelos seus ossos e congelando o seu espírito. Às vezes, principalmente à noite, era um sentimento quase claustrofóbico, e o pavor de alguma coisa que ela nem ao menos conseguia definir quase tomava conta dela. Durante o dia, com tantas distrações, era mais fácil se controlar. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;A distração daquela manhã foi o perfume delicioso que vinha da cozinha. Tia Rosa, orgulhosa, contou que os seus doces eram os mais prrocurados da quermesse. A empregada mal-humorada se absteve de comentar, pois obviamente era ela que os fazia e que ainda ficava de pé na barraca a festa inteira, atendendo a incansável demanda alardeada pela tia. Alice se ofereceu para cuidar da barraca naquele dia, provavelmente para se sentir menos culpada por estar indo a uma festa. A empregada quase sorriu, e a atmosfera ficou um pouco menos carregada. Assim que o pé-de-moleque foi colocado em cima do balcão de mármore para esfriar, tia Rosa saiu para assistir a um programa de TV e a empregada mal-humorada foi matar a galinha para o almoço, Joana retirou uma vasilha recém comprada de uma sacola e a encheu com sobras do jantar. E, como estava realmente disposta a fazer as pazes com Alice, perguntou se esta não gostaria de levar a comida ao hospital. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Pensava no sonho da noite anterior, e em todos os sonhos estranhos que tivera antes, quando Alice voltou com grandes novidades. O homem ferido havia recobrado a consciência e, embora ainda não pudesse conversar com eles, seu nome era Ronaldo Ferreira e estava fora de risco. O homem morto cujo cadáver desaparecera se chamava Carlos Matoso. Não conseguiram localizar a família do último, mas Ronaldo vinha de um povoado de nome indígena a cinqüenta quilômetros dali, e padre Moacir prometeu ir com eles no dia seguinte ao batizado, pois, apesar da distância ser curta, a estrada não prestava e o tempo que precisariam para chegar lá era um mistério. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;-----&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;A missa estava cheia. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;-Jô! &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Joana quase pulou da cama. A voz que chamava o seu nome era a dos seus sonhos, e a mão que segurava a sua era exatamente a mesma que a segurara durante o sono. Ficou alguns minutos perambulando nos limites da realidade, até que os seus olhos conseguiram algum foco e percebeu que Marcos tentava acordá-la. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Pesadelo? – Ele perguntou, sentado na beirada da sua cama. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não sei – respondeu, tentando se lembrar onde e em que dia estava. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Nós vamos perder a missa. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Quê? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-A missa da Nossa Senhora do Rosário? A agenda, lembra? Dessa vez nós a fizemos juntos. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Aaaaahhh... é? – Perguntou, ainda sem idéia do que ele queria dizer. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Às duas horas da manhã, na sala. Depois de você ficar escrevendo naquele caderno misterioso. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Informações demais para quem havia acabado de acordar. Joana se espreguiçou, sentindo todos os seus ossos estalarem, e decidiu que devia ter estado em mais um transe de escritora, embora preferisse morrer antes de admitir isso. O relógio ao lado da sua cama marcava quatro horas da tarde, e da sala podia ouvia os sons animados da sua tia e dos seus outros amigos. A empregada provavelmente resmungava em algum outro canto. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu já te contei que a minha família é muito convencional e que provavelmente te mataria se te visse no meu quarto? – Ela comentou, quando os últimos resquícios do sonho fugiram da sua mente. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-E eu já te contei que você fica linda quando acorda, mesmo quando quase morre de susto? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Joana sorriu, derretida, e então percebeu que devia estar com marcas do travesseiro no rosto e o cabelo em petição de miséria, isso sem falar no mau hálito. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Dá pra me esperar na sala? Eu já vou. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;A missa estava cheia. Durante o sermão, o padre pediu a benção de Nossa Senhora para aquela terra e para os seus filhos, pois ela era a mãe de todos, até dos pobres, dos marginalizados, dos excluídos, dos que não tinham terra para plantar ou voz para protestar. Houve algumas pessoas genuinamente emocionadas na igreja, mas várias outras se mexeram incomodamente nos bancos, e uma família chegou a se retirar antes do fim da homilia. Tia Rosa, segurando um terço entre os dedos gorduchos, sussurrou para Joana que não entendia de política, mas que aquilo não era algo que se dissesse no dia da padroeira. Quando a missa terminou, o padre ficou na porta da igreja, cumprimentando e conversando com os fiéis. Estes iam desde senhoras distintas usando suas melhores jóias, até homens murchos de sandálias de plástico. Joana pegou-se lembrando da insistência de Alice e André de que deviam se ater aos objetivos iniciais da viagem, e que todo o resto ficaria para uma próxima vez. Mas, estranhamente, ela sentia que não teria outra chance, que não voltaria ali. Joana pensou na faculdade, em todas as oportunidades que pareciam estar esperando por ela quando recebeu seu diploma, da sua certeza absoluta de que mudaria o mundo. E, de repente, sentiu vontade de chorar. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;A praça estava cheia de lâmpadas como em um natal prematuro, e várias pessoas começavam a armar suas barracas. Tia Rosa avisou que voltaria mais tarde para a festa e deu partida no carro, ameaçando atropelar metade dos presentes. Ela havia nascido e sido criada ali, mas parecia colada naquela fotografia, como se não fizesse parte dela. Assim que tia Rosa saiu, padre Moacir se aproximou, acompanhado de algumas pessoas. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Foram todos apresentados. Os três homens que chegaram com o padre eram os responsáveis pela música da festa, e a mulher que estava com eles era a animadora da comunidade. Renato, empolgado, contou que tocava violão, e um dos amigos do padre o convidou para tocar com eles. Como Renato estivesse o tempo inteiro procurando uma desculpa para fugir da obrigação de trabalhar na barraca de doces de tia Rosa, aceitou imediatamente. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-É impressionante como o Renato sempre arruma um jeito de só fazer o que ele quer – comentou Alice, enquanto montavam a barraca. Joana e Marcos não disseram nada, pois a amiga andava tão resmungona e mal-humorada quanto a empregada da tia Rosa. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;A praça começou a encher à medida que a luz do sol diminuía. Havia uma linha invisível separando os moradores da cidade e os fazendeiros da região, e até os jovens ricos e barulhentos que apareciam esporadicamente compareceram. Alice e Joana comentavam tudo isso de sua barraca, enquanto Marcos implorava que elas calassem a boca e fossem ajudá-lo com as vendas, mas era tudo tão diferente e interessante, mesmo para elas, que já haviam visitado outros fins de mundo. Renato não havia sido capaz de tocar muito com seus novos amigos, uma vez que conhecia poucas das músicas selecionadas. De vez em quando ele passava pela barraca, mas sempre arranjava qualquer desculpa para fugir e ir atrás das garotas da cidade. Agora conversava com uma delas, uma menina bonita que, segundo a invisível, embora infalível, linha, deveria pertencer à turma dos fazendeiros. Joana, que não queria ver Alice se desdobrando para agradar Marcos, preferiu dar atenção aos progressos de Renato. E foi assim que viu tia Rosa e uma senhora se juntarem aos dois e, logo depois, os quatro se encaminharam para a barraca. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Oi, crianças! – Tia Rosa cumprimentou, alegre. – Essa é a minha amiga Mercedes. E eu vi que vocês conheceram a filha dela, a Rosana. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Na verdade, acho que só o Renato a conheceu – disse Alice, com um sorriso meio simpático, meio maldoso. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Foi mal – Renato respondeu, e os apresentou à garota. – E vocês não vão acreditar. Nós somos vizinhos! &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Como assim? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Quem explicou foi tia Rosa: &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-A Mercedes mora na fazenda vizinha à nossa. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-É, a Santa Maria – Renato achou por bem complementar. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Seguiu-se um rápido silêncio espantado, e quem conseguiu reagir primeiro foi Alice: &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Mas como esse mundo é mesmo muito pequeno! &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não é? – Rosana concordou. – E eu querendo arrumar gente legal para ir ao churrasco! Desculpa, mãe, mas só tem velho na lista. E aí eu encontro vocês! &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Ao ver que os três estavam muito confusos, Mercedes explicou: &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Todo ano a gente faz um churrasco lá em casa, para comemorar o aniversário da Rosana e reunir todo mundo. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Vocês vão, não vão? – Rosana perguntou, ansiosa. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Claro! Quando vai ser? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-No sábado que vem. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Conte com a gente – Joana respondeu pelo grupo, simpática. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Rosana e Renato logo se afastaram, e Mercedes e tia Rosa passaram a debater o sermão polêmico do “padre novo”. Ambas concluíram que não entendiam de política e que aquilo não era sermão para o dia da padroeira, mas, quanto às duas, eram quase santas. Passaram vários minutos trocando listas de benfeitorias: Mercedes ajudara a reformar a escola, tia Rosa ajudara a pintar o hospital; Mercedes distribuía cestas no natal, tia Rosa batizava os filhos dos trabalhadores uma vez por ano; Mercedes promovia uma coleta de brinquedos, tia Rosa promovia uma coleta de agasalhos; Mercedes fazia um banquete no fim do ano, e tia Rosa, por falta de resposta, virou-se para seus hóspedes: &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Vocês não vão se divertir? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não dá tempo, dona Rosa – respondeu Alice, vendendo mais um pé-de-moleque. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Vão, sim. A Teresa toma conta de tudo. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;A empregada, que agora sabiam chamar-se Teresa, grunhiu. Os três tomaram aquilo como uma concordância e deixaram a barraca. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Já era tarde. Muitas famílias com crianças haviam ido embora, apesar da praça parecer ainda mais cheia. Agora as lâmpadas piscavam, um cheiro de terra se misturava ao dos doces, e uma fogueira crepitava perto do palanque onde Laurinda e Regina haviam realizado o leilão. Os músicos, que haviam silenciado enquanto as pessoas arrematavam o leitão e as galinhas, tinham recomeçado a tocar. O centro da praça havia se convertido em pista de dança e, antes que Joana se desse conta, Alice puxava Marcos para lá. Lembrou-se mais uma vez que ainda não haviam conversado. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Quer dar uma volta? – Disse uma voz ao seu lado. Era padre Moacir. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Joana passara a noite inteira em pé e estava louca para se sentar, mas resolveu aceitar o convite, os dois começaram a passear por entre as barracas, a maioria das pessoas cumprimentando o padre como a um velho amigo. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Você está aqui há muito tempo? É que a minha tia se referiu a você como “o padre novo”, mas eu estive te observando, desculpe – acrescentou, sentindo uma instantânea vergonha por estar se dirigindo com tanta familiaridade a um sacerdote – e parece que você morou aqui a sua vida inteira. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Estavam em frente a uma barraca de bebidas, e o dono ofereceu aos dois um copo de aguardente “por conta da casa”. Joana deu um gole e sentiu sua garganta arder. O padre sorriu: &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-É melhor ir devagar com isso. É muito forte. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Tudo nessa terra é forte – Joana respondeu, enquanto recomeçavam a caminhar. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-É verdade. Aqui só existem extremos. As pessoas amam ou odeiam, desperdiçam ou passam fome. Respondendo a sua pergunta, eu estou aqui há seis meses, e sou considerado o padre novo para alguns, o padre velho para outros. Eu fiz muitas amizades durante esse tempo, vi muita gente nascer, muita gente ir embora, e muita gente morrer. Às vezes parece que nasci e fui criado aqui, e às vezes parece que nunca farei parte desta cidade. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-E onde você nasceu? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Na capital. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Joana sorriu, dando mais um gole na sua bebida. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-E como consegue viver aqui? É como se fosse outro planeta. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-É, e é o mesmo. Na capital a gente tem todo tipo de conforto, mas há um miserável a cada esquina. A única diferença é que eles são tão comuns que fica difícil ignorá-los. Aqui eles estão em toda parte, terminam virando regra e, quando digo que são miseráveis, não falo apenas de dinheiro. Mas, se você mora em uma fazenda como a sua tia, pode passar semanas sem vê-los. E de vez em quando alguém os menciona em uma missa, e é mais simples se levantar, ir embora e continuar fingindo que eles não existem. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Ou mandar batizar as crianças deles uma vez por ano e se sentir a melhor pessoa do mundo. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Exatamente. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Pensei que os pais e os padrinhos tivessem de fazer um curso antes do batizado. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-E precisam. Mas muitos que se julgam os melhores cristãos do mundo não gostam do que a Bíblia tem a dizer. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-E você não tem medo? – Perguntou, de repente. Aquela sensação novamente. Aquela pergunta rondando a sua cabeça durante todos aqueles dias, esperando uma aguardente fazer efeito para saltar de sua boca, a pegando desprevenida. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Padre Moacir sorriu, como se estivesse esperando aquela pergunta desde o inicio da conversa. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Muito, e de várias coisas. Tenho medo que os pobres daqui nunca tomem consciência de que têm direitos, tenho medo que a violência e a miséria fiquem tão banais que eu me torne indiferente, tenho medo que vocês entreguem a sua reportagem e depois se esqueçam do que viram aqui. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Mas não tem medo de morrer? – Joana interrompeu. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Esse é um medo que pessoas que fazem uma escolha de vida como a nossa precisam se acostumar. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Joana não sabia se essas pessoas eram os padres, os padres e os jornalistas, ou pessoas que se encontravam em regiões remotas como aquela. Murmurou: &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Mas eu nunca estive tão próxima da morte. – E era uma mentira. Estivera, sim, muito perto da morte. Provocara uma, tratara a vida humana como algo descartável. Discursos feministas e direito de escolha à parte, matara uma criança, e a sua própria. De repente, sentiu vontade de ir para a cama, enfiar-se embaixo da cobertas, e ficar lá até morrer. – Padre, você acha que essa história vai acabar bem? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Acho que a gente vai ter de esperar para ver. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Estavam novamente em frente à barraca da tia Rosa, onde Marcos esperava por ela. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Quer dançar? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Joana pediu licença ao padre Moacir, e caminhou com Marcos ate a pista de dança improvisada no centro da praça. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Onde esta Alice? – Perguntou, quando começaram a dançar. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não sei, acho que foi dar uma volta. Eu quase contei para ela. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não, isso é uma coisa que &lt;em&gt;eu&lt;/em&gt; preciso fazer. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu sei. Eu disse &lt;em&gt;quase&lt;/em&gt;. Mas faça logo. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Sentindo-se mais sensível e emotiva do que de costume, Joana se perguntou se não havia um tom de recriminação na voz de Marcos, não em relação à demora, e sim quanto a sua lealdade como amiga. Para afastar aquele pensamento, contou sobre a conversa com o padre, e que precisavam arrumar um jeito de ir ao batizado. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Você fez muita falta ao grupo – ele repondeu. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Ao grupo? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Você fez muita falta ao grupo &lt;em&gt;também&lt;/em&gt;, mas você nunca me deixa terminar de falar – ele acrescentou. Sua boca estava muito próxima ao ouvido de Joana e, quando ele falava, lhe provocava um arrepio gostoso que fez com que momentaneamente se esquecesse do calafrio que sentira ao conversar com o padre. Naquele momento, desejou ardentemente que a sua vida fosse mais simples.&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2340667380035569147-4455621697384978621?l=memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/feeds/4455621697384978621/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2340667380035569147&amp;postID=4455621697384978621' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/4455621697384978621'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/4455621697384978621'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/2008/09/capitulo-11-festa.html' title='Capitulo 11 - A FESTA'/><author><name>Nome: Malu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16298942119359110223</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2340667380035569147.post-5694584723698554776</id><published>2008-09-15T22:38:00.004-03:00</published><updated>2008-09-15T23:05:25.308-03:00</updated><title type='text'>Capítulo 10 - A AGENDA DE ALICE</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;“Eu estou indo, e você vai comigo!”&lt;br /&gt;“Só mais uma página, e aí eu vou, eu prometo” &lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Joana acordou com a impressão de que algo estava muito errado, e pegou o relógio ao lado da cama para ter a confirmação: eram onze horas da manhã! Onze! Metade do dia já havia ido embora, provavelmente o homem misterioso já tinha acordado, saído do hospital, padre Moacir feito as malas e desaparecido, o trabalho perdido, a historia perdida, tudo porque o raio do seu corpo tinha necessidade de dormir! Ela seria capaz de matar o Marcos! &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Logo que chegou ao pátio, viu os seus três amigos conversando no caramanchão. Dirigia-se a eles quando hesitou. Marcos e Renato estavam ao lado de Alice, prestando atenção em algo que ela escrevia, e havia algo ali que não podia apontar exatamente, mas que lhe parecia uma conspiração. Sabia que andara dando um tempo e que a vida do grupo tinha continuado sem ela, e não esperava que fosse de outro modo. Só não queria se sentir tão excluída. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Bom dia, Bela Adormecida – Renato falou quando a viu, e Joana, se chamando de neurótica, juntou-se ao grupo. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Por que ninguém me acordou? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Porque era óbvio que você precisava dormir – Alice respondeu. – E depois, nós já cuidamos de tudo. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Precisamos fazer a agend... &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu já fiz – Alice lhe mostrou um caderno, antes mesmo que Joana terminasse de falar. Ela lançou um olhar assassino ao Marcos e pegou o bloco. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Alice, Marcos e Renato iriam à plantação. E era só. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Temos que dar continuidade ao que viemos realmente fazer... – Alice explicou. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Mas e o homem...? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Isso pode não dar em nada. Não podemos perder o foco. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Se ele acordar, nós iremos lá – Marcos se intrometeu, ao ver que Joana estava a ponto de explodir. Vê-lo tomando o partido da Alice não ajudou muito. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-E eu? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Precisamos que alguém mande o fax para o André, e você é sobrinha, é mais fácil pedir um favor. Além disso, o padre pode telefonar. Nós precisamos de você aqui. – Alice concluiu a conversa. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Desde quando Alice havia sido nomeada chefe? De repente, entendeu perfeitamente a sensação que tivera ao vê-los no caramanchão. Alice era sua amiga desde que podia se lembrar, mas ultimamente pareciam estar sempre em uma competição acirrada por algum prêmio fabuloso do qual ela não fazia idéia. Emburrada, foi buscar as folhas que havia escrito de madrugada, enquanto Alice, Renato e Marcos entravam no Pedro e partiam para um dia muito mais emocionante. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Tia Rosa, a senhora tem fax? – Perguntou, aproximando-se da tia, que dava ordens para a empregada mal-humorada. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Tenho o quê? – Tia Rosa a olhou, como se Joana tivesse lhe feito uma pergunta em japonês. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Fax. Um aparelho para enviar documentos. Fica junto do telefone. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-É como um telefone grande e esquisito? – O rosto de Tia Rosa se iluminou em reconhecimento. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Isso! É que eu preciso mandar uns papéis pro trabalho – mentiu. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Acho que tem um negócio desses no escritório do Antônio. Vamos lá. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Pobre tia Rosa. Ela fazia os melhores bolos do mundo, sabia remédios infalíveis para as mais variadas dores e conhecia todos os dias santos do calendário, mas morria de medo de toda e qualquer coisa que possuísse botões e chiasse. Seu microondas era um depósito de poeira e dali a pouco apareceria um ninho de algum bicho em cima do prato; apesar do estéreo poderoso da sala, só escutava o radinho de pilha; aprendeu a mexer na antena parabólica única e exclusivamente para assistir às suas novelas. E tinha medo do escritório de tio Antônio. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Este parecia cenário de um filme de ficção cientifica, em acintoso contraste com o resto da casa. Sobre móveis sólidos e antigos, havia um computador super moderno, uma impressora, um aparelho de fax, e várias engenhocas recém-saídas das feiras de tecnologia. Joana ficou receosa que tia Rosa observasse o que ela estava fazendo, mas esta permaneceu junto à porta, com ar de quem esperava que o fax fosse pular da mesa e correr atrás dela a qualquer momento. Mandou os papéis, e não precisou esperar mais que cinco minutos para que o telefone tocasse. Era André, querendo saber mais detalhes. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Jô, a Alice está certa. Não vamos perder o foco – André falou. – Se essa história der em alguma coisa, ótimo, mas não foi por isso que vocês estão aí. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Não foi. Mas, ainda assim, tinha vontade de gritar. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Não era justo que a tivessem desenterrado para agora se sentar em uma casa senhorial como mera espectadora. Era muito, muito injusto que tomassem todas as decisões sem que ela participasse. Era cruel a terem tirado do seu conforto para a tratarem como uma idiota incapacitada para qualquer coisa que não fosse enviar faxes e atender a telefonemas. E era muito triste constatar que, enquanto dava um tempo, a vida continuava sem ela. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Naquele momento, tia Rosa pegou a chave do carro que estava presa a um ganchinho ao lado da porta. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-A senhora vai sair? – Joana perguntou, imediatamente reganhando animação. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Vou à cidade, preciso fazer umas comprinhas. Quer alguma coisa? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Sim, queria. Sair dali. Joana se ofereceu, e tia Rosa, que tinha os carros em uma colocação alta na sua lista de máquinas demoníacas, ao menos quando era ela que os estava dirigindo, aceitou, agradecida. Entregou uma lista à sobrinha e pediu que esta passasse na casa do padre, para confirmar o batizado. Segundo tia Rosa, todos os anos ela reunia os filhos dos lavradores para um batizado e uma conseqüente festa, tradição que havia sido iniciada por seu avô, na capelinha da fazenda. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Joana pegou o carro, sentindo uma sensação maravilhosa. Sabia ao que se devia a sua impaciência: à inatividade e à impotência. Ela pensava muito bem em três circunstâncias: quando escrevia, quando pensava em voz alta com o Marcos, e quando estava enterrada no apartamento novo, dando um tempo. Mas nada disso se comparava à liberdade de estar, de fato, &lt;em&gt;fazendo &lt;/em&gt;algo. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Quando chegou à rua do padre, percebeu que ele estava no portão, conversando com duas mulheres que, pelas roupas, faziam parte da maioria paupérrima da população da cidade. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Oi, Joana! – Ele acenou, quando a viu descer do carro. – Essas são Regina e Laurinda. E essa é uma amiga minha, Joana. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Joana sentiu o seu coração derreter ao ser tratada como amiga. Cumprimentou as mulheres, e foi informada do motivo da reunião no portão. No dia seguinte, comemorariam a festa de Nossa Senhora do Rosário, padroeira da cidade, e Regina e Laurinda estavam procurando doações para o leilão. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Conseguimos duas galinhas, mas queríamos um leitão – Regina explicou. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Joana ofereceu que fossem em seu carro e, quando retornaram com um leitão guinchando no banco transeiro, foram deixar Regina e Laurinda em casa. Regina se despediu rapidamente, mas Laurinda passou um bom tempo conversando com o padre no portão, antes de entrar. Como padre Moacir a convidou a tomar café, contou-lhe do que se tratava a conversa: &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-O genro da Laurinda era posseiro em uma fazenda da região, e foi expulso. Agora estão todos na casa dela: o genro, a filha e os três netos. Todos sem trabalho, e a Laurinda tendo que sustentar a tropa toda. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Mas eles podem ser expulsos? Não tem ninguém para quem se possa apelar? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Quantas reportagens você pretende escrever? – o padre perguntou com um sorriso triste, servindo o café. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Ele mudou o assunto e disse que a situação do homem ferido era estável, que esperavam que ele pudesse conversar a qualquer instante, e que aí ele teria de ser transferido, provavelmente levado para a capital. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu tenho um conhecido que é vereador, e talvez ele possa nos ajudar – padre Moacir continuou. – Vai ser mais seguro e, além disso, a Marlene, a médica, faz um trabalho maravilhoso, mas o hospital precisa de tudo. Aparelhos, remédios, até comida. Quem tem levado as refeições sou eu.&lt;br /&gt;Joana prometeu ajudar, e também confirmou presença na festa de Nossa Senhora do Rosário, no dia seguinte, e dane-se se aquele não era o foco. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;À noite, Alice estava muito mal humorada, reclamando que a saída de Joana não fazia parte do combinado. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-E o que é que tem? Ela conseguiu muito mais que você – Renato alfinetou, e Alice foi para o quarto, batendo o pé. Estavam conversando na varanda, e Joana perguntou o que tinha acontecido na plantação, afinal de contas: &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Nada. Bom, pra não dizer que foi um dia perdido, eu fiz umas fotos – Marcos explicou. – Teríamos lucrado muito mais se você tivesse ido, e tivesse retomado o seu contato com aquele menino. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Obrigada por ninguém ter dito isso enquanto fazia a agenda. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Dissemos – Renato falou, se levantando. – Mas você conhece a sua amiga, ela é mais teimosa que você. Bom, vou pra cama. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Sim, ela devia conhecer a amiga dela, embora as duas ultimamente parecessem ser rivais em tudo. No trabalho, em relação ao Marcos... Merda, ainda não havia falado nada sobre o Marcos. Aquele era um bom momento, Alice ainda estaria acordada, mas por outro lado ela parecia estar em um mau humor tão devastador que provavelmente não seria uma boa idéia. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não éramos assim, éramos? Eu e a Alice? – Joana perguntou a Marcos, pois era muito difícil sentir qualquer pontinha de velha amizade, como se ela se conhecessem há apenas alguns dias. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Assim? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-É, como estranhas. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Isso ainda é por causa da agenda? – Marcos se levantou do banco em que estivera sentado e a envolveu pela cintura. – Juro que nunca mais fazemos uma agenda sem você estar presente. Melhorou? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Melhorou muito – ela sorriu, pois concordar era muito mais fácil que definir o que estava sentindo.&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2340667380035569147-5694584723698554776?l=memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/feeds/5694584723698554776/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2340667380035569147&amp;postID=5694584723698554776' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/5694584723698554776'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/5694584723698554776'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/2008/09/captulo-10-agenda-de-alice.html' title='Capítulo 10 - A AGENDA DE ALICE'/><author><name>Nome: Malu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16298942119359110223</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2340667380035569147.post-5340478416280655923</id><published>2008-09-13T18:31:00.004-03:00</published><updated>2008-09-13T22:13:30.148-03:00</updated><title type='text'>Capítulo 9 - A MADRUGADA DE MARCOS</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Marcos colocou o café sobre a mesa, sentou-se ao lado de Joana e começaram o ritual. Na verdade, quem percebeu que havia um ritual e o classificou como tal foi Dani, que até conseguia manter o bom humor para quem havia sido acordada, não uma, mas várias vezes, no meio da madrugada, pelos toques do telefone. Marcos costumava dizer que Dani era bruxa; Dani costumava responder que ela só tinha um cérebro na cabeça e o colocava para funcionar de vez em quando. Segundo ela, era realmente &lt;em&gt;muito normal&lt;/em&gt; se passar a noite acordado vendo alguém escrever, era &lt;em&gt;claro &lt;/em&gt;que não havia nada demais em se pagar uma conta de telefone astronômica para se discutir os hábitos alimentares das hienas, e era &lt;em&gt;óbvio&lt;/em&gt; que qualquer ser humano arruma um jeito de mencionar outro na conversa a cada cinco minutos, mesmo que a conexão seja algo como: “Hoje eu vou chegar tarde porque vou fazer umas fotos, o que me lembra, a Jô falou que vai ao festival de cinema”. Marcos ria e dizia que ela não entendia porque nunca teve um amigo, e Dani respondia que tinha milhares de amigos, mas que nunca largara uma namorada plantada porque um desses amigos queria fazer uma tatuagem. Dani dizia que os dois só precisavam de uma bebedeira para acabar com aquela palhaçada e darem nomes aos bois. Bom, o que dizer a esse respeito? Dani era bruxa. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;E, obviamente, ele sempre havia achado Joana atraente, Não era cego nem louco. Sentia uma certa curiosidade, sim, em relação a ela. Ela era alegre, divertida, bonita, com um dom insuperável para se meter em confusões, e ele não se lembrava de ter rido tanto com alguém em seus vinte e oito anos de vida. Apesar disso, ficou aliviado, sim, ao se sentar ao lado de Alice no ônibus, pois não sabia o que lhe dizer. Disse a si mesmo, sim, que só estava dando a Joana o tempo que ela exigia depois de todas as viagens, e por isso não havia telefonado. Não é sempre que se descobre estar apaixonado pela melhor amiga, e não é qualquer um que decide de imediato a melhor forma de agir. Ação instantânea e falas de efeito só funcionam em filmes, onde se tem um roteiro pronto, e Marcos se deixou levar pela indecisão por um tempo um pouco longo demais, pois, quando finalmente resolveu pegar o telefone, descobriu que Joana não estava muito interessada em falar com ele. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Apesar de parecer uma Barbie de um metro e oitenta de altura, Dani não tinha a menor paciência para qualquer tipo de frescura. Cansada da tromba do irmão, ela arrancou uma página da sua agenda e a entregou a ele, disposta a dar um basta naquela história: &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Está aí, ela se mudou, está morando no prédio do André, e o apartamento é esse. Agora melhore essa cara, porque eu te amo, mas vou te dar um murro se tiver que aturar o seu mau-humor mais um minuto sequer. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Ela não quer falar comigo – Marcos resmungou, profundamente magoado por todos saberem o novo endereço de Joana, menos ele. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-É claro que não! Depois de não sei quantos anos brincando de melhor amigo, você finalmente toma uma atitude de homem, e depois age como um filho da puta. Agora, se eu fosse você, ia lá, ou ela pode arrumar alguém muito melhor. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Podia, e foi isso que finalmente colocou Marcos em movimento. Encontrou a porta aberta e Joana em pé em uma cadeira, tentando pendurar uma samambaia, e foi naquele momento que ele concluiu que o seu destino estava irremediavelmente ligado ao dela. A sala, que ainda cheirava a tinta, estava completamente vazia, com exceção das plantas, de um sofá azul, da televisão e de um aparelho de vídeo-cassete. Essa era a Jô, Marcos sorriu para si mesmo, podia não ter uma cama, mas não ficaria sem os seus filmes. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Mar... Marcos? – Ela gaguejou quando o viu, quase deixando cair a samambaia. – O que você está fazendo aqui? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;A pergunta já passava longe de dar as boas vindas, mas o pior foi o choque no rosto dela, foi a forma como ela estava defensiva, foi o fato de parecer estar diante de alguém que era pouco mais que um estranho. Todo o ressentimento de Marcos voltou: &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Desculpe, eu não sabia que a sua mudança era segredo. Aliás, não era, não. Todo mundo sabia, menos eu. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Como você pode ver, o apartamento não está exatamente pronto pra receber visitas – Joana desceu da cadeira e, com um gesto, mostrou a sala vazia. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Ok, então eu vou esperar um convite chegar pelo correio – Marcos respondeu, irônico, e deu as costas. Estava quase saindo do apartamento quando ela pediu que ele esperasse. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Deixa de ser babaca, Marquinhos. Senta aí – ela riu, mas não era a sua risada de costume. Era uma risada ensaiada. – Eu tenho cerveja, quer? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Marcos aceitou, curioso para ver até onde iria aquela palhaçada. Se era assim que eles agiriam na frente um do outro de agora em diante, se ela não podia transar com alguém sem virar um robô, então que não tivesse vindo pra cima dele. Ele era homem, caralho! Não se passa de uma determinada linha se não se pode lidar com as conseqüências! &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Legal que você finalmente saiu da casa dos seus pais – ele disse, para ver se Joana ganhava alguma vida. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Ela lhe estendeu uma lata de cerveja e simplesmente murmurou um “é”, puxou um banquinho e se sentou em frente a ele, que estava no sofá. Então agora era assim. Eles não podiam se sentar próximos e, pela primeira vez, estavam sem assunto. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-O que aconteceu? – Marcos perguntou, se cansando do jogo. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Nada, eu já estou grandinha, e você sabe que eu e o meu pai dávamos nos nervos um do outro. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Por isso você foi pra casa da Alice? Por isso você não pode mais falar comigo? Porque você e o seu pai davam nos nervos um do outro? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu &lt;em&gt;estou&lt;/em&gt; falando com você. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;O que era uma paródia tão ridícula das antigas conversas que Marcos não pôde controlar uma risada, que saiu gotejando sarcasmo e deu um murro na boca do estômago de Joana. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Então me diga o que foi que aconteceu. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;E foi assustador, pois Joana começou a chorar. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Marcos a consolara durante vários fins de namoro e inúmeras brigas com os pais, mas ele nunca a havia visto chorando. E aquilo foi um murro na boca do &lt;em&gt;seu&lt;/em&gt; estômago. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Os golpes continuaram. Se intensificaram quando Joana começou a soluçar, viraram chutes quando ela revelou que tinha ficado grávida, e quase o mataram quando ele soube que ela havia feito um aborto. E então ele desistiu de tentar confortá-la, pois quem precisava de conforto era ele. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Marcos era jovem, bonito e se achava acima do bem e do mal. Se achava inatingível. Achava que só os outros ficavam doentes. Achava que só os outros morriam. Achava que só os outros engravidavam amigas. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu não sei o que dizer – foi a única coisa que saiu da sua boca, uma coisa oca, vazia, como a sua alma. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Mas a alma de Joana finalmente voltou ao corpo. Ela se levantou, enxugou as lágrimas, e respondeu: &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Então não diga nada. Passou, eu já estou bem. Só preciso de um tempo, mas já estou voltando para o grupo. Eu te ligo. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;E, encerrando a visita, ela o acompanhou até a porta. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;E, ainda sem saber o que dizer, ele saiu. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;As palavras só viriam mais tarde, no apartamento de Dani. Vieram montes delas, que ele saiu despejando em cima da irmã, que não se esquivou de nenhuma, pois seu coração estava pequeno por duas pessoas que tiveram a sensatez de se encontrarem, mas que não tinham o bom-senso para levar esse encontro adiante. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Pronto! Terminei! – Joana disse, com ar de triunfo, e virou a página do bloco. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Você não disse que terminou? – Marcos perguntou. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Terminei de escrever sobre os homens da estrada, mas falta fazer a agenda de amanhã. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Tá bom – Marcos respondeu, como quem fala com uma criança louca, e tirou o bloco das suas mãos. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Mas tem muita coisa, eu preciso organizar o que a gente vai fazer... – ela tentou explicar, enquanto Marcos a pegava pela mão e a levava para o quarto. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Claro, faça isso, sim – ele continuou, ainda falando daquela forma. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Marquinhos, vá a merda! &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Vou, sim. Boa noite – Ele a beijou, quando a deixou na porta do quarto que ela dividia com Alice. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Boa noite. Te odeio – Joana respondeu, mas com um sorriso bobo, enorme e apaixonado nos lábios.&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2340667380035569147-5340478416280655923?l=memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/feeds/5340478416280655923/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2340667380035569147&amp;postID=5340478416280655923' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/5340478416280655923'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/5340478416280655923'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/2008/09/captulo-9-madrugada-de-marcos.html' title='Capítulo 9 - A MADRUGADA DE MARCOS'/><author><name>Nome: Malu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16298942119359110223</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2340667380035569147.post-8354418670862707991</id><published>2008-09-11T22:51:00.004-03:00</published><updated>2008-09-12T08:56:07.780-03:00</updated><title type='text'>Capítulo 8 - A MADRUGADA DE ROBERTA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O plano foi seguido à risca. Roberta chegou à casa, anunciou que estava sem fome apesar do perfume delicioso que vinha da cozinha, e foi para a cama. Tia Rosa ficou preocupada, queria saber se a “sobrinha” estava se sentindo bem, e esta a tranqüilizou dizendo que era apenas uma dor de cabeça boba e que melhoraria se ela se deitasse. E foi o que fez, decidida. Não deveria ser difícil. Afinal, estava acordada há mais de vinte e quatro horas, provavelmente fecharia os olhos e dormiria mais ou menos um minuto depois, ou dois, se estivesse com insônia. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Não foi bem assim. Havia o barulho que vinha da sala, as vozes, a televisão, o barulho que vinha do lado de fora da janela, um empregado gritando algo para outro, um passarinho, um inseto. Havia o raspar do lençol de cobrir contra o lençol de forrar, o ruído dos seus cabelos no travesseiro, o tique-taque insuportável do relógio, alguém rindo, uma música ao longe. Quem quer que houvesse espalhado o boato que a vida no campo era tranqüila, estava muito, muito enganado. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Por fim, havia as imagens. Eram desordenadas demais para formarem pensamentos, era mais fácil entendê-las como retratos dos últimos dias: a cachoeira, Marcos, João, o menino com olhos de velho, Marcos, um corpo na estrada, Marcos, um homem ferido, Marcos, escravos, Marcos, um padre sem cara de padre, Marcos. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Era impossível dormir. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Assim que os sons da sala se extinguiram, que Alice entrou no quarto e adormeceu, Roberta julgou seguro levantar. Seu problema era ter imagens demais na cabeça, e tudo o que precisava fazer era tirar o bloco da mala, escrever um pouco, ordenar os retratos e transformá-los em pensamentos, e aí sim, poderia voltar para a cama. Sentou-se à mesa da sala da casa inteiramente silenciosa apesar de ser apenas onze horas da noite, e concluiu que sua idéia havia sido tão brilhante que já estava até com um pouco de sono. Escreveria algumas linhas, ou nem isso, simplesmente colocaria os acontecimentos por tópicos, e em meia hora já teria terminado. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Levantou os olhos quando abriram uma das portas. Marcos entrou na sala, viu o que ela fazia, e riu. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-O que foi? – Ela perguntou, sentindo uma inexplicável alegria ao vê-lo. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Você chega, diz que vai para a cama, não janta, e eu te encontro de madrugada, escrevendo. O seu próximo passo vai ser dizer que não está tendo um transe de escritora. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu não estou tendo um transe de escritora! – Ela protestou, apesar de não saber o que era aquilo, mas certamente nenhuma escritora em transe escreveria tão pouco, certo? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não, Jô? E o que é isso tudo que você escreveu? – Ele riu, como se a resposta dela já fosse esperada. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Roberta olhou para o bloco, e deu de cara com páginas e mais páginas escritas em sua caligrafia. Como...? Quando...? Onde estavam as suas poucas linhas? O que havia acontecido com os seus tópicos? Como pudera escrever tanto em apenas meia hor... Levantou os olhos, e já eram três horas da manhã! Agora aquilo já estava indo longe demais! Provavelmente a Joana nem era uma pessoa, era um espírito de porco, a observando de outra dimensão e dando gargalhadas às suas custas. E, mais uma vez, Marcos agiu como se já estivesse esperando exatamente por aquela reação. Riu novamente, curvou-se e a beijou, e disse que ia fazer café. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Roberta estava frustrada quase ao ponto das lágrimas, mas, estranhamente, não estava com medo. Essa fase já havia passado. Ela, que possuía horários rígidos e roupas para cada tarefa doméstica e hora do dia, estava absolutamente sem controle, sem conseguir ditar suas próprias ações ou decisões. Não era uma simples questão de resolver ir ao supermercado, e ser impedida de fazê-lo por algo urgente como, por exemplo, a queda da casa do Tom Hanks. Era como se tivesse realmente saído de casa para fazer compras, mas, ao invés dos seus pés levarem-na ao seu destino, ela aparecer na fila do banco, sem ter idéia de como havia chegado ali. Por quê? POR QUÊ??? A não ser, claro, que tivesse realmente entrado em um transe de escritora. Expressão, aliás, que nem existia, que fora inventada por Marcos, e a qual ela mesma só começou a considerar durante a viagem ao norte. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Roberta viu a cena com uma nitidez assustadora. Estavam no norte, o trabalho terminou levando consigo os últimos resquícios do transe, e Daniela, irmã do Marcos (claro, por que outro motivo eles seriam tão parecidos?) propôs que fossem ao único lugar que os moradores da pequena vila de pescadores possuíam para se divertir. Era a última noite e, segundo a Dani, era melhor se preocupar com uma ressaca no dia seguinte do que com a poeira naquele ônibus dos infernos. O local era mais um galpão paupérrimo que um clube noturno, mas eles haviam se divertido, e muito. Escutaram histórias hilárias e inacreditáveis, deram gargalhadas tentando aprender uma dança típica, fizeram amizades que nunca poderiam continuar, mas que pareciam eternas naquela noite, e beberam quantidades cavalares de cerveja. Quando Joana deu um gole em seu copo e sentiu o líquido parar na sua garganta e por muito pouco não voltar, anunciou que voltaria para a pensão. Alice reclamou que a culpa era do transe – a expressão cunhada por Marcos já havia se popularizado naquela época –, que a amiga passava as noites com o nariz enfiado naquele bloco, quase não comia, e agora tinha bebido daquela forma. Mas Marcos, que também já havia passado um pouco da sua cota de álcool, foi mais solidário e se ofereceu para voltar com Joana. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Foram caminhando pela praia, abraçados e contando piadas de pontinhos amarelos no jardim, como estavam acostumados a fazer desde que se conheceram e voltavam de alguma noitada. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Mas, aquela noite, algo havia mudado. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Quando Joana pensou sobre o assunto, no dia seguinte, foi rápida em assumir pela primeira vez o transe de escritora e culpar toda aquela cerveja em um estômago vazio. Naquela noite, ela não culpou coisa alguma. Ela achou tudo muito natural. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Não que nunca houvesse achado Marcos atraente. Afinal, não era cega nem louca, e sabia que, quando trabalhavam na mesma revista, ninguém acreditava no fato de que os dois fossem apenas amigos. Mas o fato é que eles não eram apenas amigos. Eles passavam horas conversando sobre política, e horas falando sobre um documentário que haviam visto sobre a reprodução dos pingüins. Eles se telefonavam no meio da madrugada para contar sobre um sonho que tiveram, sobre um filme de quatro décadas atrás que estava passando na TV, ou apenas para comentar a mudança do tempo. Em outros momentos, eles não diziam nada, apenas ficavam sentados no mesmo sofá, ouvindo música ou ouvindo o silêncio, perfeitamente em paz. Não era namoro, mas também não era amizade, era algo tão simples e poderoso que ainda nem possuía nome. Classificar aquele sentimento seria o mesmo que diminuí-lo ou maculá-lo. Entretanto, foi exatamente isso que Joana fez naquela noite. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Porque, de repente, ela o viu de forma diferente. E só o fez porque parou de pensar. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;E foi apenas isso que bastou. Apenas beber o bastante para deixar as regras de conduta de lado, e de repente Marcos lhe pareceu absolutamente perfeito, não o seu amigo perfeito, mas o seu homem perfeito. Ela tomou plena consciência do peso do braço dele sobre os seus ombros, notou que gostava tanto de ouvir a sua voz porque esta era a mais sensual do universo, chegou à certeza que o fato de se sentir tão bem na sua companhia só podia ser uma mensagem do destino. E, sem se dar conta, ela havia parado de andar e estava a meio caminho de beijá-lo. Hesitou durante um segundo quando viu o olhar dele, um olhar de advertência, de que se cruzassem uma determinada linha seria impossível voltar. Joana não lhe deu bola, não estava pensando, foi em frente e o beijou. Para o seu próprio espanto, ele a beijou de volta. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Deitaram-se sobre a areia e tiraram as roupas um do outro com pressa, quase com medo de que se arrependessem e voltassem atrás. Joana hesitou durante um milésimo de segundo ao ver aquele corpo, mas não foi uma hesitação de lamento, foi de choque, foi ver o corpo que já havia visto milhares de vezes na praia, que sempre sentava-se ao lado dela sobre as pedras, de repente ter virado uma necessidade, pois enquanto ele não fosse dela ela não teria paz. Refletiu mais um segundo sobre o fato de estarem na praia, na porra de um local público, onde poderiam ser vistos por qualquer um, mas logo em seguida ele a penetrou, e foi então que deixou de pensar de todo. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Passaram algum tempo deitados, esperando o mundo parar de tremer, sentindo um constrangimento atroz. Era o Marquinhos, porra, seu melhor amigo, o cara que lhe contava histórias de namoradas que a divertiam muito mais do que a enciumavam ou excitavam. Como eles tinham terminado naquela situação? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, se levantaram e se vestiram, ainda sem conseguir se olhar, e caminharam, em silêncio, para a pensão. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, Joana acordou suja de areia, com ressaca, muito envergonhada, mas com um inexplicável sorriso nos lábios e, pela primeira vez na vida, sem saber como agir. Se sentaria ao lado de qualquer outra pessoa que não fosse Marcos no ônibus, tentaria manter a conversa viva até chegarem à capital, não olharia para ele, e esperaria que o tempo apagasse aquela noite da lembrança deles. Era um plano simplesmente perfeito. Para a sua infelicidade, ele não poderia ter dado mais errado. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Joana entrou no ônibus antes dele, mas Marcos não fez menção de se sentar ao seu lado. Ele se sentou ao lado de Alice, com quem conversou o tempo inteiro. Ressentida, Joana disse para si mesma que era melhor assim. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Quando chegaram, ele não telefonou durante um bom tempo. Muito magoada, Joana resolveu que Deus era um cara muito sábio. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;E então a merda toda aconteceu. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Os enjôos, o atraso, o pavor, o exame. Seus pais a esperando na sala, que ótima hora para descobrir que eles mexiam nas suas coisas, a briga, a saída de casa. A imundície da clínica, a imundície da alma, a casa da Alice. A primeira vez que ouviu da boca da amiga que ela amava o seu amigo, a dor lancinante do ciúme, uma dor bem-vinda, pois ela não merecia ser feliz. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Marcos trouxe o café para a sala e uma Roberta completamente atordoada de volta à realidade. Ela estava sem chão porque, de repente, uma parte das memórias de Joana não estava mais no diário, e sim na sua cabeça, e de uma forma tão nítida que parecia suas próprias lembranças. Ela sabia que, quando Marcos finalmente tentara localizá-la, ela se recusou a atender aos seus telefonemas. Sentia todo o asco de Joana em relação àquela situação, ao que havia feito, à dúvida se havia tomado a decisão correta. Sabia sobre o apartamento novo e a decisão de se enterrar nele até que o mundo não parecesse mais ameaçador e aquele medo passasse, o medo de arder no inferno, o medo de ser indigna, o medo de que descobrissem o que havia acontecido e de nunca mais ser amada novamente. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Tá tudo bem? – Marcos perguntou, ao ver que ela tinha parado de escrever. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Tá. Só estava pensando em toda essa confusão em que nos metemos, e que é muito bom estarmos nisso juntos – Joana sorriu.&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2340667380035569147-8354418670862707991?l=memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/feeds/8354418670862707991/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2340667380035569147&amp;postID=8354418670862707991' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/8354418670862707991'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/8354418670862707991'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/2008/09/captulo-9-madrugada-de-roberta.html' title='Capítulo 8 - A MADRUGADA DE ROBERTA'/><author><name>Nome: Malu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16298942119359110223</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2340667380035569147.post-1210516780659928944</id><published>2008-09-09T21:12:00.003-03:00</published><updated>2008-09-09T21:27:00.658-03:00</updated><title type='text'>Capítulo 7 - PADRE MOACIR</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Obviamente, Roberta não dormiu. Logo que Alice desistiu de falar, foi para a cama e começou a ressonar, Roberta se levantou e abriu o diário. Havia uma longa descrição, em detalhes, do dia e do acontecimento na estrada. Roberta passou por tudo isso às pressas, pois havia vivido tudo aquilo há bem pouco tempo, e poderia passar o resto da sua vida sem ser recordada dos olhos apavorados do morto. Na terceira página, a caligrafia de Joana dizia: &lt;p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Nunca me senti tão próxima da morte. Aliás, minto, me senti, sim, naquela clínica. Hoje eu e Marcos falamos sobre o assunto. Mais que isso, nós nos beijamos. Como penso muito melhor quando escrevo, vamos adiante, vamos pensar escrevendo: &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Passamos por muita coisa, vivemos muito para que eu não possa admitir nem para o meu próprio diário que eu o amo, e o amo com a experiência de quem já pensou que amava milhares de pessoas em várias fases da vida. Foi por isso, não foi? Foi por admiti-lo que eu voltei. Mas nada é tão simples, e agora existe a Alice. Errei. Errei muito por lhe dar corda, mas não o fiz por mal, o fiz por ter medo de olhar para dentro de mim mesma e ver o óbvio. Não sei se eu e Marcos estamos retomando algo, aliás, é impossível retomar qualquer coisa, já que nunca tivemos nada além da amizade mais linda do mundo, mas ainda assim eu o amo, e não como amigo, e sinceramente não sei o que fazer. Odeio não saber o que fazer. Odiei quando ele disse, na plantação, que ninguém manda em mim, adorei e odiei ao mesmo tempo, ninguém manda em mim, mas matei uma criança, e vi seus olhos refletidos nos olhos de um cadáver jogado na estrada, e estou com medo, muito medo, e não posso dizê-lo a ninguém porque quem me conhece mais que qualquer ser humano no mundo acha que eu sou forte e não recebo ordens. Eu queria muito, muito, poder falar com os meus pais.&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Roberta se distraiu com o barulho de água do lado de fora da sua janela. Como dormir era inútil, resolveu verificar e encontrou Marcos lavando o Pedro. Os dois trocaram um “bom dia” e ela começou a ajudá-lo. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Não foi fácil, pois estava escuro feito breu, mas qualquer coisa que disfarçasse o vermelho-sangue já estava de bom tamanho. Trabalharam em silêncio, sem trocar outras palavras além de um lembrete sobre algo que deveria ser esfregado com mais atenção, até que decidiram que não fariam avanço maior àquela hora da madrugada e empurraram o Pedro para o seu lugar no pátio, ao lado da pick-up. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Pronto, você já pode voltar para a cama – Marcos falou. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Vou, não. Cansei de ter pesadelos – foi a resposta de Roberta. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Então ele a chamou para se sentar à beira da piscina, e ela o acompanhou porque estava sem sono, apavorada com a possibilidade de dormir e sonhar com aqueles olhos, e embebida nas palavras que Joana havia escrito no diário. Sentaram-se no banco de cimento, um ao lado do outro: &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Vamos voltar ao hospital? – Roberta perguntou, temendo a resposta. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Às oito em ponto – Marcos disse, sorrindo, ao se lembrar da Alice. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-O que você acha que aconteceu? – Ela se virou para ele, as entranhas geladas ante a expectativa de reencontrar o homem ferido, só não sabia se sentia pavor ou excitação. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Milhares de coisas. Briga de bêbados, marido traído, vingança... o que &lt;em&gt;você&lt;/em&gt; acha? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Que um marido traído não balearia dois homens... &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Depende da mulher dele – Marcos falou, e Roberta, apesar de si mesma, sorriu: &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Digo o mesmo sobre briga de bêbados. Vingança faz sentido. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Faz. Contra o quê? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Briga por terras, talvez? – Ela falou, baseada em um milhão de filmes aos quais havia assistido. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Talvez... – Ele respondeu. E então, sem ao menos fazer idéia que a frase escaparia de sua boca, Roberta disse: &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Sobre o que aconteceu depois... o beijo... &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu queria muito que desse certo – Marcos a cortou, e as borboletas ainda voavam no estômago de Roberta quando ouviram barulhos no pátio. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Era Tio Antônio, seguido por Marcelo, que carregava uma mala enorme. Tia Rosa fechava a fila, dizendo para mandar beijos para a Rosana e para a Paula, que o vestido rosa era para a Deca e o amarelo era para a Helena, para tomar cuidado com a mala e não deixar quebrar o vidro de doce de mamão, para ligar assim que chegasse. Tio Antônio, um pouco impaciente, pareceu feliz da vida ao ver que Roberta e Marcos se juntavam ao grupo, interrompendo, assim, a ladainha da mulher. Pediu que eles aproveitassem a estadia, que desculpassem a sua ausência, e prometeu voltar logo. Minutos depois, a pick-up rugia, e desaparecia além do portão. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Sentaram-se para tomar o café da manhã, e tia Rosa sentiu-se obrigada a lhes fazer companhia, sem saber que sua presença era inteiramente dispensável. Enquanto a empregada muda e mal-humorada trazia jarras de sucos frescos, discorreu sobre as gracinhas da Deca, que sempre fechava os telefonemas dizendo: ”Dá beijo nas vacas, vovó” e sobre o marido maravilhoso da Paula, que certamente seria eleito vereador nas próximas eleições. Roberta e Marcos participaram da conversa por educação, embora não com muita empolgação. E então, quando todas as gracinhas das netas foram expostas e destrinchadas, tia Rosa finalmente se levantou para cuidar dos seus afazeres. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Marcos e Roberta se sentaram no sofá, mãos e bocas afoitas em recuperar o tempo perdido, e palavras muito necessárias, muito adiadas e há muito ignoradas. Marcos disse que havia morrido de saudades, e que surpresa, Roberta sentia saudades também, de algo que ela não havia vivido, mas tão intensamente que seu corpo chegava a doer. Apesar de ter passado meses no sofá bege da sua sala bege, prometeu que nunca mais fugiria, mas que estava sim, preocupada com Alice, a falsa melhor amiga pela qual não sentia afeto algum, mas se investigasse muito a fundo podia até entrever alguma gota de carinho, e precisava de um tempo para lhe comunicar que estava feliz. Que uma criança não havia nascido, mas estava feliz. Que um homem morto a havia encarado com olhos de pavor, mas estava feliz. Que um homem ferido havia segurado a sua mão e lhe pedido ajuda, mas que estava muito, muito feliz. Em algum momento, Renato entrou na sala, descabelado, sem camisa e vestindo uma bermuda de surfista, e quando soube que Alice não havia acordado, voltou para o quarto resmungando um “eu sabia”, mas Roberta e Marcos pouco lhe deram atenção, pois não possuíam olhos para o resto do mundo. “Me prometa que dessa vez vai ser diferente”, Roberta pediu, sem ter muita certeza do porquê, mas Marcos prometeu, prometeu que seria completamente diferente, que ele não seria o babaca da outra vez e lhe pediu desculpas novamente, e Roberta nem sabia do motivo para ter que desculpá-lo, mas o desculpou assim mesmo. Em algum outro momento, Alice finalmente apareceu, e resolveram dar inicio às investigações inadiáveis daquele dia. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Quando chegaram ao hospital, foram informados que o homem não estava, nem nunca estivera, ali. Marcos e Roberta tentaram descrevê-lo e provar que não estavam loucos, mas a recepcionista entediada não se comoveu. Após muita insistência, ficaram sabendo que o homem tinha estado lá, mas havia sido transferido. Transferido para onde? Não sei, não tem nada na ficha. Isso é normal, um paciente ser transferido e não constar nada na ficha? A recepcionista deu um suspiro, como de quem estava fazendo um esforço sobre-humano para aturar aquela gente. Estavam ficando cada vez mais frustrados e mal-humorados, quando Renato resolveu apelar para o motivo pelo qual fora chamado para fazer parte do grupo. Pediu que seus amigos se sentassem e usou suas armas secretas: lábia, um corpo bronzeado, lindos olhos verdes, e um sorriso de propaganda de pasta de dente.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Roberta, do seu banco, olhava fascinada o tédio da recepcionista sumir e ela começar a dar risadinhas de adolescente. “Bom, ele tem que fazer &lt;em&gt;alguma&lt;/em&gt; coisa”, Alice resmungou, enquanto o papo ao balcão se estendia e Renato fazia avanços visíveis. Por via das dúvidas, Marcos e Alice tentavam bolar um plano B quando um homem moreno se juntou a Renato, e, dali a algum tempo, os dois se aproximaram do grupo. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Renato o apresentou como sendo padre Moacir, apesar de ser um homem jovem, de uns trinta e alguns anos, calças jeans e camisa quadriculada, a imagem mais distante de um sacerdote que Roberta podia conceber. Este não esclareceu o que havia acontecido com o ferido, muito menos o que sabia sobre o assunto, mas disse que gostaria de conversar e os convidou para tomar um café na sua casa, que ficava logo ali, ao lado da igreja. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;A casa em questão estava muito longe de ser o palacete do tio Antônio. Era simples, confortável, com algumas plantas esturricadas pelo calor na varanda, e uma sala cheia de móveis baratos e abarrotada de livros. Os quatro se sentaram na sala enquanto o padre desaparecia pela cozinha para preparar o anunciado café, sem entenderem o que faziam ali, e tentando ignorar o mal-disfarçado sorriso de auto-suficiência de Renato. Passada a antipatia inicial, o coração de Roberta se abrandou, pois se lembrou da conversa dos dois na cachoeira e que ele não era muito bem aceito, portanto devia degustar todos aqueles momentos em que dava um tiro certeiro. Em seguida, voltou a ficar dura de expectativa, querendo saber que novas surpresas lhe aguardavam naquele dia. Se a vida da Joana era tão emocionante, então provavelmente ela agora estava morta de infarto. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;O padre voltou com uma bandeja e algumas explicações. Que sentia muito pela forma como haviam sido tratados no hospital, mas que aquela era uma medida de segurança, pois acreditava que o homem que haviam levado para lá só estava vivo por milagre ou acidente. Quanto ao cadáver, desse não havia notícias. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Mas eu avisei sobre o corpo assim que chegamos aqui, não devem ter passado mais que cinco minutos! – Marcos protestou. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Isso já era de se esperar – padre Moacir respondeu. Quem matou aquele rapaz já fez um péssimo trabalho deixando o outro vivo. Provavelmente os cadáveres seriam escondidos quando vocês chegaram, e eles voltaram assim que vocês saíram. Bom, essa é a minha teoria. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-E o se... vo... o se... – Roberta começou, sem saber como se dirigir a um padre tão pouco típico. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Você – padre Moacir ajudou. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-E você também tem uma teoria sobre o motivo para terem tentado matar os dois? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Sim, tenho algumas hipóteses. O fato é que, já há algum tempo, desconfiamos que haja trabalho escravo em algumas das fazendas da região. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-O cara que a gente ajudou falou uns nomes: “Santa Maria”, “Zé” “e Carlinhos”. – Disse Marcos. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Bingo. – Fez o padre. - Santa Maria é uma fazenda daqui. Bom, o que eu tenho a propor é o seguinte. O Renato me falou que vocês são jornalistas e têm contato com organizações de direitos humanos. O que vocês acham de nos ajudarmos e investigar esta história? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Claro! – Alice respondeu por todos, com uma empolgação que não era exatamente apropriada para o momento. Roberta, desta vez, não se importou, pois não pretendia ficar nem mais um dia por ali. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;A cidade poderia ser definida como “uma rua que vem, uma rua que vai, e uma praça no meio”. Pessoas de aparência miserável andavam de um lado para o outro ou se encontravam no boteco, talvez esperando que algo sensacional – ou apenas diferente – acontecesse. Alguns poucos jovens endinheirados apareciam de vez em quando, dirigindo caminhonetes, fazendo barulho, mas nunca se demorando por muito tempo. E era só. Se aquela cidade implodisse, provavelmente o resto do país não sentiria a menor falta. E, naquele espaço de terra minúsculo perdido no fim do mundo, um padre com ar de homem comum resolve lhe dizer que escravidão ainda existe. Fazia sentido, não fazia? Ela poderia ter cruzado as fronteiras do seu país sem perceber, ou então, em um lugar tão pequeno e esquecido, a notícia da abolição poderia ter passado despercebida e continuado ignorada por mais de um século. Havia ainda a terceira hipótese, a mais tranqüilizadora de todas, de que tudo era parte da sua alucinação, escravos não existiam e homem algum havia sido assassinado. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Por isso, estava indo embora. Sentia-se curiosa, sim, e infinitamente triste por não poder dar continuidade à sua história com Marcos, mas não queria terminar com um buraco de bala na cabeça e os olhos espavoridos, jogada em um canto da estrada. Quando chegasse à fazenda, iria direto para a cama, e não sairia dali enquanto não acordasse, de volta ao seu apartamento bege. Ou, ao menos, enquanto não começasse a alucinar com Tom Cruise em uma ilha deserta, estilo Lagoa Azul.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2340667380035569147-1210516780659928944?l=memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/feeds/1210516780659928944/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2340667380035569147&amp;postID=1210516780659928944' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/1210516780659928944'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/1210516780659928944'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/2008/09/captulo-7-padre-moacir.html' title='Capítulo 7 - PADRE MOACIR'/><author><name>Nome: Malu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16298942119359110223</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2340667380035569147.post-5161174753796325199</id><published>2008-09-08T22:41:00.002-03:00</published><updated>2008-09-08T22:51:48.633-03:00</updated><title type='text'>Capítulo 6 - UMA NOITE FORA DO COMUM</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Fotos feitas, Marcos propôs que fossem conhecer a cidade, ou aquele agrupamento de luzinhas que haviam visto dois dias antes. Roberta topou.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Topou porque havia percebido, por contraste, que estava se divertindo. E se divertindo muito! Topou porque era muito bom, muito libertador estar louca. Topou porque os bons momentos eram única e exclusivamente dela, e os problemas eram de outra. Topou também porque havia passado um dia simplesmente perfeito, e não queria que ele terminasse. Não queria dormir, tinha medo de acordar no seu apartamento bege, o que sem dúvida a mataria, por isso agarraria aquele dia e só o soltaria quando ele lhe desse um pontapé e a mandasse de volta para a realidade.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-O que é aquilo? – Ela perguntou, distraída, ao notar um movimento na beira da estrada.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Marcos diminuiu ainda mais a velocidade. Estava escuro, principalmente naquele fim de mundo, mas definitivamente havia alguma coisa negra se mexendo. Ele desceu do carro e voltou para verificar, e Roberta, que o observava da janela, o acompanhou quando o viu fazendo sinal para que ela se aproximasse.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;A “coisa negra” era um enorme saco de lona e, já bem menos feliz e um tantinho apavorada, Roberta ajudou Marcos a livrar dele o autor do movimento. Foi então que viu o rosto de um homem, olhos vidrados dos quais não se esqueceria nunca e um buraco de bala na cabeça. Teria gritado se tivesse voz, mas sua garganta estava seca e só deixou passar um ruído. Quem havia se mexido, obviamente, havia sido um outro homem, coberto de sangue, que balbuciou um pedido de ajuda.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Marcos correu para o carro e deitou o banco do carona, onde ele acomodou o homem ferido enquanto Roberta, esquecida das boas maneiras, vomitava o que havia e o que não havia comigo no piquenique. Sabia o que Marcos tinha em mente, mas pensava não ter coragem de entrar no carro ao lado daquele homem, embora a outra alternativa, ou seja, ficar na estrada escura e deserta ao lado de um cadáver, também não fosse nem um pouco tentadora. Não lhe foi dada opção. Marcos levantou o banco do motorista e apressou Roberta, que precisou de todas as suas forças para entrar no carro e não vomitar novamente. O homem estava em estado de choque, continuava pedindo ajuda e falava frases incompreensíveis, e tudo o que Roberta conseguiu entender foram as palavras “Santa Maria”, “Zé” e “Carlinhos”.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Por fim, chegaram ao aglomerado de luzinhas. A cidade começava e praticamente terminava em uma praça, em volta da qual se encontravam todos os serviços do local, ou seja, uma igreja, a prefeitura, um posto telefônico e agência de correio, um boteco e um prédio caindo aos pedaços com uma cruz vermelha pintada na frente, e foi para este último que Marcos carregou o homem, enquanto Roberta tremia do lado de fora. Por um instante pensou estar presa dentro de um dos filmes que vivia assistindo, mas descartou a idéia imediatamente, pois nunca, em filme algum, havia visto olhos como aqueles. Os olhos do morto. Como se morrer não fosse triste o suficiente, aqueles olhos refletiam tanto pavor, tanto horror, tanto desespero congelado para sempre em um rosto sem vida. Deveria ter entrado no hospital também, era o que Joana faria, mas aqueles olhos não a deixavam se mexer.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Marcos voltou algum tempo depois, e suas roupas molhadas diziam que ele havia tentado, com sucesso duvidoso, se livrar do sangue do homem ferido.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Vamos tomar alguma coisa? Não dá pra dirigir agora.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Não, não dava. Não dava nem para sonhar em entrar naquele carro. Foram até o boteco, onde alguns homens jogavam cartas e os olharam com alguma curiosidade. Provavelmente haviam visto Roberta e Marcos quando estes chegaram ao hospital, mas certamente gostavam de economizar palavras e estavam acostumados demais com tragédias para gastá-las perguntando o óbvio. Um dos homens se levantou para atendê-los quando os dois amigos se sentaram a uma mesa na calçada, e Marcos pediu dois copos de aguardente. Quando estes chegaram, Marcos virou o seu de um só gole, e Roberta o imitou.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Sua cabeça imediatamente começou a rodar. Era isso, aquele era o momento, o pesadelo estava acabando e, quando o mundo parasse de girar, ela estaria deitada em seu velho e conhecido sofá, o diário aberto ao lado, por favor, meu Deus, tomara que eu acorde, isso não é mais divertido, eu quero sair daqui, eu quero esquecer aqueles homens, ninguém deveria ter morrido, por favor, meu Deus, por favor, por favor, eu só quero voltar para casa, me tire disso, por favor, me tire disso.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;O mundo se estabilizou novamente e Roberta estava sentada em uma cadeira, a uma mesa de bar, pisando em um chão de terra, levemente consciente de que Marcos alisava o seu cabelo.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-O que foi aquilo? – Ela balbuciou, distante.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não sei – ele respondeu, igualmente abalado. E acrescentou: - Amanhã a gente descobre.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Roberta concordou, pois sabia que Marcos não esperava outra resposta de Joana. No fundo, sentia-se apavorada com a possibilidade de investigar qualquer coisa. Mais que isso, estava quase em pânico, drenada além de toda a sua energia. Queria ir para o seu quarto e dormir, dormir, dormir até que o seu corpo se fundisse com o colchão. Ou, para ser um pouco mais ambiciosa, queria estar muito longe dali.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Marcos pegou a mão gelada da amiga e os dois caminharam juntos até o carro, cujo banco traseiro estava ensopado de sangue. Aquela visão provocou um mal-estar imediato em Roberta, que murmurou, ainda sem coragem de entrar:&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu queria não ter de andar nessa coisa.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Acho que a gente não tem opção – disse Marcos, que esperava pacientemente ao seu lado. – Já devem estar preocupados com o nosso sumiço, e você não gostaria de voltar a pé, gostaria?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Roberta gostaria, sim, mas sabia que não poderia dar aquela resposta. Por outro lado, se ela iria mesmo se transformar em Joana para sempre, então havia algo que precisava saber:&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Você já viu alguma coisa que seja remotamente parecida com o que vimos hoje?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Felizmente, ele não riu e a lembrou da chacina da semana anterior. Muito pelo contrário, apesar de Roberta ter sido a única responsável pelo espetáculo de pirotecnia estomacal, Marcos não parecia estar em estado muito melhor que ela. “Não”, ele fez, lentamente, com a cabeça. E ela se sentiu um milésimo melhor.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Certo, agora realmente precisava entrar no carro. Joana era forte, curiosa, decidida, e ninguém mandava nela. Joana faria o que precisava ser feito. Um pé, depois o outro, e ela poderia voltar para casa e dormir e rezar para que a sua alucinação passasse para sempre. Isso, muito simples, bastava entrar no carro e... Roberta começou a chorar. Não importava o que Joana fosse, ela era fraca, indecisa e não queria mais fingir. Não achava &lt;em&gt;justo&lt;/em&gt; ter de fingir. Não pedira aquela aventura, não chamara por aquele corpo, não tivera intenção de ver coisa preta alguma se mexendo na estrada, não tinha de estar ali, e pouco importava que Marcos descobrisse a farsa. Tudo o que queria era voltar para casa, sentar no seu sofá e assistir aos seus filmes, como era o direito de qualquer ser humano.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Marcos não descobriu farsa alguma. Segurou o seu rosto, beijou uma lágrima, depois outra, e por fim a beijou na boca, um beijo longo e doce e com gosto de passado. Um beijo sofrido, doído, cheio de saudades e de mal entendidos, com gosto de medo, de desafio, e, contraditoriamente, um beijo exultante. Um beijo maravilhoso e tão conhecido, tanto que aquela pergunta inexplicável escapou dos lábios de Roberta: “Por que esperamos tanto tempo?”, e Marcos simplesmente respondeu: “Eu não sei”.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Quando chegaram à fazenda, Alice os esperava no pátio, à espera de explicações, com ar de esposa que ficara de castigo na cozinha enquanto o marido se divertia no bar. Roberta disse apenas um “aqui não”, antes que se enfiassem todos no quarto que as duas mulheres dividiam, e o dia fosse passado a limpo. Bom, em termos. Contaram o episódio da estrada, e imediatamente os olhos de Alice ficaram do tamanho de dois pires, e dois pires grandes, e ela começou a metralhar palavras, isso era incrível, precisavam investigar, iriam ao hospital logo que o dia amanhecesse, todos devia estar na sala às oito em ponto, oito horas e nem um minuto a mais, quem poderia imaginar, que coisa incrível, que sorte. Roberta estava exausta e achava que, o que quer que tivesse acontecido, estava muito distante da palavra “sorte”, mas havia sido fatalmente alvejada por todos os acontecimentos do dia e só queria se deitar. Marcos, que certamente também se sentia drenado, não demorou muito a se despedir e, abençoadamente, Renato o seguiu. Roberta deitou e fechou os olhos enquanto Alice ainda falava.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2340667380035569147-5161174753796325199?l=memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/feeds/5161174753796325199/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2340667380035569147&amp;postID=5161174753796325199' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/5161174753796325199'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/5161174753796325199'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/2008/09/captulo-6-uma-noite-fora-do-comum.html' title='Capítulo 6 - UMA NOITE FORA DO COMUM'/><author><name>Nome: Malu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16298942119359110223</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2340667380035569147.post-2633726579215822995</id><published>2008-09-07T20:10:00.002-03:00</published><updated>2008-09-07T20:38:06.361-03:00</updated><title type='text'>Capítulo 5 - UM PIQUENIQUE E ALGUMAS EXPLICAÇÕES CONFUSAS</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;p&gt;“Acorde, por favor, eu estou te esperando, eu te amo”&lt;/em&gt; &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Roberta abriu os olhos, e pela primeira vez ficou feliz ao ver que ainda estava presa na sua alucinação. Estava mais que feliz, estava exultante, apesar de ter passado boa parte da noite em claro, ouvindo as confidências que Alice insistia em fazer e que ela definitivamente não queria ouvir. Afinal, havia descoberto algo maravilhoso no dia anterior. Havia descoberto que cachoeiras existiam.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Vestiu seu biquíni azul e quase morreu de decepção ao ver que a mesa não estava posta, por isso invadiu a cozinha com a sensação de ter absorvido um pouco do Prozac de Alice junto com a conversa, e deu de cara com a empregada mal-humorada e menos muda, que grunhiu que o café estava quase pronto. Engoliu o líquido fumegante na maior velocidade possível sem que queimasse todo o seu aparelho digestivo, e saiu porta afora, agora levemente inquieta com a possibilidade de se perder no caminho que só percorrera uma vez.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Não se perdeu, a trilha estava gravada na memória da alma que achavam ser a sua, e ela chegou ao paraíso alguns segundos mais tarde, àquela explosão de verde e azul que a obcecava desde a manhã em que Renato a pegara no colo e quase a afogara. Era isso! Pensou, enlouquecida. Era por causa disso que tinha ficado louca, estava vivendo uma vida eletrônica e enclausurada, e a sua alucinação tinha como único motivo lhe lembrar que havia coisas simples e gratuitas e maravilhosas na vida. Arrancou o vestido e se atirou na água gelada.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Já estava há um bom tempo boiando e com aquela sensação deliciosa do sol queimando as partes expostas do seu corpo, quando ouviu:&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Jô!&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Roberta ficou de pé. Era a primeira vez que reagia automaticamente ao ouvir aquele nome. Virou-se e viu Marcos sobre uma pedra, segurando uma mochila.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Como você sabia que eu estava aqui? – Falou, embora já soubesse a resposta:&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Onde mais você estaria? Vou tirar umas fotos da plantação. Quer vir? – Ele lhe perguntou.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu preciso me secar – Roberta respondeu, percebendo que a única coisa melhor que a cachoeira seria voltar à plantação.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Marcos abriu a mochila e dela tirou uma toalha. Roberta riu, era mais forte que ela. O bom de se estar louca era que bastava imaginar alguma coisa para que esta acontecesse.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Você pensou em tudo – falou, saindo da água e pegando a toalha estendida.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Deixe eu ver. Trouxe uma toalha, consegui o Pedro, trouxe suco e sanduíches. É, acho que está tudo aqui.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-E por que esse trabalho todo? – Roberta perguntou, sentindo borboletas no estômago.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Tá, eu tive a idéia da toalha, e as chaves estavam dando mole na sala. Quando eu estava saindo, a sua tia perguntou o que eu ia fazer e mandou o suco e a comida. Satisfeita?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Muito. Entraram no carro e dirigiram pelo caminho que desta vez pareceu bem mais curto, chegando à plantação no que só podia ser a hora do almoço. Várias pessoas estavam sentadas e comendo de marmitas, muitas delas usando as mãos como se fossem talheres, e algumas das crianças-velhas do dia anterior tinham se transformado em crianças-crianças e brincavam, correndo e aos gritos, por entre os pés de cana. Roberta olhou para Marcos, insegura. Ele abriu a mochila e dela tirou uma câmera super poderosa, enquanto a nossa protagonista ainda estava meio perdida, sem saber o que era esperado dela nem como deveria agir. Estava dividida entre permanecer no carro como a panaca que havia sido a vida inteira, ou iniciar um trabalho que era esperado dela, mas de cujo teor ela não fazia idéia. Por fim, aproximou-se de uma criança que terminava o almoço e, ainda incerta sobre o que fazer, tentou iniciar um assunto.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;O nome do menino era João, e trabalhava ali desde sempre. Agora Roberta estava mais segura, estava até curiosa, e pediu que João fosse mais específico. Desde sempre significava desde sempre, o garoto explicou, desde quando podia se lembrar. Não, não sabia ler nem escrever, mas não precisava disso, só o que precisava era saber cortar cana, e o fazia porque seu pai também trabalhava ali, e o pai do seu pai trabalhava ali, e o pai do pai do seu pai tinha trabalhado ali. Nisso, outras crianças, curiosas com aquela mulher desconhecida que não parava de fazer perguntas, se juntaram aos dois. Todas possuíam histórias incrivelmente semelhantes. Não haviam freqüentado a escola. Não tinham ambição alguma além de crescer, casar, ter filhos, e continuar trabalhando na plantação.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Roberta se lembrou de ansiar pelas férias de verão, por viagens com a família e sorvetes de casquinha. Lembrou-se de brincadeiras no play, do cinema aos domingos e do martírio do dever de casa, e se perguntou se alguma dessas coisas faria qualquer sentido para aquelas crianças caso o dissesse em voz alta. Não sabia se tivera uma infância abençoada ou se todos no mundo tinham direito ao mesmo que ela, mas seu coração doeu, seu coração ficou muito, muito pequeno porque nenhum daqueles garotos jamais conheceria a felicidade de comer um hambúrguer com batata frita, de furar ondas na praia, ou de trocar figurinhas na hora do recreio.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Vamos? – Marcos tocou o seu ombro, e ela se assustou ao perceber que ele ainda estava ali. Naquele momento, um adulto ríspido chamava todos de volta ao trabalho. Era hora de ir.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Fizeram um piquenique não muito longe, com o lanche enviado por tia Rosa, pois Marcos queria voltar e tirar mais fotos do fim do dia na plantação. Roberta, animada, contou sobre João e as outras crianças, e concluiu, indignada:&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Nós precisamos fazer alguma coisa!&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Jô, é por isso que estamos aqui – Marcos respondeu, confuso.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Roberta gaguejou um pedido de desculpas, dizendo que havia se deixado levar. Marcos sorriu, um sorriso de “eu sei” que não a deixava muito confortável, uma vez que parecia estar sempre seguindo os passos de uma pessoa que não existia além das páginas de um diário. E, se iria mesmo abraçar o papel e viver uma vida imaginária, então estava diante do seu maior desafio, da pessoa que conhecia Joana como ninguém e que sabia de todos os seus segredos. Por esse mesmo motivo, era muito difícil conversar. Não sabia nada a seu respeito, mas não podia perguntar o que ele fazia da vida, em que bairro morava, se tinha irmãos, nem outro clichê para se iniciar um assunto. Entretanto, não precisou se preocupar com isso durante muito tempo:&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu tive um motivo para te chamar para vir comigo – Marcos interrompeu seus pensamentos. E, apesar de ele só ter falado, e não vomitado, foi exatamente isso que ele fez: expulsou a frase que estava envenenando o seu corpo e tirando a paz da sua alma. De repente o sol ficou fosco, a atmosfera se alterou, e Roberta não tinha mais certeza se desejava ir adiante com a sua loucura.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Nós precisamos conversar – Marcos continuou, parecendo tão desconfortável quanto no carro, a caminho da fazenda. – Ou melhor, tem uma coisa que eu preciso te dizer.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Roberta ficou muda, pois só o que podia fazer era escutar.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Nós nunca falamos sobre o que aconteceu, e fiquei esperando para ver se o tempo daria conta de tudo. Mas você está diferente, nós estamos diferentes, e... Não sei, acho que só queria que você fosse a minha amiga de antes.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu &lt;em&gt;sou&lt;/em&gt; sua amiga de antes – Roberta interrompeu em um impulso, movida apenas pela vontade de confortar aquele homem triste na sua frente.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não é, não – Marcos devolveu a interrupção. Ele não a olhava nos olhos, o que era muito perturbador. E então foi a vez de Roberta vomitar:&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-É que eu estava dando um tempo.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;E, sem ter nem porquê, começou a lançar-lhe sua história. Que andava cansada, que não tinha vontade de procurar ninguém, que não sentia nenhuma mola a impulsionando nem via coisa alguma na linha de chegada, que estacionou no meio do caminho e ficou observando a casa do Tom Hanks cair, e que quando se deu conta já havia perdido todos os laços com o mundo e não conseguia retomá-los, mesmo que quisesse tentar, e não tinha sequer certeza se era isso o que desejava. Que não sabia realmente o motivo, mas que de repente precisou se afastar, que sentia um tédio tão grande que havia até perdido a vontade de lutar contra aquilo. Jogou-lhe as palavras e elas ficaram flutuando entre os dois, na expectativa que Marcos as recolhesse e as lançasse de volta, dizendo que aquela que estava na sua frente não era a Joana. Mas, por mais estranho que pudesse parecer, ele finalmente as pegou. E as guardou:&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Jô, vamos parar de dar outros nomes para tudo. Não foi tédio.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;E Roberta nem ao menos podia insistir, pois ele estava falando com outra pessoa. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu sei que você estava fugindo de mim. Nós nunca tivemos a chance de conversar sobre o assunto. Aliás, tivemos uma, que eu aproveitei muito mal – Marcos disse, escolhendo as palavras com cuidado. Roberta não sabia como agir, pois tinha a impressão que deveria estar se sentindo tão desconfortável quanto ele. – Eu só queria que você soubesse que eu não fugi. Pelo contrário, eu te procurei se parar. Mas logo que a gente voltou do norte você foi para a casa da Alice, só fui descobrir muito tempo depois, e ainda assim você nunca atendia aos meus telefonemas. Eu só fui saber sobre o... – ele hesitou, e depois pareceu tomar coragem para continuar: - ... o aborto naquele dia, no seu apartamento.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;A palavra caiu pesada sobre a grama e ficou olhando para Roberta, querendo saber o que esta faria com ela. Roberta a pegou, curiosa e enojada, e a manipulou para saber se ela seria como massinha de modelar, se poderia mudá-la a forma e transformá-la em algo um pouco mais agradável. Não era. Era feia e sólida. Joana estivera dando um tempo, e não foi por acaso. Qualquer um teria dado um tempo se tivesse uma aberração como aquela em mãos.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu não sei o que dizer – ela respondeu, e não sabia. Havia uma situação com a qual não tinha a experiência nem a carga emocional para lidar, havia uma suposta melhor amiga que lhe contava confidências sem saber que Marcos e Joana já haviam se envolvido o suficiente para que esta ficasse grávida, havia um dia até então perfeito e um segredo horroroso. E havia um homem na sua frente com os olhos mais lindos e doces do mundo, que se desculpava e pedia a sua amiga de volta.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Passou, está tudo bem – ela achou seguro responder. E ele sorriu. Encorajada, ela continuou: - Estamos aqui, não estamos? Agora está tudo bem. – E, levantando-se, deu-lhe um beijo no rosto e falou:- Vamos fazer aquelas fotos?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Não era fácil estar naquele papel, mas era muito mais fácil do que fingir ser a melhor amiga da Alice. Era maravilhoso saber que havia colocado um sorriso no rosto de alguém, e melhor ainda que fosse no de Marcos. Roberta guardou os restos do piquenique e caminhou com Marcos para o Pedro, largando a palavra hedionda sobre a grama, sem olhar novamente para aquele monstrengo com o qual, de qualquer forma, cabia a Joana lidar.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2340667380035569147-2633726579215822995?l=memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/feeds/2633726579215822995/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2340667380035569147&amp;postID=2633726579215822995' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/2633726579215822995'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/2633726579215822995'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/2008/09/captulo-5-um-piquenique-e-algumas.html' title='Capítulo 5 - UM PIQUENIQUE E ALGUMAS EXPLICAÇÕES CONFUSAS'/><author><name>Nome: Malu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16298942119359110223</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2340667380035569147.post-5471224221682637727</id><published>2008-09-06T23:18:00.003-03:00</published><updated>2008-09-06T23:25:14.465-03:00</updated><title type='text'>Capítulo 4 - O DIA SEGUINTE</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;p&gt;“Acorde, por favor, acorde, não me deixe sozinho, acorde.” &lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Presa na fronteira entre sonho e vida real, com aquelas estranhas palavras ditas por uma voz masculina que lhe soava familiar e a sensação de que seguravam a sua mão, Roberta se ajeitou melhor sob o edredom e pensou, sem abrir os olhos, que o ar tinha um perfume delicioso e que aquele era um dia perfeito para checar se passariam um filme novo na TV. Ainda com os olhos fechados, à medida que o sonho ia ficando para trás, constatou também que sua cama estava mais dura, que a luz estava errada, e que havia alguém ressonando no mesmo quarto que ela. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Caiu de novo, desta vez para cima, quando se sentou de um salto na cama. Ela continuava na fazenda &lt;p&gt;.&lt;br /&gt;Sentindo-se profundamente infeliz e irremediavelmente louca, vestiu suas roupas de iniciar o dia e resolveu checar se alucinações tomavam café. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Quando abriu a porta do quarto, um cheiro delicioso de café fresco a envolveu. Aproximou-se da mesa inteiramente posta com vários tipos de pães e queijos, manteiga, bule e mais jarras de suco, onde não havia ninguém além de Marcos, o gigante louro e objeto de desejo da enjoada da Alice. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Bom dia – ele sorriu, parecendo estranhamente constrangido. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Bom dia – Roberta respondeu, dando-se por vencida e sentando. Seus gestos foram automáticos. Ela se serviu de uma xícara de café sem açúcar e começou a bebê-lo, pensando que assunto poderia ter com uma alucinação. Marcos olhava para ela, um estranho sorriso nostálgico nos lábios. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Continua passando metade do dia só com um café preto? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-É – Roberta respondeu, primeiro porque era verdade, apesar de não desconfiar como Marcos podia saber disso, e segundo porque não conseguia pensar em mais nada para dizer. Rapidamente o sorriso deixou o rosto dele e ele tornou a parecer pouco à vontade. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Jô, estive pensando. Se o seu tio vai mesmo viajar, talvez fosse melhor esperarmos para começar o trabalho. A gente vai ter mais liberdade. O que você acha? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Boa idéia – ela soltou, por achar que era a resposta correta. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-E enquanto isso, que tal se você nos mostrasse a tal da cachoeira onde você nadava pelada – ele tentou fazer uma brincadeira, e Roberta não conseguiu reprimir o sorriso e a ardência no rosto. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Cachoeira? Oba, tô dentro – Alice respondeu, entrando na sala, com uma felicidade de quem havia tomado uma caixa de Prozac. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Roberta foi vestir o biquíni azul pensando que, com exceção de ter de fingir que gostava da Alice, até que aquela alucinação não era das piores. Nos filmes, os esquizofrênicos eram sempre perseguidos por monstros ou fantasmas do passado, ouviam vozes mandando assassinar alguém e, sob o ponto de vista das pessoas normais, eram vistos gritando e xingando um espaço vazio. Se o máximo que a sua doença exigia dela era tomar um banho de cachoeira com dois homens bonitos e de quem, por alguma misteriosa razão, ela gostava e muito, então poderia ficar louca mais um pouco. Ao menos, era melhor que ver a casa de Tom Hanks desabar pela milésima vez. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Os quatro tomaram uma trilha de terra que se iniciava por entre as árvores ao fundo da casa, e andaram por uns bons dez minutos, pisando em folhas secas, ouvindo o barulho dos bichos e trocando brincadeiras. A hostilidade entre Alice e Renato estava ali e era palpável, mesmo que nenhum dos dois tivesse iniciado o bate-boca do dia anterior, ao contrário, Renato ia contando piadas infames que ouvira em mesas de bar, e Alice havia se afastado um pouco, para caminhar ao lado de Marcos. De repente, as árvores se abriram em uma visão de paraíso, deixando ver um pedaço de céu azul, uma cascata que parecia feita de cristais e uma piscina natural, onde Marcos e Alice mergulharam segundo depois. Sentindo uma comichão de expectativa, Roberta tirou suas roupas de continuar o dia e as dobrava cuidadosamente sobre uma das pedras quando Renato a pegou no colo e a atirou dentro d’água: &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-O quê? Como? – Ela arfou, tirando o cabelo do rosto e checando se o biquíni continuava a cobrir as partes certas. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Renato, que havia mergulhado logo depois dela, sorriu e disse: &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu queria agradecer. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Você não podia ter dito “obrigado”? – Roberta gritou, ainda em choque. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Renato deu um sorriso sedutor e planejado que ela sabia, com sua recém-adquirida capacidade de ler mentes imaginárias, que não era dirigido a ela em particular, e sim a todas as mulheres às quais ele se dirigia. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-O que foi? – Roberta perguntou, incomodada com o sorriso. Este mudou e ficou bem mais franco. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-É sério. Ninguém acreditava muito em mim, algumas pessoas não acreditam até hoje, e sei que você teve um trabalhão quando me colocou no grupo. Eu queria agradecer. De verdade. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Roberta foi invadida por uma inexplicável doçura, mas não pôde responder, pois Alice, ainda parecendo estar viajando em Prozac, propôs uma briga de galo. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Depois do almoço, entraram em um jipe com Marcelo, um homem truculento, de óbvios ancestrais indígenas, e tão mal-humorado e mudo quanto a empregada, e foram conhecer a plantação. Dirigiram por tanto tempo que Roberta pensou estar enganada, era claro que eles não podiam estar ainda na fazenda, talvez houvessem combinado visitar algum outro lugar e ela tivesse entendido mal. Até que, por fim, o jipe parou. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Estavam diante de uma plantação a perder de vista. Morta de medo de descer do jipe, mas sem conseguir uma desculpa para não seguir os seus "amigos", Roberta caminhou por entre pés de cana que davam para abastecer o país inteiro. Havia mais trabalhadores do que podia contar, alguns concentrados e manejando facões temerários, outros recolhendo os pés de cana cortados e os levando a enormes depósitos, várias dessas pessoas com alguns dedos da mão faltando. Fascinada, Roberta não conseguia desviar os olhos, principalmente ao ver que muitos nem eram adultos, mas todos, crianças ou não, possuíam rostos centenários de quem presenciara a criação do mundo. Suas mãos começaram a coçar, e imediatamente seu pensamento se voltou para o bloco barato que havia sido trazido em sua bagagem. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Ainda não – ela ouviu uma voz. Virou-se com o susto, e viu que Marcos estava ao seu lado. Por um momento havia se esquecido completamente que seus amigos imaginários estavam com ela. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Eu não fiz nada! – Protestou. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Para sua total estranheza, Marcos lhe deu um sorriso que não era constrangido, mas sim de quem a conhecia há tempo demais para se deixar enganar. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não, mas pensou. Só quando o seu tio viajar, lembra? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Era muito desaforo receber ordens de uma alucinação, não que ela soubesse o que deveria fazer agora ou quando tio Antônio viajasse. Colocou as mãos na cintura, um gesto que fazia desde as suas má-criações quando tinha cinco anos de idade, e Marcos deu uma gargalhada. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Você não manda em mim! – Respondeu, sabendo que soava infantil, mas incapaz de se controlar. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Ninguém no mundo manda em você – Marcos disse, desta vez sério, e Roberta reparou pela primeira vez que ele possuía os olhos mais doces que ela já vira na vida. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Naquele momento, a pulga-loura-alucinada o chamou e, enquanto ele se afastava, Roberta foi atingida por um conhecimento que agora lhe era tão claro que ela não sabia como não se dera conta antes. Não era Alice, era Marcos. Era Marcos o melhor amigo de Joana, aquele que sabia todos os seus segredos, que conhecia a razão de todas as suas risadas e de todas as suas dores. Era nele que ela confiava, para quem telefonava em várias horas do dia, que ouvia suas abobrinhas, seus sonhos e suas dúvidas. Se havia alguém naquela loucura toda que pudesse lhe fornecer alguma explicação, que a pudesse guiar, era ele, só ele, seu melhor amigo no mundo inteiro. E aquele pensamento lhe deu uma incomparável sensação de conforto.&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2340667380035569147-5471224221682637727?l=memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/feeds/5471224221682637727/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2340667380035569147&amp;postID=5471224221682637727' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/5471224221682637727'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/5471224221682637727'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/2008/09/captulo-4-o-dia-seguinte.html' title='Capítulo 4 - O DIA SEGUINTE'/><author><name>Nome: Malu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16298942119359110223</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2340667380035569147.post-1493848938052963906</id><published>2008-09-05T18:47:00.001-03:00</published><updated>2008-09-05T18:51:47.839-03:00</updated><title type='text'>Capítulo 3 - A PARTIDA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Os dias eram todos iguais. Todos. Completamente. Iguais. Sair da cama. Lavar o rosto. Colocar a roupa de início de dia. Pegar o guia de programação da TV. Levá-lo à cozinha para folheá-lo enquanto preparava o café.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;?!&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Em estado de choque, Roberta retrocedeu seus passos da cozinha à sala e, morrendo de medo, virou-se para a porta. Havia visto direito. Uma das suas bolsas de viagem estava ali, pronta e estufada. “Não! Isso não pode estar acontecendo!”, ela ainda conseguiu pensar, e um segundo depois a campainha tocou.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Bom dia! – Disse André, animado, assim que ela abriu a porta. – Vim pegar a chave para molhar as plantas.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Roberta não possuía plantas, mas André também não existia, então achou que não correria muito risco do seu apartamento ser alagado ou de sua chave aparecer na mão de ladrões. Sem conseguir pronunciar uma palavra sequer, lhe estendeu o chaveiro reserva, enquanto ele se abaixava e colocava a alça da bolsa de viagem no ombro.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Vamos? A Alice já deve estar chegando.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Ainda muda e apavorada, Roberta o seguiu escada abaixo. O que a consolava era que as alucinações não duravam muito, e logo ela reaparecia em seu apartamento, com o maldito caderno por perto. A diferença era que, quando acordasse daquela vez, sua primeira atitude seria queimar o diário. A segunda, procurar um psiquiatra.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Pararam na calçada, um ao lado do outro, Roberta olhando para frente, o corpo inteiro duro de tensão e fingindo não notar que André a olhava com sua cara de Professor Pardal. O fato de morar em uma rua calma, que fora um dos atrativos daquele apartamento na época em que o comprou, de repente se transformou em um ingrediente assustador.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Tá tudo bem, Jô? – Ele perguntou, e ela assentiu rapidamente, ainda olhando para frente, com medo que alguém passasse e a visse concordando com o vazio. A alucinação-André parecia estar com o falador aberto, e continuou: - Não sei bem o que aconteceu, mas você vai tirar de letra. É isso que está te faltando, uma aventura. Assim que pegar a estrada você vai voltar ao que era antes, você vai ver. Olha, a Alice chegou! – Exclamou quando um Fiat branco dobrou a esquina. O carro parou em frente a eles, e dele saíram Alice, Marcos, o gigante louro, e Renato, o moreno playboy, todos parecendo animados e cumprimentando André e Roberta com alegria. André colocou a bolsa de viagem no porta-malas já cheio, beijou as garotas, deu tapinhas nas costas dos rapazes, disse que estava morto de inveja e que ficaria à espera de notícias.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Enquanto o carro percorria a única via de saída da cidade, Renato, feliz como uma criança, começou o interrogatório. A fazenda tinha alguma cidade próxima? Tinha cachoeira? Tinha piscina? Para salvar Roberta de perguntas que ela não fazia idéia de como responder, Alice o cortou, levemente mal humorada, dizendo que não estavam indo passar férias. Um ligeiro bate boca teve início, Renato reclamando que aquilo não era impedimento para que eles se divertissem um pouco, Alice, com pose de chefe, argumentando que o problema era Renato gostar de se divertir demais, e a conversa fez Roberta parar de se perguntar se estaria, naquele momento, sentada na calçada em frente ao seu prédio fazendo barulho de motor com a boca. Havia uma hostilidade tão grande entre aqueles dois que era um milagre ainda restar animação no carro. Ela olhou para Marcos, sentado no banco do carona ao lado de Alice, e percebeu que ele não se dava conta que uma briga estava prestes a estourar. Será que ela havia sido dotada de uma incrível capacidade de ler mentes de alucinações? Marcos procurava uma fita no porta-luvas, era óbvio que ele estava desconfortável, mas Roberta tinha certeza que seu desconserto não se devia ao fato de Renato gostar de se divertir demais ou não. Aliás, o único sinal que ele deu de que estava ouvindo a conversa foi quando Renato mencionou uma certa viagem ao norte, momento em que Marcos pareceu congelar com uma fita na mão e olhar rapidamente para Roberta através do espelho.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Foi uma viagem longa. Enquanto Janis Joplin cantava no toca-fitas, Roberta fechou os olhos e chegou a cochilar, mas, quando acordou, não estava de volta à sua casa, e sim no carro ainda em movimento. As casas haviam sido deixadas há muito para trás e a noite caía rapidamente, trazendo uma sensação de sonho que combinava muito bem com o fato de estar viajando para um local desconhecido com pessoas inexistentes. Finalmente, algumas luzes se aproximaram, e eles entraram em uma cidade que terminou antes mesmo que Roberta se desse conta que estava ali. Continuaram por uma estrada de terra logo que as luzes ficaram para trás, dirigiram por mais alguns minutos, e dali a pouco atravessaram um portão de madeira que havia sido aberto para eles.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Alice estacionou o carro em um pátio, ao lado de uma pick-up. Assim que colocou os pés para fora, Roberta foi saudada pelo barulho assustador de cigarras, grilos, sapos, e milhares de criaturas que ela nunca sonhou que existissem fora da televisão. Olhou para o alto e levou outro susto, pois o céu possuía tantas estrelas que chegava a ser prateado. E o cheiro, um cheiro puro de verde que ela se lembrava de ter sentido em outra vida.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Até que enfim!  - Um senhor gordo e rosado veio em direção a eles, com os braços abertos e um enorme sorriso. – Oi, minha princesa – ele segurou o rosto de Roberta e lhe deu um beijo estalado em cada bochecha. – Ô Alice, você não vai trocar essa carroça, não?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-O Pedro não é carroça, e é insubstituível – Alice resmungou.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Quando eu for à capital, nós vamos à concessionária de um amigo meu, e ele vai fazer um bom preço para você comprar um carro decente – aquele que só poderia ser o tio Antônio ofereceu, ignorando o bico de Alice.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Vocês demoraram! – Foi a vez de uma senhora, também gorda e rosada, se aproximar e plantar dois beijos no rosto de Roberta.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-É claro, Rosa, a menina não troca o carro.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Em meio a apresentações e implicâncias inocentes, as malas foram carregadas para dentro e, os quartos, mostrados. Alice e Roberta dividiriam um quarto da enorme casa senhorial ao lado do de Marcos e Renato, e em frente à sala, de onde vinham cheiros deliciosos à medida que a mesa era posta para o jantar. Quando Roberta se sentou, foi difícil segurar o queixo diante de tanta fartura. Havia carne de porco e de vaca, arroz, feijão, lingüiça, aipim, salada, duas jarras de suco e duas garrafas de vinho, todos trazidos por uma empregada muda e mal humorada. Antônio abriu o vinho e, após o brinde de boas-vindas, explicou tudo o que estava à disposição dos seus hóspedes:&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não tenho muito, mas podem usar de tudo – tio Antônio falou, apesar de morar em um palácio. – A primeira coisa que a Joana provavelmente vai mostrar para vocês é a cachoeira. Ela adora, não é, Joanita?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Roberta fez que sim com a cabeça, com a boca cheia, achando que era melhor concordar com tudo enquanto o mundo real tirava férias.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Ah, é o lugar favorito dela, ela adorava tomar banho lá pelada quando era criança – tia Rosa acrescentou e, apesar de não ser a Joana, Roberta quis sumir de vergonha.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-E a plantação? A gente pode conhecer? – Marcos perguntou.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Mas é claro que sim! – Tio Antônio respondeu, o rosto ainda mais vermelho devido ao vinho. – Eu vou precisar viajar durante alguns dias, mas é só chamar o Marcelo, o gerente, que ele os leva lá com o maior prazer.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Duas horas e incontáveis pratos depois, coroados com uma torta de limão que, na opinião de Roberta, só poderia ser comparada a alguma experiência divina, ela se despediu e saiu meio cambaleante para o quarto, pois não se lembrava de ter comido ou bebido tanto em sua vida inteira. Além disso, ainda precisava investigar o conteúdo da bolsa de viagem, que a estava matando de curiosidade. Abriu o zíper, e constatou que todas as roupas que estavam ali eram suas, incluindo um biquíni azul da época em que não estava dando um tempo e ia à praia. No fundo da mala, encontrou um bloco barato, seu estojo, e o diário. Ela o abriu sem nem se dar conta do que estava fazendo.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Havia mais páginas em branco no início, e a primeira entrada, agora, correspondia a 27 de agosto:&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Chegamos. Saudade. Saudade dos meus tios, do cheiro de terra, do barulho dos sapos. Saudade da estrada e até das briguinhas bobas da Alice e do Renato. E mais saudade. Muita, muita saudade..&lt;/em&gt;.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-O que você achou? – Alice interrompeu sua leitura, entrando no quarto.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Do quê? – Perguntou Roberta, guardando o diário rapidamente como se ela realmente fosse a autora e não quisesse partilhar os seus segredos.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-“Do que”, nada, “de quem”! Ah, amiga, eu o dia inteiro me roendo para conversar com você sobre o Marcos, e você ainda me pergunta “do quê”?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Alice se aboletou na cama e começou um monólogo interminável, do qual Roberta depreendeu que devia estar ciente de que estava rolando algum clima entre sua companheira de quarto e Marcos, e que ela era a única confidente do segredo. Enquanto Alice falava com pouquíssimas pausas para tomar fôlego, Roberta vestiu a camisola e se deitou, sem prestar muita atenção, um pouco inquieta com o quanto sua suposta melhor amiga a incomodava, e louca para acordar na cama real do seu apartamento de verdade, mesmo que passasse o resto da vida sem provar a torta de limão da tia Rosa. Não demorou muito e os dez pratos do jantar e o vinho de tio Antônio fizeram seu efeito, e Roberta dormiu como uma pedra.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2340667380035569147-1493848938052963906?l=memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/feeds/1493848938052963906/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2340667380035569147&amp;postID=1493848938052963906' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/1493848938052963906'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/1493848938052963906'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/2008/09/captulo-3-partida.html' title='Capítulo 3 - A PARTIDA'/><author><name>Nome: Malu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16298942119359110223</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2340667380035569147.post-3075569841228166167</id><published>2008-09-04T21:08:00.002-03:00</published><updated>2008-09-04T21:36:07.807-03:00</updated><title type='text'>Capitulo 2 - A REUNIÃO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Roberta não acordou, ela caiu. O pêndulo do relógio tocou, marcando nove horas, o que fez seu coração dar um salto acrobático e, de repente, lá estava ela no chão da sala. Ainda confusa e dolorida, olhou ao seu redor e percebeu que era a manhã seguinte, e seu corpo reclamava porque havia dormido no sofá de dois lugares, o diário aberto e caído sobre o tapete. Com um pouco de medo, ela pegou o caderno e o fechou. Depois riu, enquanto ia ao banheiro. Não era óbvio demais? Havia dormido enquanto lia o diário e sonhado com ele. Era algo tão simples que provavelmente Freud nem havia se dado ao trabalho de explicar. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Mas, enquanto escovava os dentes, percebia que o sonho voltava à sua mente com maior e maior freqüência. Nunca se lembrava muito bem do que sonhava e, mesmo quando isto acontecia, a tendência era que seus sonhos se apagassem gradativamente a medida que o mundo real dava continuidade ao seu dia, não que continuassem vivos daquela forma, com a voz de Alice ainda ressoando na sua cabeça e, provavelmente era só uma ilusão, mas podia jurar que estava um pouco bronzeada. Aliás, se prestasse bastante atenção, seu ombro estava um pouquinho mais claro que o resto do braço, como se houvesse tomado sol de camiseta, e... &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Ah, deixa para lá, era melhor programar o seu dia. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Primeiro passo, uma xícara de café preto. Segundo, ler o guia de programação da TV para ver se, contra todas as probabilidades, passariam um filme inédito hoje. Bom, já que havia arrumado a despensa, talvez pudesse aproveitar a recém-inventada roupa de arrumação e colocar uma ordem no armário do seu quarto também. Ele não precisava realmente de uma organização, mas... Será que a pessoa que escreveu o diário se chamava Jô? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Então vamos, mais uma vez, acompanhar a linha de raciocínio de Roberta: &lt;p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;Não deixava de ser estranho, a tal da Alice ter usado no sonho um nome que ela ainda nem conhecia.&lt;br /&gt;Mas talvez ela tivesse realmente lido aquele nome no diário, embora estivesse com tanto sono que nem se lembrasse.&lt;br /&gt;Poderia dar uma olhadinha.&lt;br /&gt;Ah, que besteira, melhor arrumar o armário.&lt;br /&gt;Só uma olhadinha.&lt;br /&gt;Ok, se isso virou mesmo uma obsessão, vamos dar uma olhada e tirar essa história de nome da cabeça. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Roberta virou os adolescentes felizes no carro conversível, à procura de um nome na contra-capa. Nada. Olhou a folha que dizia que aquela se tratava da primeira matéria do caderno, nada. Então, dizendo a si mesma que ela estava segura na sua sala, que o chão não desapareceria de sob os seus pés e uma pedra da praia não surgiria em seu lugar, tornou a virar a página e... &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Em branco? Como era possível, se ela estava certa que o diário começava a ser escrito na primeira página? Havia sido ali, sem a menor sombra de dúvida, que iniciara a leitura na noite anterior. Intrigada, olhou a folha seguinte, que também estava em branco. Era na terceira página que a letra de Jô (?) recomeçava, agora com uma nova data: &lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;24 de agosto de 19- &lt;p&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Como havia combinado, André me telefonou hoje, logo que acabei de tomar o café da manhã.&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Roberta olhou instintivamente para o telefone, esperando que ele tocasse. Ao constatar que o apartamento continuava no mais absoluto silêncio, soltou uma risada nervosa e voltou para a leitura. &lt;p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ele marcou a reunião&lt;em&gt; para as três da tarde, na casa dele, dizendo que assim só precisarei subir as escadas e não poderei fugir. Francamente! Se eu estou bem, estou bem, se disse que não estou mais dando um tempo, então as pessoas deveriam me levar mais a sério. Bom, eu usei a palavra “francamente”, então é melhor ser franca: nem eu mesma estou me levando a sério. Odeio essa covardia, odeio esse frio no estômago que não tem nada a ver com a adrenalina de uma nova viagem, tem, sim, a ver com o pavor que eu estou sentindo de reencontrar todos pela primeira vez. Mas eu vou! Agora é questão de honra! E não há uma única primeira vez na vida que seja fácil, então vamos acabar logo com ela e passar para a segunda.&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E acabou. Roberta não descobriu o nome da autora, mas não deixava de ser interessante o fato de ambas estarem dando um tempo. Continuaria a ler mais um pouco para saber se a Jô realmente havia ido à reunião por livre e espontânea vontade, ou se André havia descido e a arrastado pelas escadas, mas a casa de Tom Hanks cairia dali a cinco minutos e ela ainda não havia feito a pipoca. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Depois do filme, Roberta almoçou. Estava lavando a louça quando seus olhos bateram no relógio barato da cozinha. Três horas da tarde. A hora da reunião na casa de André. Roberta morava no segundo dos três andares do seu prédio, um edifício antigo com interfone e sem um porteiro para o qual perguntar se havia algum André entre os moradores. Isso se a Jô tivesse realmente morado no seu apartamento. Ah, esquece, melhor arrumar o armário. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Em cada andar havia quatro apartamentos. No trezentos e um, a mulher maluca dos oito cachorros que provocavam um barulho infernal ao menor ruído. O trezentos e dois era impossível, sempre esteve vazio desde que ela se mudara para lá. O trezentos e três era daquele casal de velhinhos com quem ela havia cruzado algumas vezes enquanto ia à portaria pegar a correspondência e, finalmente, havia o trezentos e quatro, no qual ela já percebera algum movimento mas não nunca vira morador algum. Se aquele fosse o apartamento do André, ao menos ela poderia perguntar se ele conhecia alguma Jô e lhe entregar o diário, se livrando de uma vez do caderno, pois já começava a se sentir um tanto neurótica. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Sentindo-se inteiramente ridícula, Roberta pegou uma xícara e subiu as escadas. Seu plano era muito simples: tocar a campainha do trezentos e quatro, usar a manjada desculpa do vizinho sem açúcar, tentar descobrir o nome do morador e despachar a Jô, a Alice e a praia para longe, para todo o sempre. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Algo começou a incomodá-la, e muito, assim que chegou ao último degrau. Não era o fato de estar prestes a começar uma investigação. Não era o fato de estar parada em um corredor com uma xícara na mão, quando tinha mais o que fazer, como, por exemplo, arrumar o armário. Era o silêncio. Havia, sim, alguns sons, como os carros na rua ao longe, uma criança chorando ao fundo, mas não havia o latido dos oito cachorros, e eles só não começariam o estardalhaço ao ouvi-la se aproximar se estivessem todos mortos, uma idéia não de todo desagradável. De repente, Roberta ficou com medo, um medo bobo, sem fundamento, baseado no fato puro e simples da mudez dos cachorros, mas ainda assim um medo forte o bastante para virar pânico e fazê-la dar meia-volta e correr escada abaixo. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Epa! – Uma pessoa falou ao dar um encontrão com Roberta, quando esta estava quase de volta à segurança do segundo andar. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Desculpe – Roberta falou, quase desmaiando de alívio por encontrar alguém naquele corredor infernal, até se afastar um pouco e perceber que estava diante de ninguém mais, ninguém menos, que Alice, agora carregando uma sacola e com os cabelos presos por um arco, o que a lembrava incomodamente do livro Alice no País das Maravilhas. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Fugindo, hein? – Alice falou, em tom brincalhão. – Não, senhora, pode dar meia volta. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;E, quando se deu conta, ela a estava arrastando escadas acima pela mão livre, até a porta do apartamento trezentos e dois. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Os cachorros continuavam em silêncio, mas do interior do apartamento vinha um inconfundível som de música, que Roberta, mesmo em total estado de pavor, percebeu, e não entendia como não o havia escutado antes. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;A porta se abriu. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Chegou quem faltava! – Um homem moreno, muito alto, magro e usando óculos, estranhamente semelhante ao Professor Pardal, sorriu e a beijou no rosto. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-E, se não fosse por mim, ela não chegaria nunca, André – Alice falou, passando para ele a tal sacola, que estava cheia de latas de cerveja. – Eu a peguei tentando fugir. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Havia outras pessoas na sala, que não possuía muitos móveis além de almofadas e um aparelho de som. Os outros participantes da reunião se levantaram para cumprimentá-la enquanto André tirava a xícara de suas mãos com um olhar confuso, e Roberta gaguejava a sua desculpa:”A... Açúcar”. “Já começou a explorar”, André respondeu, bem humorado, saindo com a xícara e as latas de cerveja. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Saudades, Jô – um moreno de olhos verdes e ar de playboy a abraçou. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Muitas saudades! – Foi a vez de uma loura gigantesca e deslumbrante, pinta de modelo e roupas hippies, que a abraçou também, mas parecia bastante emocionada. – Que bom que você voltou! &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Em seguida, quem a abraçou como se não a visse há muito tempo foi a última pessoa da sala, um louro tão alto e tão nórdico quando a mulher, e que parecia igualmente tocado ao vê-la. Este, entretanto, não falou nada. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;A loura deu continuidade ao assunto que obviamente estiveram conversando antes que Roberta chegasse, e que dizia respeito ao gato que adotara. “Agora, espere para ouvir o nome”, disse o moreno playboy, ao que a loura respondeu:”Josué”, e não entendeu o motivo das risadas, por isso achou por bem acrescentar: “é uma homenagem ao meu avô”. O que era muito estranho, pois aquela mulher descaradamente européia não tinha a menor cara de quem possuía qualquer antepassado com um nome desses. Alice propôs que realizassem uma votação para escolher um nome para o gato, a loura respondeu que isso não estava em discussão, e logo André resolveu colocar ordem e dizer que era melhor que começassem a reunião. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Então, como eu disse a vocês, a Jô está voltando – ele fez um gesto em direção a Roberta e todos soltaram palmas e vivas. – Como presente de boas vindas, Jô, achamos que já está na hora de ir ver a questão da fazenda. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Roberta, que havia conseguido permanecer muda até aquele momento, sentiu que estava chegando a hora em que não haveria escapatória e ela teria de dizer algo. Abençoadamente, Alice tomou a palavra por ela: &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Pois o que temos de fazer é o seguinte. Ligue para o seu tio – ela disse para Roberta, - e diga que você e um grupo de amigos vai passar as férias lá. Ele é uma graça, vai ficar super feliz – ela acrescentou para o resto do grupo, como se fosse amiga intima do tio imaginário da nossa heroína. – E quem pode ir? Bom, precisamos de um fotógrafo. Você vai, não é, Marcos? – Ela perguntou para o louro, bastante derretida. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Claro – ele respondeu imediatamente. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Fechou, então. Eu, Marcos e Jô – Alice concluiu. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Ei, eu também vou – o moreno playboy protestou. Alice perguntou, com óbvia hostilidade: &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-O papai vai te dar férias novamente, Renato? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Não, o meu pai não precisa me dar férias, Alice, eu ainda tenho quinze dias que posso tirar – Renato devolveu, no mesmo tom. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Perfeito – André respondeu, alheio à quase briga que começava na sua sala. – Eu e Dani ficamos para já irmos fazendo os contatos. Que dia você acha que podem viajar, Jô? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Agora não poderia escapar. Roberta abriu a boca, e soltou a primeira palavra que lhe veio à mente. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Quarta? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Só temos três dias para organizar tudo, então, mas tudo bem, você está com pressa para voltar, dá para entender – André comentou, indo buscar um caderno preto de capa dura. Todos protestaram: “Ata, não!”, “Como você é panaca, André!”, Dani reclamou. André não deu ouvidos. Achou uma página na metade do caderno e começou a anotar, resmungando em voz alta “Fazenda dos tios da Jô... Jô, Marcos, Alice e Renato... Partida quarta-feira”. Assim que terminou, fez com que todos lessem e assinassem, Renato reclamou que o nome do gato não constava da ata, e de repente já estavam todos espalhados pela sala, batendo papo e tomando cerveja. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Ok, isso é só uma alucinação, pensava Roberta, sozinha em seu canto. Essas pessoas não existem, logo não vão ficar ofendidas se eu sair. Só espero que a porta não se abra para um buraco negro ou algo do gênero, não me importo nem de deixar a xícara para trás, é uma linda xícara e a minha cozinha vai ficar desparelhada, mas dane-se, eu preciso sair daqui... &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Jô, posso dar uma palavrinha? – Ela levantou os olhos e encontrou Dani, a loura descomunal, na sua frente. – Eu só queria dizer que... Bom... Desculpa tocar nesse assunto, mas você sabe que eu e o Marquinhos não temos segredos... Eu só queria dizer que eu estou aqui, viu? Quando você precisar. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;E o que se faz quando uma alucinação demonstra solidariedade em relação a algo que você não faz idéia alguma? &lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Hmm... Obrigada... Eh... Eu preciso ir... Vou, vou ligar para o meu tio – ela respondeu e, esquecendo-se completamente da xícara, correu para a porta. Assim que pisou no corredor, os oito cachorros explodiram em latidos, o que foi a deixa para que Roberta saísse desabalada até se encontrar na segurança da sua cozinha, com todos os ferrolhos e trincos da porta fechados atrás dela. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Não que ela ficasse em casa por muito tempo, procurasse um médico, a família ou um padre. Roberta decidiu que seu problema era apenas um: havia dado tempo demais. Qualquer pessoa normal começaria a ter alucinações se passasse os dias trancada em casa, assistindo a filmes, sem qualquer contato com outro ser humano. Só o que precisava fazer era colocar a roupa de ir à rua, dar uma volta, respirar um ar diferente, e estaria curada. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Foi o que fez; considerou rapidamente ligar para um dos nomes da sua extensa agenda de telefones, mas, a quem estava enganando, não possuía mais contato com ninguém. Foi até a praia onde Jô encontrara Alice, sentou-se durante cinco minutos na pedra, comprou água de coco e jogou-a fora pela metade. Sentindo uma pontada horrível, concluiu que havia ficado sozinha. Tudo e todas as pessoas ao seu redor haviam se tornado parte de outra realidade, como se as estivesse vendo através de um espelho. Ao seu lado, só havia ela mesma. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Voltou para casa um pouquinho deprimida, um pouquinho solitária, com as mãos coçando para pegar o guia de programação da TV e ver se ainda podia salvar algo daquele dia. Ao invés disso, seus dedos foram automaticamente para o diário. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Os dias vinte e três e vinte quatro haviam desaparecido, e a próxima entrada correspondia ao dia vinte e seis de agosto. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Falei com o tio Antônio ontem e, como eu esperava, ele ficou muito feliz em nos receber. Parece que tia Rosa ia começar a cozinhar imediatamente. Culpa? Um pouco. É horrível usar uma das poucas pessoas que ficaram ao meu lado e que bom que eu me sinta culpada, isso prova que eu não sou uma psicopata. Não sei se esse presente de boas-vindas foi um presente de grego, no final das contas. Mas deixa para lá, é melhor eu ir para a cama. Com a consciência leve ou pesada, partimos amanhã de manhã. &lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;E fim. Tio Antônio não se materializou na sala, tampouco Alice tocou a campainha para devolver a xícara. Sentindo-se leve e um tantinho decepcionada, Roberta fechou o diário e decidiu que sim, era uma boa idéia ir dormir. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2340667380035569147-3075569841228166167?l=memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/feeds/3075569841228166167/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2340667380035569147&amp;postID=3075569841228166167' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/3075569841228166167'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/3075569841228166167'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/2008/09/capitulo-2-reunio.html' title='Capitulo 2 - A REUNIÃO'/><author><name>Nome: Malu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16298942119359110223</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2340667380035569147.post-3992044645560979192</id><published>2008-09-03T22:18:00.000-03:00</published><updated>2008-09-03T22:24:07.800-03:00</updated><title type='text'>Capítulo 1 - A DESPENSA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;            Eram dez horas da manhã e Roberta assistia à televisão. Passavam uma repise de comédia com Tom Hanks. Segundo suas contas, era a quinta vez que mostravam aquele filme apenas este ano, e ainda estavam em abril. Pelo andar da carruagem, ela estava condenada a passar o resto do ano vendo a casa recém-comprada de Hanks cair aos pedaços. Foi quando lhe ocorreu a incrível idéia de mudar o canal. Encontrou outra reprise, mas desta vez era de um filme com Mel Gibson. &lt;em&gt;Tudo bem, eu não me importo de ver o Mel Gibson um milhão de vezes&lt;/em&gt;, pensou, satisfeita.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Quando foi que a sua vida ficou tão chata? Era difícil definir uma data, ou mesmo uma época. Talvez tudo tenha acontecido progressivamente, no início ela mal conseguia perceber, mas seus dias foram ficando mais e mais entediantes até terminar naquele deserto desolado. Não era verdade que ela não possuísse mais amigos. De jeito algum, eles estavam todos lá, ela só precisava pegar o telefone e procurá-los. E, ainda assim, eram tantos que mal cabiam em sua agenda, talvez ela devesse comprar uma nova, estilo fichário. Festas? Era sempre convidada, apenas preferia ficar em casa porque... Por quê? Ah, sim, estava dando um tempo. Era algo muito bom, dar um tempo. Uma coisa muito adulta e madura de se fazer. Era ótimo para refletir, repensar, se conhecer. Poderia ir ao cinema, isso a livraria da assombração das reprises, mas então teria dois problemas: ligar para alguém, e depois sair de casa. Duas coisas cansativas demais para quem estava dando um tempo.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;E foi assim que trocou o cinema pelo armário. Na realidade, não era um armário, era uma despensa, embora “mixórdia” fosse o nome mais apropriado. Há meses que queria arrumar aquele buraco na parede da área de serviço e, agora que estava &lt;em&gt;dando um tempo&lt;/em&gt;, poderia muito bem fazê-lo. Então mudou de roupa novamente em um dia em que ainda não havia ido a lugar algum, com exceção da despensa, que continuava sendo lugar nenhum, apenas um armário, e nem isso era na realidade. Mas não podia assistir à televisão com a roupa de arrumar a despensa. Que ela não possuía. E que não custou muito a inventar.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Pensou em desistir quando abriu a porta do buraco, mas, como já estava vestida à caráter, resolveu continuar. Começou pelas prateleiras perto da porta, que eram as mais agradáveis, pois os alimentos ainda estavam dentro do prazo de validade. Prosseguiu pelos de validade vencida há um mês, depois dois meses, e então começou a parte realmente nojenta da tarefa. Certos produtos ela jurou que nunca mais comeria novamente, após vê-los esverdeados e moles quando não estavam escondidos dentro daquela abençoada embalagem opaca. Mas Roberta não desanimou, pois há uma coisa que, antes de continuar, todos devem saber sobre ela: seja arrumar a despensa, seja dar um tempo, Roberta não desistia de suas idéias na metade do caminho. Nem quando percebeu que certos bichos não se importavam de comer a comida que ela havia esquecido.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;E foi mexendo nas prateleiras, espirrando por causa da poeira e fazendo expressões de nojo inacreditáveis que ela encontrou o caderno. Era mais velho que sua comida, provavelmente mais velho que sua vida naquele apartamento, já que não era dela. Estava coberto por tanta poeira que ela pensou que aquele deveria ser o pai dos cadernos, o primeiro a ter sido inventado. E o que qualquer um teria feito? Teria aberto o caderno imediatamente, principalmente porque a arrumação não estava sendo um programa dos melhores, certo? Certo, mas Roberta levava as suas decisões até o fim, e não estava vestida para abrir cadernos, estava vestida para arrumar buracos. Por isso, deixou-o sobre a máquina de lavar e voltou para o que estivera fazendo.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi essa a linha de raciocínio de Roberta às dez horas da noite.&lt;p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;O que tem de bom para se ver na TV?&lt;br /&gt;Nada.&lt;br /&gt;Mas talvez haja algum filme interessante.&lt;br /&gt;Não tem, não, eles só mostram reprises.&lt;br /&gt;Foi por isso que resolvi arrumar a despensa.&lt;br /&gt;E achei um caderno.&lt;p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E foi assim que ela se lembrou e resolveu dar uma olhada na sua descoberta.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Sua primeira providência foi limpar a espessa cama de pó que havia sobre a capa. Para isso a roupa de arrumação servia, era tudo limpeza, limpeza de buracos, limpeza de cadernos. Constatou, para a sua grande decepção, que a capa mostrava adolescentes felizes e lindos amontoados em um carro conversível, o que provavelmente significava estar diante de um caderno de colégio. Perdeu imediatamente o interesse (que nunca havia sido muito grande, para início de conversa), mas, como não possuía nada melhor para fazer, resolveu abri-lo.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Engano. Era um diário. Agora sim, chegou a sentir um frio no estômago. Não havia nada mais excitante que ler os segredos dos outros. A própria Roberta havia tentado começar um diário, mas a vida quando se dava um tempo não tinha muitos acontecimentos para serem narrados, e acabou desistindo. Bom, mas se alguém tivera uma vida tão agitada a ponto de narrá-la em um caderno tão grosso, então certamente valeria a pena conferi-la.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Roberta pegou uma lata de refrigerante na geladeira e começou a ler a primeira página.&lt;p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;23 de agosto de 19-&lt;p&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Combinei com a Alice na praia. Ok, eu adoro praias, adoro &lt;/em&gt;aquela&lt;em&gt; praia, e achei que, já que estou pronta a recomeçar, não haveria lugar melhor para um renascimento... ai, meu Deus, que piegas! Confesso, meu estado de espírito tem sido este, então vamos em frente. Vários acontecimentos importantes da minha vida tiveram lugar naquelas pedras, e em outros sempre havia uma praia envolvida, então por que não ser um pouco supersticiosa? Ah, e claro, a Alice, para variar, estava atrasada.&lt;/em&gt; &lt;p&gt;&lt;br /&gt;Roberta piscou, aturdida pela diferença da luz sobre o papel. De repente, parecia que tudo havia ficado incomodamente claro. Automaticamente olhou para cima, para checar o que havia acontecido com a luminária bege da sala. E qual não foi a sua surpresa ao ver, em lugar da luminária, o céu!&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Roberta levantou-se de um salto e por pouco não perdeu o equilíbrio, pois, ao invés de estar sentada em seu sofá, estava em uma pedra na praia. Imediatamente, várias coisas que lhe haviam escapado preencheram a cena: as ondas estourando, o sol queimando-lhe a pele, o grito das gaivotas e o cheiro de maresia, e foi nessa hora que Roberta de beliscou. Beliscar-se sempre foi uma coisa que lia em livros e achava estúpida, pois pensava que as pessoas nunca o faziam na vida real. Naquele momento, foi sua primeira reação. Não acordou. Em pânico, correu os olhos em volta e deu com o diário em suas mãos. Ela havia começado a ler sobre uma garota que havia combinado de ir à praia para encontrar uma amiga chamada...&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Jô!&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Roberta levou um susto, pois não havia reparado em outras pessoas. Virou-se e viu uma mulher da sua idade, loura e de cabelos curtos, que caminhava na sua direção. A moça parecia sorrir para ela, e Roberta procurou outras pessoas na pedra. Estava sozinha.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Alice? – Sua boca se abriu e despejou o nome do diário.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-É, eu sei, ficou muito curto. – A garota respondeu, mexendo nos cabelos e finalmente a alcançando. – Foi por isso que eu me atrasei, desculpe, e na realidade preciso correr de novo. O Marcos ligou me chamando para almoçar, discutir umas idéias. Sei que combinei com você primeiro, mas você entende, não é?&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Como Roberta não entendia nada, quem era a Alice, quem diabos seria Marcos, e o que raios ela estava fazendo ali, achou melhor não dar uma resposta.&lt;p&gt;&lt;br /&gt;-Ah, não fique com essa carinha, Jô! – Alice respondeu, ainda bem humorada. – Vou ver se consigo marcar a reunião, ok? Eu te ligarei em breve! Quer carona para algum lugar?&lt;p&gt;Sim, para o manicômio mais próximo, Roberta pensou, mas não o disse em voz alta, pois o mundo havia começado a girar. Foi isso, o mundo rodando, a última coisa que viu antes de tudo ficar escuro e ela desmaiar.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2340667380035569147-3992044645560979192?l=memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/feeds/3992044645560979192/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2340667380035569147&amp;postID=3992044645560979192' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/3992044645560979192'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2340667380035569147/posts/default/3992044645560979192'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://memoriasdeumavidaimaginaria.blogspot.com/2008/09/captulo-1-despensa.html' title='Capítulo 1 - A DESPENSA'/><author><name>Nome: Malu</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16298942119359110223</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
